Eu estava hoje indo, como todos os dias faço, trabalhar, quando, dentro do ônibus, percebi que algo estava errado comigo. E se tinha algo errado, já fazia algum tempo, porque quando percebemos isso, é porque não passam de sintomas e que as causas já subsistem há muito.

Eu estava mesmo era acabrunhado. Mas com o que? Percebi o desconforto a cada vez que me lembrava da rotina de trabalho que me esperava no Call Center. O meu trabalho é relativamente simples, mas do qual não se pode esperar grandes realizações. Talvez uma promoção aqui, um aumento de salário logo à frente. Mas nada, nada mesmo, excitante para mim. E porque?? Porque não faço o que desejo fazer, o que eu sonho realmente fazer, mas apenas o que as contingências da vida de homem, casado e responsável, exigem de mim.

E me perguntei: por que não estou fazendo o que sonho fazer?? Por que não me aplico ao estudo daquilo que eu sinto ter nascido para realizar?? Por falta de dinheiro para investir em cursos?? Por falta de tempo?? Sim, porque até tempo para blogar está me faltando… Ah se pudesse investir no blogging e ainda sobreviver com ele!! Sonho fazer tantas coisas. Sou um homem essencialmente sonhador, mas do tipo de sonhador que não têm os pés muito no chão, ou pelo menos não por muito tempo. Até hoje não sei o que minha mulher viu nesse garotão de 28 anos.

E talvez tenha sido justamente por essa rebeldia minha em não querer fazer aquilo tudo que é necessário para sobreviver (para ficar nadando em nuvens de algodão-doce) e criar raízes em algum lugar para que pudesse me estabilizar financeiramente, que hoje ainda sou um Zé Povinho, um cara cheio de cultura e intelectualismo teórico, vindo de livros, e sem conhecimento para suficientemente pagar todas as contas mensais.

E quando dizem que a vida é uma escola, não me espanto. Minha vida tem sido isso mesmo. Todos os caminhos que me levariam aos meus sonhos, ou se fecharam sozinhos ou eu os fechei conscientemente. E fui levado a uma vida que eu não desejava (digo, há muito tempo atrás, não exatamente agora). Fui levado a uma vida real que não era a dos meus sonhos. Não que eu esperasse viver como criança a vida inteira. Esperava viver uma vida de um homem realizado, fazendo as coisas pelas quais sou apaixonado. E os eventos, desde os 17 anos de idade, correram como um fluxo de eventos irresistíveis. Em suma: queria estudar, engravidei uma namorada, assumi um filho, comecei a trabalhar para ajudar, mesmo separado da mãe do meu filho. E, daí em diante, aqueles sonhos de menino foram se tornando distantes, quase uma utopia. Falta de tempo, de dinheiro para me aprofundar em estudos caros, etc. A lição que a vida me empurrou goela abaixo foi que eu deveria viver a vida real como todos os outros. E que vida real era essa?

Acordar, dar comida ao gato, ver qual conta vai atrasar e qual será paga. Qual desculpa para não ir ao aniversário da cunhada chata?? Gripe ou trabalho??

Correr, correr muito para pegar o ônibus. Correr mais ainda para pegar um no horário em que ele vá menos entupido de gente. Dormir no ônibus, de pé, é difícil.

Tomar um café antes de entrar no trabalho. Pensar nas metas do dia. Encarar o supervisor com cara de quem está com dor na vesícula.

Atender um cliente surdo, ou quase surdo, com uma solicitação impossível, em um tempo hábil pequeno, restrito.

Aguentar, novamente, pela 5ª vez na semana, meu supervisor dizer que eu estou com um rendimento abaixo da meta (embora os números digam o contrário), que o cliente sempre tem razão e que problemas no sistema e com o perfil dos clientes não justificam o decréscimo no desempenho.

Almoçar em 20 minutos. Esses 20 minutos incluem esperar na fila uma vaga para esquentar a comida num dos 4 microondas disponíveis, num callcenter onde trabalham 2500 operadores.

Na volta para casa, esperar pelo último ônibus da noite. Ser assaltado por um marginal, que me vem pedir dinheiro pra tomar uma “pinga”. Não tenho dinheiro. Ele me leva dois vale-transportes. Vou ter que arrumar mais uma grana para cobrir esse mísero rombo no meu orçamento. Já trabalho 146 dias por ano para sustentar uma máquina governamental incompetente e ainda tenho que financiar a “pinga” do marginal!!

Chego em casa, minha mulher me espera dormindo no sofá. Dou um beijo em seu rosto e vou tomar um café, tonto de fome, com o estômago grudando nas costas. Mal consigo conversar com ela. Ela também já trabalha pra caramba.

Vou dormir, mais um dia, com o sentimento de dever cumprido. Comida na mesa. Dispensa mais ou menos variada. Mas também, sinto um imenso vazio. Mais um dia em que não realizei o que sempre sonhei, e a certeza de que amanhã tudo indica que será igual como sempre. Pode mudar, mas são desses milagres da vida que muito raramente acontecem. Mas minha agenda me aponta que amanhã, às 14:00, estarei atendendo no Serviço 102 de Florianópolis. As escadas me verão escalar. no mesmo horário, os mesmos degraus, mas o crachá será o mesmo, pendurado no pescoço do mesmo jeito.

À noite, e de dia, continuo sonhando. E quanto mais distantes ficam da realidade esses meus sonhos, mais demoro a acordar, no ônibus, no banco da praça, na oração solitária, na cama ao deitar. Mais empolgado eu fico. Por outro lado, também igualmente decepcionado, quando olho para o bendito crachá e para o meu olerite mensal.

Acho que estou ficando do jeito que o Raul não queria ficar, quando cantava:


Eu que não me sento no trono de um apartamento, com a boca
escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar…

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