Fábula Eleitoral para Crianças (por Paulo Mendes Campos)


Nesse dia 12 de junho, conhecido como dos Enamorados, com tantas rosas e flores indo e vindo, me lembrei de uma crônica de Paulo Mendes Campos, um dos meus autores preferidos, com cujos escritos tomei gosto pela leitura na adolescência. Digo, gosto pela leitura, sobretudo, descontraída e descompromissada com estilismos, muitas vezes desnecessários. Esse não é o caso do Paulo M. Campos, longe de mim dizer isso. Mas, ele me ensinou sobre a leveza que a leitura poderia trazer em seu teor, falando, sobremaneira, dos nossos sentimentos cotidianos, ao mesmo tempo, de forma profunda e divertida.

Eis a Fábula Eleitoral para Crianças:

Um dia, meninos, as coisas da natureza quiseram eleger o rei ou a rainha do universo. Os três reinos entraram logo a confabular. Animais, vegetais e minerais começaram a viver uma vida agitada de surtos eloquentes, manobras, recados furtivos, mensagens cifradas, promessas mirabolantes, ardis, intrigas, palpites, conversinhas ao pé do ouvido.

Entre os bichos, era um tumulto formidável. Bandos de periquitos saíam em caravana eleitoral, matilhas de cães discursavam dentro da noite, cáfilas de camelos percorriam os desertos, formigas realizavam comícios fantásticos, a rainha das abelhas zumbia com o seu séquito, sem falar nos cardumes de peixes, nos lobos em alcatéias pelos montes, nas manadas de búfalos pelas savanas, nas revoadas instantâneas dos pombos-correios.A despeito dos imensos interesses em choque, de tantas contradições, é preciso dizer, a bem da verdade, que o pleito transcorreu com limpa lisura.

Todas as qualidades eram postas à prova: a astúcia da raposa, a agilidade dos felinos, o engenho dos cupins, o siso da coruja, o poder de intriga das serpentes, a picardia do zorro, a doçura da pomba, a teimosia do burro, o cosmopolitismo dos ratos.
O leão, o tigre, a pantera, o leopardo e outros queriam derramar muito sangue; os pássaros coloridos faziam frente única para indicar um pássaro colorido; já os pássaros que cantam, decidiram apontar como candidato o rouxinol, a cotovia, a patativa.
Os papagaios viviam a arengar bobagens pelos galhos. A raposa corria as várzeas articulando uma candidatura, ninguém sabia qual. O macaco era vaiado quando alegava semelhança com o homem. O cavalo se meteu a candidato, dando a sua condição de antigo senador do império romano.
O pavão, escondendo os pés, exibia a cauda. Certos bichos, como o boi e a íbis, invocavam seus direitos divinos, que não eram mais levados a sério. As hienas e os chacais opinavam por um conselho de notáveis, a ser instituído pelos animais ferozes que lhes deixavam os restos.
Nas profundezas do chão, o carbono fazia estranhas combinações com o hidrogênio. O diamante e o ouro brilhavam de esperança. As estrelas pretendiam uma coalizão de todo o espaço constelado em torno de Vênus, causando ciúmes à Lua.
As flores distribuíam perfumes à vontade. árvores agitadas recebiam recados que o vento trazia de longe. A floresta pensava eleger não um rei, mas um colegiado de carvalhos experientes. E por toda a flora era um germinar, um brotar, um verdejar, um florescer sem conta.Ao fim de tudo, a escolha não podia ter sido mais feliz, pois os três reinos unidos elegeram a rosa Rainha suprema do Universo.
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8 comentários

    1. Sem dúvida, Lita!! Um dos textos que me trouzeram a noção de que a leitura, mais do que informar (geralmente por más e manipuladas notas de jornais), tinha a função de trazer nosso inconsciente, com todos os seus sonhos, para dentro da realidade, e manifestar os mais belos arquétipos da Natureza…

      Bjs querida!

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  1. Belíssimo texto! Saudades de minha infância, qdo bem garota, pegava o meu livro de português e fazia a leitura desse texto para o meu pai, que se deliciava ouvindo a minha narrativa.

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  2. Que lindeza! Que ligação com a Natureza! Já foi para o meu twitter. E a gente vê a sutileza e diplomacia dele que, nas entrelinhas, aborda todos os tipos de personalidade humana, representados pelos animais e respectivas qualidades e defeitos, concluindo o texto com chave de ouro, ao eleger o AMOR NATURAL, simbolizando pela rosa, como a supremacia do universo. Ele é mesmo iniqualável!
    Brilahnte postagem! Gratíssima! Abraço fraterno!

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