A Bohemia Fundamental e a Companhia dos Poetas


Pelo título, não quero que pensem que estou enchendo a cara, como faziam alguns Grandes Poetas e Escritores. Nem encho a cara, nem chego à sola dos pés de nossos Grandes Mestres Poetas. E a palavra Bohemia, hein?!? Está escrita propositalmente de forma errada, na grafia arcaica, pois não é ao sentido etílico-alcóolico que me refiro. Me refiro ao estado de alma do poeta, numa gestação de emoções em seu interior, como quem vai pôr os bofes pra fora, depois de ter tomado meio tonel da Mineirinha do Engenho Velho.

E é essa Bohemia que me invade e bagunça tudo aqui dentro do peito. Às vezes, é uma bagunça organizada: um vento assola e outro, logo em seguida, reorganiza tudo em versos e estrofes. Pode ser também uma Bohemia prosaica, trivial, em prosa sem versos, parágrafos sem teor definido, porém caindo como um volume de mercúrio sobre minha cabeça. É a Bohemia que não é cerveja, mas que, no calor da falta do que fazer, numa mesa de bar ou da varanda, é a salvação daquele que quer falar a verdade sem ter a quem se dirigir.

Cá estou, numa entrevista com os Poetas de outrora, numa autografia furtiva, escrevendo um pálido ensaio sobre mim mesmo, poetizando com as palavras agridoces de nossa Antiga Antologia.


Eu estou na fase da Dança da Chuva, rogando aos céus por uma resposta que não chega. Abro meu peito para que um analista cego me destrinche e me diga qual é o diagnóstico da alma. Rígido Silêncio. Aquelas vozes, que agora não passam de tons agudos irritantes, das Musas, pedindo por caneta e papel, não me falam coisa alguma. Ficam lá, a entoar melodias monótonas aos marinheiros e camponeses…

Enquanto isso, eu aqui… Eu aqui, com minhas quimeras e afagos na alma, junto de Augusto dos Anjos.

E eu? Fico aqui com o José do Drummond. E agora, José? Ele retruca: “E agora, Ebrael? O Amor é isso mesmo“. E o Poeta ainda debocha do meu rosto suado, depois do Amor:

– Hoje beija, amanhã não beija; depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será.

Mário (o Quintana, pois o Lago se absteve de falar) me fala, à sua maneira, que eu nasci de parto mental prematuro. Me diz que estou na idade de estar vivo, e vivo demais. Eu, por um momento, duvidara disso.

Peço um cuba libre, bebida de gente solteira de alma, solta no mundo, presa na multidão. Acendo um miserável cigarro. Vinícius, num impulso, pega em seu violão e cantarola:

Você que ouve e não fala;
Você que olha e não vê,
Eu vou lhe dar uma pala,
Você vai ter que aprender…

Antes que continuasse o diálogo, lhe disse que eu tenho de aprender mais sobre a Paciência, essa mucama caseira que acorda todas manhãs sempre com o mesmo arranjo de cabelos.

Fernando Mendes Campos me disse, e o haveria de repetir pelo resto da noite, que a Rosa era a Rainha do Universo. Eu, no entanto, só soube perguntar-lhe onde ela morava. Certa vez, me lembro de ter feito uma prece para uma rosa vermelha do quintal de um vizinho, para que me trouxesse de volta uma mulher que amava. Mas quem me respondeu foi Papai Noel, por meio de um cartao virtual, enviado por engano por ela, desses que se enviam em massa pelos malditos e-mails impessoais.

E essa febre que não passa, e meu sorriso sem graça… Quando tudo está perdido… e quando o sol bater na janela do seu quarto…“, me soprava Renato Russo. E eu, Renato? São ainda quatro da manhã. Essa Bohemia que não se acaba. Essa vontade de vaguear por linhas sem fim, que dela falam…

Teu olhar não diz exato quem tu és, mesmo assim eu te devoro…

Agora compreendo o que significava, intrinsecamente, a ânsia dos navegantes. E compreendi também a razão dos tonéis de rum. Entendi e calculei mentalmente as dimensões da nostalgia dos que empunhavam lunetas e astrolábios, buscando vislumbrar a Terra Prometida no horizonte aquoso. Pois:

Navegar é preciso, viver não é preciso.

O Natal no século XXI


O Natal, nas várias culturas em que ele é inserido, e mesmo entre os ateus (por assimilação), é a comemoração do nascimento do Menino Jesus, que viria a ser o personagem que mais influência teve (e ainda tem) nos negócios terrenos.  Essa festa celebra alguém que deveria nos fazer ver o quão divinos poderíamos nos manifestar, mesmo com a maior simplicidade, nos tornando mais humanos.

Na verdade, a palavra Natal tem tudo a ver com humanidade. A palavra coletiva humanidade significa o conjunto dos seres “humanos”, ou seja, que vieram ou foram criados do “humus” da terra. Humus, em latim, significa limo da terra, lodo, barro. Mesmo vindo de tão simples elemento, tal como o barro, nós alcançaríamos um refinamento espiritual divino, simplesmente se vivêssemos as coisas simples, se voltássemos a viver como crianças. Isto não significa ser inconsequente; significa ter Fé.

Ter Fé, na minha visão, não é a capacidade de crer que coisas impossíveis possam vir a se realizar. É crer que todas as coisas são possíveis, se apenas as concebermos em nossos corações e mentes. Em algum lugar, em algum tempo, aquelas coisas, aparentemente inviáveis, já estão criadas. Precisamos apenas alimentá-las com a Fé. Se outro pessoa se junta a nós na mesma tarefa de alimentar um sonho, tudo passa a ser duplamente provável. E assim por diante…

Sou ainda do tempo em que colocávamos meias para o Papai Noel e o espreitávamos atrás do sofá, enquanto minha mãe já assoviava, dormindo no mesmo sofá. Eu já sabia que o Papai Noel não existia fisicamente. Eu dizia para minha mãe que só acreditaria nisso no dia em que alguém vestido de Papai Noel aparecesse com a carteira de identidade de Papai Noel, tendo nascido na Lapônia.

Mas, de que importava mesmo se ele existia ou não?? Na minha ingenuidade e fé, na minha persistência, acreditava que todo aquele ritual de Fim de Ano poderia me trazer aquilo que eu desejava. E trouxe muitas vezes!! E é por essa crença de criança, crença na obtenção do que se sonha, que o Papai Noel se instalou. E essa ligação do Papai Noel não se acabará enquanto houver quem sonhe em encontrar presentes no fim de ano. E mais do que presentes, sonhos realizados.

Há séculos atrás, os tais sonhos eram cercados de superstições. A celebração do Natal era quase uma lenda. O Natal dos Nobres consistia em um “santo” banquete. Fazia-se tréguas nas guerras, durante o período natalino, que geralmente eram respeitadas. O Natal dos pobres resumia-se em alguma esmola mais substancial de pão por parte dos nobres. Comia-se e agradecia-se. Era mais um ano que haveria de nascer, mais um ano em que deveriam suportar o castigo de nascerem pobres.

Hoje em dia, os presépios são, para muitos, obrigatórios. Há quem diga que, sem presépio, o Menino Jesus não nascerá!! Praticamente todas as propagandas aludem a tudo que se possa imaginar, menos ao Menino Jesus. O consumismo é, e já o sabemos todos, a tônica do Natal contemporâneo. É o materialismo fincando sua bandeira ridículamente decorada nos corações que deveriam ser fertilizados pela caridade.

“Quero primeiro o meu presente, a mim que já tenho tudo, e depois vejo se sobra algo da Ceia para o mendigo chato lá no portão!! Se ele demorar a passar, o Spike (cão criado guloso) ficará com os dois panettones que talvez sobrem!!”

É sempre assim: a caridade incomoda, nos estimula à ação, a sair da mesmice, a arregaçar as mangas daquela camisa nova (que nunca pode ser suja) e fazer algo que promova a doação do melhor de si. Todos querem tudo para si. Querem a eles próprios só para si e para aquilo do que têm a ilusão de possuir.

Que não esperemos pelo Natal para vermos a planta nascida!! Semeemos durante o Ano Todo, com esmero, com honestidade aos nossos sentimentos, com constância!! Os sonhos não nascem da noite para o dia, a criança nâo vem à Luz com o piscar dos olhos. A Glória da Mãe está na Concepção, e pelo que passa ao embalar o sonho em seu ventre. É assim com nossos sonhos. O melhor da Festa é esperar por ela!!

Que esse Natal do Cristo em nosso Coração seja uma jornada aos sonhos desde a concepção destes!!

Que não nos prendamos ao aparente, mas ao essencial à Vida. Pois esta sim, esta passa, e o aparente nos prende!!


Ebrael Shaddai.

Refluxo


Andei pelas areias, hoje,
Rindo, Indo e vindo,
Vindo e voltando.
Apreciando o que era lindo,
Sentia o feio se embotando.

As tais areias,
Via e revia, e pulavam
Nos meus sapatos,
Entravam e saíam,
Machucavam, salpicavam.

E as ondas bravas,
monótonas, dançando
Aos olhos, ardendo.
E eu, lendo e relendo
O grave refluxo, espumando.

Me perguntava:
– Vês, agora, Ebrael, o mar??
Como é inexorável a antecâmara do retorno!!
Diante de ti, uma sinopse desses ciclos,
Uma cena da sístole-diástole das águas!!

Veja, Poeta da Ira,
Que teu indignado coração
É instrumento da mesma dor
Que cura,
E depura,
O sangue do Amor 
Que se torna tempestade!!

Se queres flores,
Planta, transplanta
E replanta!!

Inspire a dor,
Aspire Amor,
Transpire suor
E cante o que eu
Já sei de cor.
Trague o ar
E semeie os ventos.
Colha tempestades,
Mas que elas não te deixem
Pra sempre,
Na mesma praia.

Os Fulanos – Vídeo Sensacional


Eu não costumo postar vídeos, pois a tônica das Memórias não é exatamente o humor. Mas ontem, assistindo ao Programa do Jô, decidi que esse eu não poderia deixar de compartilhar com vocês, leitores. Mesmo porque esse vídeo, com certeza, ficará nas minhas memórias. Fiquei com a barriga doendo de tanto que ri…
Os Fulanos – dupla de atores comediantes, formada pelos gaúchos Décio Ferret, de Pelotas, e Pul Barreto, de Dom Pedrito, RS.
Seguem as duas últimas partes dos vídeos da entrevista deles no Programa do Jô, exibida em 15/12/2009.

Para outros vídeos, acesse também o blog de Os Fulanos no endereço:

http://www.osfulanos.com.br/