Tweet da Semana #3



Ele nos pedirá contas do que deveria ter sido e não foi, e do que deverá ser e não será. O que foi e o que será: Ele será Deus não realizado…

 

 

Kitsch: a indulgência plenária


“Antes de sermos esquecidos, seremos transformados em kitsch. O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento.”

(Milan Kundera in ”A Insustentável Leveza do Ser”)


A palavra kitsch, em alemão, tem significados meio controversos. Tem a ver com estética e arte, denotando uma postura pouco tradicional, onde tudo é permitido para que não hajam tantas dferenças entre estilos. Imita o que é considerado, na forma erudita, como belo e aceitável, mas que, na verdade, é apenas um disfarce, uma máscara para que não fiquem visíveis a falta de originalidade, a indiferença e a falta de aderência às coisas.

Tentando entender o significado da expressão acima à luz do livro de Kundera, consoante seu tema principal (a volatilidade da Vida, de seus valores e percepções), ficou-me claro que ele quis dizer que o kitsch é nossa última e suprema indulgência em relação àquilo com que nos confrontamos e estamos em conflito. É como se tivéssemos de perdoar ou mesmo diminuir o peso sobre algo para que possamos então nos desapegar.

Tudo aquilo pelo que brigamos, até então, passa a não ter para nós tanta importância. Passamos a não discutir mais sobre certas coisas, aquelas mesmas as quais acreditávamos serem essenciais. Os pilares imprescindíveis de nossa posição perdem seu peso magicamente, de uma hora para outra, e nos perguntamos por qual motivo. Isso é sinal de uma situação gasta, de memórias não revistas com tanta frequência, de questões cujas respostas foram displicentemente proteladas.

Semelhante ao esquecimento de um ente querido que se vai, pelo qual só fica a saudade um pouco anestesiada, um kitsch compulsório, nosso esquecimento pelos outros passa pelo cansaço que nossa presença causa, pelos traumas e sofrimentos que podemos vir a inspirar. Quando a mente cansa, ela força o kitsch, a banalização dos pesares pelo famoso “eu não tô nem aí” ou por um “não me importo mais”. Se não for um blefe, devemos nos cuidar: pode ser o último perdão e supremo ato de indulgência anteriores ao afastamento da Vida e do Amor.

Fonte da citação: http://pt.wikiquote.org/wiki/Milan_Kundera

Doce amargo


Hoje, como em muitas outras noites, contei meus dias. Estão diminuindo em sua duração, é claro. Já não têm a duração das peladas eternas em campos de várzea, das tardes passadas sob os arbustos da Praça 7 de Setembro, em Palhoça. Hoje, vivo uma noite singular de um dia encurtado pelas preocupações sufocantes, dentre raros prazeres ou devaneios descompromissados.

Dizem os ascetas cristãos que o sofrimento nos liberta a alma. Eu digo que a Liberdade traz o sofrimento primordial de ver desvanecer-se parte de sua personalidade, justamente a parte oferecida em sacrifício pela disciplina da Vontade, que nada mais é que um desejo  tornado consciente e maduro. A Vontade confirma-se apenas por atos. Nossos atos, a despeito de nossa ascendência (ou não) sobre eles, nos carregam com a insígnia de nosso Nome. Assim, Deus dizia dos que lhe conheciam pelo Seu Nome, ou seja, pelos que viram manifesta sua Vontade em Atos. Ou seria Atos que representariam sua Vontade?

Nem sempre nossos Atos representam nossa Vontade. Muitas vezes, eles representam uma contingência do que deve ser nossa Vontade dirigida a uma adequação circunstancial. É uma tal compulsão pela conformação das coisas, e de nós mesmos, a uma necessidade de harmonia que jamais conhecemos de fato, apenas intuindo-a. Somos seres essencialmente instáveis e, por isso, suscetíveis ao vislumbre de miragens ideais.

Sinto hoje o tom envelhecido das frutas da estação, ao cair do outono da Vida. Sinto aquela vontade de retornar ao abrigo do ventre materno. A lagarta é duas vezes ela mesma ao tornar-se borboleta, já imiscuída à Liberdade solitária do ser adulto, ao sofrimento em meio à separação do desejo protegido pelo casulo, sujeita às degenerações do Tempo que corre, livre às vistas, com as folhas amarelas a preencher os terrenos baldios. Há épocas em que não voamos mais em direção ao néctar, mas ao alimento.

Essa Liberdade já não é mais facultativa, mas, então, compulsória. A sandice não cai em nada como romper cadeias, mas em  habitá-las. O estímulo não é mais natural, e sim conduzido, como numa dança desesperada pela chuva de minutos no sertão. A tensão não emana do ar do vento norte, trazendo tempestades espetaculares, mas somente de tremores da bílis, conduzindo mal-estar aos quatro cantos do leito abdominal. Motivos esparsos, adormecidos, eivados de ideias persistentes e obsessivas, surpreende-nos a cada minuto pelas vielas por entre as casas, subidas e descidas, perscrutam as lajes e esbarram em gatos assustados.

Os olhos vigilantes de nossa Liberdade marcial decreta-nos soluções para um século de Paz, mas não tira o peso de cada tarde de Guerra Fria nas tardes de sábado. Eternidade é a velocidade dos sentidos por segundo ao quadrado. Eis a fórmula a qual Einstein não descrevera, a quadratura de nossos Círculos, a evolução de um Conceito e a explicação do motivo de aquilo que nos é doce, às vezes, nos parecer tão amargo, e/ou vice-versa.

Amor ou Posse?


O nosso «amor pelo próximo» não será o desejo imperioso de uma nova propriedade? E não sucede o mesmo com o nosso amor pela ciênica, pela verdade? E, mais geralmente, com todos os desejos de novidade? Cansamo-nos pouco a pouco do antigo, do que possuímos com certeza, temos ainda necessidade de estender as mãos; mesmo a mais bela paisagem, quando vivemos diante dela mais de três meses, deixa de nos poder agradar, qualquer margem distante nos atrai mais: geralmente uma posse reduz-se com o uso. O prazer que tiramos a nós próprios procura manter-se, transformando sempre qualquer nova coisa em nós próprios; é precisamente a isso que se chama possuir.

Cansar-se de uma posse é cansar-se de si próprio. (Pode-se também sofrer com o excesso; à necessidade de deitar fora, pode assim atribuir-se o nome lisonjeiro de «amor). Quando vemos sofrer uma pessoa aproveitamos de bom grado essa ocasião que se oferece de nos apoderarmos dela; é o que faz o homem caridoso, o indivíduo complacente; chama também «amor» a este desejo de uma nova posse que despertou na sua alma e tem prazer nisso como diante do apelo de uma nova conquista. Mas é o amor de sexo para sexo que se revela mais nitidamente como um desejo de posse: aquele que ama quer ser possuidor exclusivo da pessoa que deseja, quer ter um poder absoluto tanto sobre a sua alma como sobre o seu corpo, quer ser amado unicamente, instalar-se e reinar na outra alma como o mais alto e o mais desejável.

Friedrich Nietzsche, in ‘A Gaia Ciência’

Uma Luz, um Caminho!


Estou aqui, a essa hora, para escrever um desabafo. Quem, afinal, não escreve ou nunca escreveu um desabafo? São 00h25 da manhã. Não consegui dormir, e depois de um diálogo difícil meu com meu ego, percebi que precisava exteriorizar alguns fantasmas.

Muitas pessoas falam que a luz para nossa escuridão existencial deve ser encontrada unicamente em nós mesmos. Mas,  o que elas esquecem é que somos cegos e imperfeitos. Quando, finalmente encontramos alguma luz, esta tende a nos cegar. Por isso, por temermos a luz, costumamos permanecer na escuridão, ainda que as tais trevas nos mantenham em dificuldades.

Costumamos, também, dizer que para tudo há um jeito, exceto para a morte. Eu diria, porém, que para tudo há, no máximo, um remendo possível. Um vaso quebrado, se colados seus cacos, nunca mais será o mesmo vaso de antes da queda. Um amor ferido, mesmo que restabelecido em seu lugar principal, não mais será o amor da inocência do primeiro encontro. Um amor não vivido, quando enfim encontrado pelas esquinas da vida, não terá mais o mesmo impulso, ainda que a vontade de voltar à virgindade (perfeição original) seja vigorosa.

Eis minha vida, que continua, mas cujos remendos, se poucos, se tornaram difíceis. Deixei minha mãe, segurando seu pranto de escorpiana e mãe divorciada, na porta de casa, e fui-me aos 16 anos, só com uma trouxa de roupas e alguns objetos pessoais, para uma aventura inconsequente, a qual me trouxe um filho. Foi a apoteose do meu orgulho adolescente, ávido por liberdade (ou por perder-se). Não escutei a voz da Razão na boca de minha mãe, e perdi longos 5 anos, passando fome, sendo devorado pela diabetes, desempregado, sem estudar e perdendo de vista todos os meus sonhos.

Para esses anos não há remendos possíveis. Isso mesmo, nem ao menos remendos!! Para esse tempo perdido não há abatimento ou indulto; a Vida cobrará o preço de minha soberba pelo resto de meus dias. E agora, o que me resta? Cuidar dos restos de mim? Sim, a Vida me foi ainda benevolente ao me conceder, a duras penas, um trabalho estável para que eu não passe fome e uma pessoa que me ature, talvez também por ter-se perdido em seu orgulho adolescente.

Com sorte, serei comido, bem devagarinho, pelo diabetes, que já mostra sua ferocidade. Com sorte, não entrarei em depressão ao me dar com uma exposição de fotografias ou numa notícia de descoberta arqueológica. Se possível, não sentirei inveja quando meu irmão mostrar seu carro novo, a cada reveillon, e nem mesmo quando um primo distante me reconhecer e dizer que não estudou nada, mas assim mesmo abriu mais uma filial de alguma merda por aí. Bem, também não fiz faculdade, mas continuo fudido! Motivo: covardia e mediocridade. Quem busca saltar muito alto, com vara de bambu, no máximo consegue alcançar o muro.

Bem, aos 40 anos já estarei morto sexualmente. Por isso, decidi não querer mais ter filho, já que, realmente, não sei que tipo de pai ele teria; impotente, deprimido e fudido. Meus órgãos internos já estarão deteriorados, ou comprometidos. Mesmo já tendo parado de fumar, continuarei com os mesmos problemas vasculares que já tenho aos 30 anos. Portanto, não sei se chegarei a jogar futebol com meu filho, já que bastaria um calo para que reaparecesse o perigo de amputação de um dedo, vários dedos ou até mesmo do pé ou perna inteiros.

Decidi não escrever mais crônicas ou poesias. São histórias contadas por mim que estão muito distantes de meus olhos, falam de coisas das quais só consigo teorizar e de sonhos que estão muito além da minha coragem ou possibilidade de vivê-los. Acho que, muitas vezes, escrevo para fugir do meu ego agressivo, já que ele é o flagelo que a Vida entranhou no meu pescoço para me fazer beber mais ainda dos meus erros, me incutir a culpa que vem do inferno e me desvirtuar ainda mais. Não escrevo mais contos, porque acho que aqueles personagens é que teriam habilidades suficientes para escrever uma tragicomédia a meu respeito. Mas não  o fariam, pois a tragédia já não é um gênero muito popular entre os leitores, e o romantismo de Shakespeare, no mundo de hoje, já caiu em desuso por achar-se deveras piegas.

O Ego é tão covarde como nós mesmos; o Ego bate num bêbado cego, que caiu por suas próprias pernas podres, e nós batemos em nosso peito, achando que existe um Deus bonachão, que figura em filmes de super-heróis e salva até os piores canalhas. Eu poderia ter sido tudo, se ousasse me controlar e subir um degrau por vez. Mas fui atraído pela beleza do precipício, e me lancei abaixo, louco de paixão por meu próprio orgulho. Minha vida se perdeu e nunca mais foi achada. Mas, – estranho – eu tenho consciência de que minha vida está perdida, deslocada no tempo, fora de sua órbita, tal como na história do mendigo Jeremias, alheio ao mundo, que pensa ter morrido e acorda numa poça de lama em mais um fim de tarde chuvosa.

Sinto que nossa vida se desvanece, como areia por entre os dedos. Mas nós a sentimos ainda, desvanecida. Essa propriedade humana de sentir, ter consciência, incomoda e dói muito, às vezes. Vemos, então, a Vida nos esfregando nas fuças, o tempo todo, que não somos nada mais que poeira sobre ossos, que não sabemos nem mesmo que horas são, já que o fuso horário é relativo. Tudo é absolutamente relativo, e esse é um paradoxo que, acho, nunca desvendarei.

Enfim, quero dizer que estou cansado. Acho que a velhice na alma está chegando, e isso já não me assusta. Só me persegue a sombra na alma, me dizendo que estou preso na própria jaula que forjei para minha libertação, que quis avançar no Tempo, e regredi muito mais.

Peço uma luz, um caminho!! Espero não ser tarde para reconhecer que estou precisando de auxílio divino. No entanto, sei que durante a Noite Negra da Alma estamos sempre sozinhos, em crise, nos deparando com nossas cicatrizes e abrindo-as ainda mais para ver porque ainda cheiram mal. É um momento de sentença que a misericórdia divina raramente interrompe. Se sobrevivermos, ótimo; a misericórdia nos busca e leva para outra paragem. Se não passamos na prova, nos levam os Habitantes do Umbral para um momento mais drástico, onde tomamos ainda mais Consciência do quanto paramos no Tempo. Existe castigo pior??

Essencialmente Nus


(Repostado de: http://ebraelshaddai.dihitt.com.br/noticia/essencialmente-nus)

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"Nu, todo mundo é igual!"

“Nu, todo ser humano é igual! Se está vestido, as roupas andam sozinhas,

pois o ser humano é abduzido pela maré de ilusões…”

Para além das aparências e dos muros-máscara de nossas personalidades forjadas e alienadas, descortina-se o quê? Apenas, a máscara que resguarda os fundilhos de outra máscara…

Nesse baile interminável e burlesco de Arlequins e Pierrots em que se tornou a realidade (??) de nossas sociedades (quão deploráveis elas são!), a impressão que me fica é que, mesmo retirando toda a maquilagem com cuidado exemplar e caridoso, ainda nos arderiam os olhos da Consciência.

Nu, todo ser humano é igual! Se está vestido, as roupas andam sozinhas, pois o ser humano é abduzido pela maré de ilusões…

A nudez (transparência) é essencial para os sentimentos destituídos de adereços, como Amor-Eros (Paixão), Amor-Philia (Amizade) e Amor-Agapê (Amor, Caridade). Os adereços, disfarces, máscaras, tapa-isso e tapa-aquilo, são usados só para o que é vergonhoso (vaidade, luxúria, soberba, orgulho, etc.).

E porque o Amor nasceu na nudez? O próprio Amor precisa ser nu pois que não admite meio-termo: ou ama-se totalmente e nos entregamos corajosamente, ou a decepção com nossa própria covardia nos tece uma folha de parreira para cobrir nossa ignóbil fraqueza moral, nossa falta de fé, nossa caridade desdentada que não sorri aos que vem nos mendigar um pouco de afeto.

A incapacidade de nos entregarmos totalmente ao Amor ao próximo, e a quem se oferece gratuitamente a nós, é comparável ao medo da morte: é temer a perda de algo que não nos pertence. Ora, o Amor é uma energia. Ele não nasce no ser humano, mas o perpassa como eletricidade. Somos apenas interruptores cujas chaves devem permanecer abertas para que a Luz chegue a todos.

Tal como os frutos do Amor humano nascem nus, nossos filhos, nossa personalidade deve ser límpida de toda desculpa esfarrapada para não agirmos para o bem. Como eu disse, as vestes pseudo-moralistas apenas abafam nossa Luz interna, são as mentiras que pregamos em nós mesmos para não olharmos para cima e não vislumbrarmos a essência das coisas que são puras. Não olhamos acima de nós porque nos envergonhamos, porque não nos acreditamos mais como frutos do Amor, senão do acaso biológico.

Coitados de nós quando o baile acabar e termos de deixar cair as grossas camadas de máscaras! Ou pior, quando nos arrancarem-nas como se fôramos fugitivos da Vida, Adão e Eva, perdidos no Paraíso, com suas genitálias de desejos infindos expostas ao vento do cair da tarde.

Ebrael Shaddai, FRC.