A Alegria de Um é o Inferno de Outro


É sempre assim: tomar decisões que envolvam pessoas e sentimentos (incluindo a nós mesmos e nossos sentimentos) é vestir a túnica do algoz e empunhar o machado do carrasco!

A liberdade de escolha implica, muitas vezes, a arte de cortar a cabeça a um só golpe, o que nos qualifica ao título “honorífico” de carniceiros. Sempre, e a qualquer momento, muito frequentemente, somos chamados a escolher um caminho, tendo que conviver com a dúvida acerca do que teria sido caminhar pela outra vereda. A Razão fala: prefira o certo! O Coração grita: tente um novo caminho! E nós perguntamos por quê o certo é certo pra nós, e por quê o novo é novo…

Matamos uma opção pra fazer sobreviver outra; soterramos um projeto para reviver um sonho antigo. Cortamos a cabeça de Maria Antonieta para elevar os Jacobinos ao Poder Supremo de nossa fantástica revolução. Afinal, Maria Antonieta é inocente ou criminosa? Os Jacobinos nos salvarão da mediocridade ou nos mergulharão em terror noturno? Não há vencedores ou vencidos; há apenas preferidos e preteridos, e enquanto uns morrem em seus intentos, outros festejam triunfantes, sejam de qual lado forem. O Vencedor vence, e o vencido é renegado. Um aparece em seu brilho ofuscante de Eleito e o segundo é banido, então.

Carrasco de Sonhos
Escolher ou não escolher?? Decida e mate uma opção!

Não há bons samaritanos. Não há meio termo: a Vitória de Um será sempre um golpe na Vida do outro, a Alegria de um se tornará no Inferno do outro, tormento infindável até que renasça o Sol da Esperança.

Se retiro a ti a Esperança, e ela não morrerá jamais, é porque a certeza já cedo aparece, a certeza do Amor sem culpas, sem vencedores nem vencidos, o Amor Livre e sem peso inútil…

Cúmulo de Insensatez


Um causo pitoresco me chegou ao conhecimento, através de uma amiga, por email. Contava ela  que, certa vez, um de seus vizinhos, que é Testemunha de Jeová, lhe chegara à casa para pregar sua doutrina. Curiosa e pesquisadora de credos religiosos, resolveu escutar a “palestra” do dito religioso. Das principais coisas, e das que mais lhe chamara a atenção, escutou que transfusão de sangue, para salvar vidas, é pecado mortal, bem como o segundo casamento é absolutamente proibido.

Bem, na continuação desse relato por email, ela me narrara justamente o momento em que não se contivera e começou a discutir com o homem. Acerca das segundas núpcias, ele dizia que a mulher, para separar-se do marido, teria de ter provas definitivas de sua infidelidade ou de sua incapacidade de gerar filhos. Ela perguntou a ele, então, se a mulher poderia separar-se do homem no caso de esse lhe espancar, mesmo sistematicamente. Claro, baseado no fundamentalismo que lhe era peculiar, ele respondera que não. O casamento era pra vida inteira, e mesmo que a separação fosse APROVADA pela igreja, ela não poderia casar-se novamente, ao contrário do marido, obviamente.

Numa sociedade em que o fundamentalismo e o radicalismo se antepõem como ferozes inimigos, ficam as mentes reféns e à mercê de absurdos como esse. Acreditem: isso é mais comum do que se pensa, e a insensatez grassa em nossa “civilização”. Ora é o fundamentalismo religioso que nos amedronta, com todas as penas de um inferno folclórico, com regras que, senão medievais, remontam à época em que só a Lei do Talião poderia conter a barbárie de povos guerreiros, onde o suicídio bombástico nos premia com 70 virgens num Paraíso esdrúxulo; ora é o radicalismo relativista, que diz que o Tudo nasceu ao acaso, de um acidente cósmico, de arranjos de proteínas ao léu, numa bela e escura noite de verão. Será que precisamos de todos esses flagelos mentais?

Eu aconselhei para que não se “aprofundasse” demais nos estudos deles, pois, sem que ela soubesse, em um ou dois sábados, ela já seria uma Testemunha de Jeová, com casamento marcado e tudo, ou então já se veria batizada numa piscina batismal. Disse que, numa hora qualquer dessas, a cachorra da casa poderia se manifestar como estivesse falando em línguas, convocando todos à conversão. Nesse caso, o Espírito Santo ainda seria uma criança, já que saberia falar apenas au-au!

Se Deus deve ser levado ao pé da letra, então Deus é um aliciador de menores, já que permitia que adolescentes servissem como esposas (escravas sexuais e parideiras). Deus infringe as Leis trabalhistas e a Declaração dos Direitos do Homem, já que tolerava a manutenção de trabalho escravo. Deus é conivente com assassinos, já que estabelecia cidades onde, os que matavam, poderiam se refugiar para escapar de linchamentos. Deus é um gângster, pois legitimava o poder dos reis, ainda que fossem tiranos. Deus era um sádico com animais, pois se refestelava com sacrifícios de animais para aplacar os pecados de seus protegidos. Enfim, Deus era uma genocida, pois várias vezes ordenara a seu povo que, invadindo a terra dos inimigos, passassem todos a fio de espada (matassem todos), sem distinguir mulheres, crianças nem idosos. Deus era um ladrão, pois justificava, com seu nome divino, a usurpação de terras de outros povos, tal como Israel faz com os palestinos até hoje. E tudo isso, em nome de um Deus que escreveu muitos livros, um Deus que tinha nomes humanos, um Deus muito cara-de-pau!