Rituais do Cotidiano




Postado- Joici Cruz

“Os deuses estavam em toda parte e imiscuíam-se em todas as atividades da vida diária. O fogo que preparava os alimentos dos fiéis e os aquecia, a água que saciava sua sede e lhes proporcionava asseio, até o ar que respiravam e o dia que os iluminava eram objeto de suas homenagens”(Jung)


Desde o nosso nascimento estamos inseridos num mundo repleto de rituais, antes mesmo do nascimento, a gestante vive diferentes rituais e já vai passando para o filho esta vivência.
O banho diário, que antes era realizado rapidamente, passa a durar mais tempo, momento em que se dedica a lavar calmamente a barriga, acariciando-a, já na intenção de transmitir afetividade ao filho.
A relação a dois é vivida com rituais. O marido, ao chegar em casa, beija a esposa e beija a sua barriga, algo que não fazia com tanta frequência antes da gravidez.
Normalmente a mulher passa a realizar alguma atividade física mais voltada para o nascimento do bebê e para uma qualidade de vida melhor durante a gestação, dedica-se a caminhadas diárias, alimenta-se mais vagarosamente, escolhe melhor o que vai comer, enfim sua vida passa a ser mais ‘ritualística’.
Quando finda a gestação, inicia-se neste momento, um primeiro ritual; o do nascimento. No hospital vários cuidados são passados à mãe, o médico aconselha estabelecer uma rotina diária para o bebê, na amamentação, horário para dormir, acordar, dar banho etc.

Estes rituais vão marcando a vida da criança e passando para ela segurança, pois esta já sabe a hora que a mãe vai pegá-la e o que vai fazer com ela; quando passa um pouco do horário, começa a reclamar com o choro. O choro é o primeiro protesto ao ritual não vivido.

A partir de toda esta vivência, o mundo para este pequeno ser, é visto como um encadeamento de sucessivos rituais: rolar, arrastar-se, engatinhar, andar, falar etc.

Quando entra na escola inaugura-se o ritual da inserção na cultura. Agora, a criança está em outro ambiente, dividindo espaço, ampliando suas referências.

Na escola terá também uma rotina, que nos primeiros anos é muito respeitada, por isso marcada com um esquema ritualístico diário. A criança, já vai ficando ‘condicionada’ a tudo que passará a realizar. No dia que a merenda atrasa, ela já sinaliza.

E assim a vida vai sendo apresentada para ela repleta de rituais, porém muitas vezes o sentido destes rituais se perde, ou seja o sagrado do ritual é deixado de lado, e vira uma atitude mecânica.
O almoço em família que deveria ser um momento de confraternização, onde todos estariam juntos para celebrar a vida e o alimento, torna-se um momento estressante, fala-se de dívidas, compromissos, brigas no trabalho, assuntos que poderiam ser deixados de lado, porque nada acrescentam e tampouco contribuem para aquele momento, ao contrário; às vezes trazem uma carga energética tão negativa que perturbam a digestão.

O ritual da missa do domingo, às vezes celebrada apressadamente pelo padre e com a maioria dos fiéis preocupados pensando no que farão quando saírem dali.

A praia do final de semana, um local que deveria se prazeroso, mas que já perdeu o sentido de lazer, vira uma batalha; encontrar lugar para estacionar, encontrar um guarda-sol para não ter queimadura ou câncer de pele, encontrar uma mesa para a cervejinha e o caranguejo, ficar quase em cima do outro para “aproveitar” o dia. Muitas vezes nem o contato com a água é feito.

Transformamos as coisas que deveriam nos dar prazer em um verdadeiro desgaste e o sentido do que fazemos passa a importar muito pouco. Festas de aniversário que deveriam representar um ritual de passagem, às vezes transformam-se em exageros, exibição de status, poluição sonora, comida excessiva e de pouca qualidade, excesso de bebidas. Perdem o sentido da comemoração, o sentido do encontro.

Casamentos, batizados, enterros, formaturas que deveriam trazer marcas de uma etapa, fechamento ou abertura de processos, tornam-se maçantes, cansativos, deprimentes, caretas, onde muitas vezes as pessoas estão executando convenções e não vivendo-os de maneira verdadeira e profunda.

Gasta-se muito dinheiro para este tipo de comemoração, quando poderia ser algo simples e bem vivido.
A essência do sagrado é simples, porque na simplicidade está o genuíno. Na simplicidade está a sinceridade daquilo que se celebra.
Quantas vezes vamos a encontros menores, íntimos e nos sentimos bem, porque tivemos oportunidade de ouvir o outro, de ser ouvido, de ampliar saberes, de trocar idéias e sentimentos!
Nos saraus, por exemplo, onde todos estão reunidos com um só objetivo: contemplar a música e a poesia, alimentando a alma e aquecendo o coração; é este o fundamento de um ritual sagrado.
Aquele abraço apertado no filho lhe desejando bom dia é um ritual sagrado do cotidiano; aquele almoço durante a semana em casa, conversando coisas gostosas e perguntando sobre a vida dos filhos e falando de sua vida, também, de forma leve e descontraída, é um ritual sagrado do cotidiano; aquele momento, um pouco antes de dormir, quando se conta uma história, ouve-se boa música, faz-se um relaxamento; em família, a dois ou até sozinho é um ritual sagrado do cotidiano.
Enfim, pequenos momentos, porém eternos, porque são vividos plenamente, inteiramente, fazem parte dos rituais sagrados, por permitem um contato com o divino em nós, fazem sentido sem precisar dizer ou fazer mais nada além do que se está vivendo, são momentos em que outros pensamentos não invadem a mente, apenas o que está sendo desfrutado no aqui e no agora.
Se os professores, ao iniciarem suas aulas, lessem poemas, ouvissem música, filosofassem; estariam, assim, permitindo aos estudantes entenderem o propósito dos rituais, educando as pessoas para valorizarem os rituais, porque eles representam a nossa espiritualidade, eles concretizam o numinoso, eles existem para simbolizar a vida, por isso são sagrados e por isso, devem ser vividos no cotidiano, porque a nossa vida tem sentido a cada dia, todos os dias, a cada momento, fazendo em cada um, algo significativo, onde Deus se presentifica, porque o evocamos através dos rituais e quanto mais estivermos conectados com Ele, estaremos conectados com o Si-Mesmo.

“Ao penetrarmos numa floresta de árvores antigas e excepcionalmente altas, onde o emaranhado de ramos e galhos te esconde o céu: a majestade da mata, o silêncio do lugar, a sombra maravilhosa desta abóbada livre e ao mesmo tempo densa, não despertam em ti a fé em um ser superior? (Jung)

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