Papo brabo esse, não é mesmo?? Mas, talvez, por essas coisas em pouco ou nada nos afetarem, a nós, que achamos sermos abençoados só por termos internet em casa, é que não nos importamos tanto. Podemos até fazermos aqui ativismo político pelo combate à fome, pelo fornecimento de água ao semiárido nordestino. Mas não é a mesma coisa, pois essas coisas não fazem nosso corpo reclamar. Temos essas necessidades satisfeitas (por água e comida) e voltamos nossa atenção para outros assuntos “menos” essenciais. Mas. e os que carecem dessas coisas básicas, mínimas??
Não é minha intenção fazer aqui algum tipo de demagogia barata. É somente o assunto que apareceu prioritariamente na minha mesa de blogagem, para que eu o despachasse…
Na quinta-feira, quando eu vinha para casa do meu segundo dia de trabalho como escriturário de almoxarifado, no ônibus, um senhor começou a puxar papo comigo. Segundo ele, tinha 61 anos de idade e 7 filhos. Todos trabalhavam, tinham seus filhos e suas famílias. Ele trabalha até hoje com estaqueamento de prédios. É respeitado em sua profissão. Mesmo estando de pileque, listou todas as empresas onde trabalhou e todos os lugares do Brasil, com riqueza de detalhes, onde aplicou fundações de prédios, pontes e estradas. Mas era uma pessoa simples, vestida com trajes simples também.
Ele começou a falar, em sua exaltação etílica, do que poderia fazer um homem feliz, de verdade, na vida. Pelo menos, do que o fazia feliz. Ele dizia que sempre trabalhou para comer e dar de comer à sua família no dia seguinte. Fez casa, deu educação aos filhos. Mas nunca se preocupou em ter carro, casa luxuosa, etc. Apenas em comer bem, estar com a família reunida e nunca dever nada para ninguém. Ele falava das quantas pessoas já encontrou pela vida que se ufanavam por ter um carro importado e uma casa espaçosa, móveis caros, roupas da moda, mas que, no entanto, comiam mal e pobremente. Enquanto em sua casa havia fartura de comida, na casa dos ricos comia-se pior do que em refeitório de albergue popular. Ele comia feijoada em sua casa, aos finais de semana, feitas por ele mesmo, e os ricos comiam congelados ou algo que ditava seu status. Para ele, nada dessas coisas materiais ele levaria para o túmulo. Isso tudo não enche barriga, não satisfaz – dizia ele.
Eu nunca cheguei a passar fome de verdade, por um período longo. Por escolhas erradas e infelizes, tomei um caminho também infeliz na juventude, e passei por muitas necessidades. Mas o café com farinha, arroz e ovo frito, mingau de angu, eu sempre tive. Enquanto o bucho estivesse preenchido, o pagode da vida continuava, ainda haveria esperança.

Selma acalenta Tatiana:
com febre e com fome, o bebê geme, sem força para chorar.
Mas e os que não têm nem esse mínimo?? E os que vivem na desesperança, sem ter a quem recorrer, sem ter para onde correr?? Diante da fome e da sede, carências das duas coisas mais essenciais (comida e água), junto com a falta de ar, nada mais tem sentido. Não há como trabalhar, não há como pensar, não há o que esperar para amanhã. O corpo é que nos mantêm conscientes de nós mesmos. Nessa intensa necessidade, nos tornamos menos humanos e mais animais. Nos tornamos feras, voltamos a ser feras!! Nada mais importa!! Não tenho dúvida nenhuma que faria o que fosse necessário para dar de comer a uma cria minha. Preferiria morrer do que ver um filho meu morrendo de fome. Nunca!! Isso, nunca!!

O que acontece durante a fome??
Cai a taxa de glicose no sangue. O corpo começa a consumir as gorduras. Acabadas as gorduras, o organismo avança sobre as proteínas. As proteínas são os construtores e mantenedores da estrutura corporal. Então, o corpo vai dissolvendo-se, sendo desconstruído. Nos primeiros dias há um desespero do corpo, pois o mesmo não estaria acostumado com a carência de comida. Febres passam a ser constantes, como uma forma de o corpo alertar que algo está muito errado. Passam a ocorrer intensas alucinações, agressões, delírios. Depois de alguns dias, o corpo adapta-se à nova situação. Passa a consumir menos energia, e a pessoa dorme mais do que fica acordada. Nessa fase, não há mais o que evacuar nem urinar, aliás, a desidratação ocorre justamente pelas diarréias, pois o intestino ainda continua funcionando por um tempo, apenas com líquidos, sem sólidos. A desidratação, aliada à febre alta, vai destruindo, um a um, os órgãos internos. O faminto morre por falência múltipla dos órgãos.
O desespero da fome
O que acontece durante a falta de água (desidratação)??
Nosso corpo tem cerca de 40 litros de água. Se perdermos de 15% a 20% disso, as células dos tecidos começam a murchar, e o sangue fica viscoso, grosso, dificultando o trabalho do coração. Isso depende das condições físicas de cada um. A isso, seguem tonteiras, fadiga, ausência de urina (o que causa acúmulo de toxinas no corpo e falência dos rins), inconsciência, vômitos, diarréias, pele cinza-azulada, e consequente morte.
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Há tantas outras sensações extremas que eu não gostaria de sentir: ser carbonizado, morrer afogado, ficar sem ar. Mas nenhuma dessas me causa mais pavor do que a idéia de fome e sede, em locais sem recursos. Depois do papo com o velhinho, que com 61 anos ainda tem porte atlético melhor que o meu, que tenho 28 anos apenas. Percebi por quê, antigamente, mesmo tendo-se 5 ou 10 filhos, as famílias viviam melhor: comiam melhor. Trabalhavam para comer. Não havia outros tantos gastos “obrigatórios”: internet, roupas novas a cada 3 meses, balada no fim de semana, presentes caros no Natal… As diversões eram as quermesses na Igreja. Namoros eram nas praças, acompanhados de pipoca e guaraná de rolha. Roupas eram feitas pelas mães, que compravam rolos de tecidos e costuravam em máquinas de manivela e pedais. O intercâmbio entre pessoas era por cartas, pelas quais esperavam ansiosamente. Leite não se comprava na padaria, se recebia na porta de casa, em garrafas retornáveis, do leiteiro da rua que criava uma vaquinha no quintal de casa, alimentada todos os dias às 5:30 da manhã.
Basta uma casinha de sapê, somente uma casinha de sapê, para nosso amor crescer

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