Através da janela do ônibus


Sempre nos perguntamos por que quase ninguém nos ouve quando estamos em apuros, sofrendo por algum fato ou por alguém. Em nossa tola exposição da realidade, nem Deus nos ouve, isso porque muitas vezes nem nos damos conta de um “Deus”. Parece, então, que há um vácuo entre nós e o mundo, um ensurdecedor e atordoante silêncio entre nós e o resto do Universo, como se gritássemos e nossa voz soasse surda. Mas, por que essa diferença ou ausência de sentidos? Por que não nos ouvem?

No último domingo, dentro do ônibus que me levava de volta para casa, quando este saía de um dos dois terminais urbanos de Florianópolis, estava distraído em meu turbilhão de pensamentos nômades, como se minha mente fosse um acelerador orgânico de partículas sem destino certo. Vi, pela janela do ônibus, uma garota de cabeça baixa no outro lado da rua. Aparentemente chorava, com as mãos sobre o rosto. Algo grave havia lhe acontecido. Chega-lhe uma viatura policial. Saem-lhe dois policiais militares ao encontro. Começam a conversar. A garota estava chorando compulsivamente. Em um minuto, o sinal de trânsito fica verde e o ônibus segue seu curso rotineiro e semiautomático.

Algumas pessoas acompanham-me ao olhar a garota da rua. Umas comentam, cochicham. Outras continuam em sua auto-hipnose, com suas cabeças recostadas em assentos frios, depois de um dia de trabalho duro em pleno domingo, ou talvez diante de problemas familiares ou sentimentais. Uma senhora se enfeitava ao espelho de seu estojo de maquilagem. Provavelmente, saía para dançar e aproveitar sua terceira idade vivida entre rostos anônimos ou velhos conhecidos. Somente eu, creio, fiquei pensando como devia estar se sentido aquela garota, que pode ter sofrido assalto, estupro, agressão por parte de algum namorado, ou simplesmente perdido sua carteira com o salário da semana.

As pessoas não nos ouvem porque estão em seu caminho andando rápidas demais, ou então caminhando como zumbis surdos-mudos. Quando sofremos, paramos diante do sofrimento, pois, enfim, algo de extremamente real está a nos deixar perplexos. O conforto da ilusão acaba, e a boa vida, simples, tranquila, é interrompida por algum fato traumático, insólito, estranho. Algo nos arranca da hipnose coletiva e nos põe sozinhos, não por estarmos sozinhos no mundo, mas por nos acharmos fora da catalepsia cotidiana de quem levanta da cama, toma café, põe o mesmo uniforme ou terno e vai para o mesmo trabalho quase que sem lembrar-se em que dia da semana está. Para uns, isso é a glória e o orgulho por se sentir um herói fora do gado humano. Para outros, experiências dolorosas ou alegres, desde que excedam o script, são sintomas de que estão fora da realidade.

Sofrimento, solidão, sentimentos
Sozinho? Nunca!

Para esses últimos, um conselho: voltem para junto do gado! Prefiram a vida morna, que não proporciona dores aparentes, mas que não nos tira da monotonia, não nos ensina nada que a Igreja já não nos prega. Constância, ainda que a preço de estagnação; estabilidade, mesmo que isso implique em cegueira; lazer, ainda que signifique isso a cadeira de balanço com um velho almanaque mofado do Costinha, com piadas do tempo em que minha avó tomava guaraná de rolha. 

Amigos perplexos, sofredores, que pensam que suas dores são maiores que vocês mesmos: voltem ao trabalho, compartilhem suas lástimas com outros amigos, voltem ao seu transe corriqueiro e confortável. Não há dor que não diminua, aparentemente, quando entramos no êxtase coletivo do mundo ideal, quando recebemos o ombro solícito de um integrante do mesmo rebanho. Afinal, não precisamos de nós mesmos, apenas de alguém que ouça, integralmente, nossas lamúrias, nos eximindo da tarefa impossível de deglutir e mastigar o fel de nossa visão das coisas.

Naquela noite, não pude dizer nada à garota, pela distância em que me encontrava dela. Os policiais já tinham se encarregado de soccorê-la, além de, eventualmente, servirem de psicólogos de improviso. O gado do ônibus seguia para seu estábulo, bem disciplinado e anestesiado. A garota ficou lá, à mercê do princípio que diz que seres humanos não devem estar fora do convívio social. O ser humano é um animal domesticável, interdependente de seus pares. Nenhum de seus pares parecia lhe ouvir, as manadas humanas lhe passavam sem notá-la. O ritmo do mundo a atropelava e a redoma em torno de nossos ouvidos impedia que seu uivo ecoasse em nossas mentes. Apenas o vidro da janela do ônibus me permitiu ver a paisagem do medo e da perplexidade. A banalidade da Vida veloz e sem conteúdo impera sobre o sabor das lágrimas daquela garota.

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4 comentários

  1. Ebrael, quanta verdade. Voce sabe que sou solidaria. Eu fui assim quando vi Rodrigo caído no chão com um tiro na cabeça. Não saí do lado dele e da familia enquanto nao obteve alta total.

    Hoje, estava na fila para pagar o almoço num restaurante. Havia uma escada e pensei, “nao vou ficar na frente para poderem subir e descer, especialmente quem carrega algo pesado”. Quando finalmente pude dar uns passos em frente, os idiotas atrás logo fecharam a escada. E na minha vez de pagar no caixa, um babaca velho de uns 50 e poucos anos, velho de espírito, passou a minha frente, somente eu na frente dele! E nem pediu licença.

    É assim o tempo todo. Todo mundo quer que todos se danem.

    Nao sei se me preocupar com os outros, como a moça que viu chorando, ainda é tido como sentimento humano, talvez eu e voce já sejamos 02 alienígenas e não sabemos. Vimos de outra dimensão… para um lugar obscuro de um raça que está perdendo cada vez mais a graça.

    beijos

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    1. Graça, humana? A graça é divina, humana é a zombaria! Ali mostrei que, às vezes, não devemos mesmo nos cobrar tanto por não conseguirmos prestar a devida atenç~]ao à dor do outro, já que nosso interior e exterior correm em velocidades diferentes. Muitas vezes, nosso mundo tá tão rápido que é comum não nos darmos conta do outro, do próximo, que dera então de um Deus de férias em Andrômeda!

      Quando consigo parar, retardar meu ritmo mental e físico, aí sim, posso voltar meu olhar fraterno ao irmão do lado ou de longe.

      Bjs!

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  2. Pura realidade você retrata, Ebrael! A humanidade já viveu há longuíssimos anos atrás, perdidos na memória coletiva, uma vida saudável, humana, quando essa humanidade era ligada à Natureza, obedecendo ao alfabeto astrológico, um alfabeto com limites, mas, que nos mantinha unidos e livres de grandes sofrimentos. Era uma cultura astrológica que impunha os referidos limites, para que o equilíbrio geral fosse mantido. Tudo era harmonia. Mas, uns tantos se rebelaram contra esse alfabeto, queriam um alfabeto que desse expansão a todas as suas vontades. E assim criaram este que deu origem a esta cultura artificial e desumana, onde todos dão expansão a todas as suas vontades, indiferente a estar em harmonia com as leis naturais. Agora, em decorrência, quadros como este descrito por sua pessoa e seus desmembramentos são a rotina no mundo inteiro, devido todos estarmos desligados da natureza, por seguirmos essa cultura artificial herdada dos nossos primitivos antepassados. Este é um assunto de que todos deveriam tomar ciência, a fim de se certificarem de que o mal do mundo é esta cultura atrasada e artificial que mantemos em pleno século XXI, quando já entrou em vigor, desde 1935, a cultura natural da natureza, para nos religar à natureza e à nossa verdadeira origem. Se lhe interessar, lhe envio em PDF o 1º volume de Universo em Desencanto, onde, à pagina 132, você encontra a mensagem sobre o assunto. Parabéns pela postagem e o meu abraço!

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    1. Nágea, quanto à influência do calendário na degradação e/ou expansão dos desejos, não posso me posicionar por falta de embasamento, mas…
      A expansão dos desejos se deve ao número crescente de seres humanos. Estes anseiam pela reconexão, e nessa ânsia se deixam capturar pela falsa ideia do que seja o “preenchimento do vaso”. Quanto menos temos, mais ansiamos na penúria. Quanto mais temos, mais ansiamos na opulência. O erro não está em nós, e sim na conexão entre nós, que está desaparecendo. Deus, que está espalhado em nós, formando um único Adão, está se fragmentando, sua Luz não nos alcança e nós nos isolamos. Esse é o verdadeiro inferno: o desejo que não é jamais satisfeito!

      Fraterno abraço em você!

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