A última bolacha do pacote


Hoje vou lhes contar um causo que resgatei ontem do meu velho caderno Tilibra , de anotações, amarelado pela falta de uso (e vergonha na cara em comprar um novo).

Com 15 anos de idade, comecei a aventura que todo jovem besta e rebeldezinho inicia ao descobrir que tem pelos nas axilas: as baladas de sábado à noite. Na verdade, eram de sextas-feiras, sábados e domingos, em todas as semanas. Foi assim durante dois anos seguidos. Comecei a beber, fumar cigarro e aprender todo tipo de gíria ridícula que se possa imaginar. Nem gosto de me lembrar das bermudas da Drop-Dead, de skatista-funkeiro-sei-lá-o-que, que usava, dentro das quais eu parecia ter mais dois quilos de algo sob as pernas. Não, eu não saía de casa sem ir ao banheiro, disso eu tenho certeza!!

Na noite de Natal de 1995, onde estava eu?? Naquele clube brega que tocava Dance Music e que agrupava os desocupados adolescentes da minha cidade. E eu me incluía nesse grupo. O nome do clube já era um atestado de mal-gosto, e um distintivo para o povo desocupado saber que havia chegado no lugar “certo”: Guarani Disco Light. Hoje esse nome infeliz está ainda mais triste. Tornou-se May-Bear Dance Hall. Soa-me como praga ou remédio para quimioterapia.

Naquela mesma noite de Natal, acho que tive o castigo merecido por deixar minha mãe sem minha companhia. Ela estava na companhia do meu outro irmão. E eu?? Sassaricando pelas pistas de dança!! Mais ou menos pelas 22 horas, começou a chover torrencialmente. A chuva não cessava, mas eu não queria nem saber. Nem ficar com alguém eu fazia questão naquela noite, pois que já haviam “passado o rodo” em todas… Não parava a chuva e as ruas no entorno começaram a ficar alagadas.

Chegou uma hora que as águas entraram no clube, que foi evacuado. Evacuado mesmo, pois as água invadiram primeiramente os banheiros. Daí então um amigo (amigo da onça) me chamou para levar duas gurias em casa, na chuva e dentro da enchente mesmo. Não tinha para onde ir mesmo aquela hora, pois a ponte que separava aquele bairro de outro em que eu morava, pelo que falaram, havia partido ao meio.

Segurando vela...
Segurando vela...

Lá foi eu, esperando o triste destino de segurar vela, ainda por cima, na chuva. Parece que o cara tinha agarrado as duas gurias, pelos boatos. Se não tinha agarrado, iria agarrar. E eu iria guardar a porta do motel. O clube fechou mesmo, então eu fui!! No meio do caminho, ele já estava de mãos com uma delas. A outra, até que bonitinha, começou a puxar papo, para não ficar chupando dedo. Mas o meu brother, ao invés de ajudar na lida, começou a me boicotar, dizendo que minha namorada (estava “solteiro” na época) estava me esperando em casa, que não devia deixar ela dormindo sozinha, com minha mãe a fazer interrogatórios. Só sei que quando me dei por conta, o cara já estava de bunda na água. Lá foi uma voadeira para ele ficar ligado. A coisa mais triste que existe é o cara ser egoísta, invejoso, porque via que a ficante dele estava de olho em mim também. Foi tanto assim que a guria dele nem deu a mão pra ajudar ele a se levantar. Estava ele ali, abandonado às águas da enchente, jogado à solidão de um gorila que broxou. Ele foi embora, por outro caminho. Levei as duas até suas casas e “fiquei” com a que eu estava em plena chuva. Roupas molhadas, coladas no corpo!! Hummmmmmm…

No dia seguinte, o cara veio me dizer sem pestanejar:

– Tu se acha a última bolacha do pacote, não é??

Ao que eu respondi, com a frase que me identificou por anos:

– Eu “não me acho“, eu “me tenho certeza“!!

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5 Replies to “A última bolacha do pacote”

  1. Olá biscoito. Aprontar… aprontamos e como é bom lembrar. Quando jovens somos tolos na visão de hoje, mas naquele tempo nos achávamos os tais. Que bom, ao menos tem do que se lembrar e rir anos mais tarde.

    bjs

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  2. Grande Ebrael…

    Parabéns pelo blog, meu amigo. Muito legal mesmo! Os textos também são muito bons!

    Obrigado pelo comentário em meu blog e pelos elogios. Que Deus te ilumine e te proporcione paz e sucesso.

    Abraço,

    Emerson Fialho

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