Chico Anysio e o Mundo Moderno


Eu lá não gostava muito do jeito do Chico Anysio há uns anos atrás. Mas, diga-se a verdade: ele era um gênio na criação de personagens, escrevia textos superinteligentes e foi pioneiro de toda uma escola de sucesso na área do humor, sendo o maior dos humoristas brasileiros.

Nos últimos tempos, talvez sensibilizado que estava por sua situação de saúde, ele tinha escrito vários grandes textos, cheios de lirismo, demonstrado uma delicadeza de estilo que reforça ainda mais sua versatilidade, não obstante sua tradicional acidez no humor crítico nunca ter-lhe abandonado.

Nesse fim de semana, me vejo no dever de consciência de homenagear esse grande escritor, ator e humorista. A seguir, um monólogo de minha escolha, de autoria de Chico Anysio. Para quem não conhece, considero-o uma “pintura” delicada e pungente ao mesmo tempo, escrito apenas com palavras com a letra M como inicial.

Descanse em paz, Chico Anysio! Obrigado pelo legado que nos foi deixado por você!

Chico Anysio | Descanse em Paz!
Chico Anysio | Descanse em Paz!

Mundo Moderno
Chico Anysio

Mundo moderno, marco malévolo, mesclando mentiras, modificando maneiras, mascarando maracutaias, majestoso manicômio. Meu monólogo mostra mentiras, mazelas, misérias, massacres, miscigenação, morticínio – maior maldade mundial.

Madrugada, matuto magro, macrocéfalo, mastiga média morna. Monta matungo malhado munindo machado, martelo, mochila murcha, margeia mata maior. Manhãzinha, move moinho, moendo macaxeira, mandioca. Meio-dia mata marreco, manjar melhorzinho. Meia-noite, mima mulherzinha mimosa, Maria morena, momento maravilha, motivação mútua, mas monocórdia mesmice. Muitos migram, macilentos, maltrapilhos. Morarão modestamente, malocas metropolitanas, mocambos miseráveis. Menos moral, menos mantimentos, mais menosprezo. Metade morre.

Mundo maligno, misturando mendigos maltratados, menores metralhados, militares mandões, meretrizes, maratonas, mocinhas, meras meninas, mariposas mortificando-se moralmente, modestas moças maculadas, mercenárias mulheres marcadas. Mundo medíocre. Milionários montam mansões magníficas: melhor mármore, mobília mirabolante, máxima megalomania, mordomo, Mercedes, motorista, mãos… Magnatas manobrando milhões, mas maioria morre minguando. Moradia meia-água, menos, marquise.

Mundo maluco, máquina mortífera. Mundo moderno, melhore. Melhore mais, melhore muito, melhore mesmo. Merecemos. Maldito mundo moderno, mundinho merda.

Fonte: http://letrasdespidas.wordpress.com/2008/03/17/mundo-moderno-chico-anysio/

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9 comentários em “Chico Anysio e o Mundo Moderno

  1. Bem, ele teve vários netos, na verdade, viu muitos deles. Fora seis casamentos. Tenho a impressão que ele era uma pessoa muito difícil, ranzinza mesmo. Diferente de um escorpiano como eu, mas assim mesmo inquieto e antipático. O humor foi o que o salvou da antipatia que deveria nutrir secretamente por si mesmo.
    Obrigado! Bjss!

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  2. Penso que construir a personalidade a partir das “benesses” sociofamiliares sem precisar a imposição – de época – do que sabe com quem está falando, é conquista que emerge dos muitos eus identificados dentro de si, cuja esteira dividida e remembrada na expoente figura do artista que ((foi(é)), não sublima, tampouco redoma as negatividades. Os anseios em forma de torvelinho culminado em miríade, como tal, ofusca resilires, não seus frutos. Graças que aos bons maus humores do Chico criador, dividimos com ele, na forma de seus personagens mais críticos e insípidos, muito do nosso fel, renovando-nos. Que encontre um bom lugar para continuar a fazer rir, no novo palco para onde subiu.

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    1. Como já disse à Simone (Syssim), não gostava muito da pessoa dele como tal. Mas, a exemplo do que você citou, foi o fel dele que nos ajudou, por bom tempo, a efetuar essa catarse essencial de nossas mazelas, de nossa desesperança.

      Parece que ouço o Chico a fazer eco a Marcus Aurelius: “Se a Morte lhe sorrir, o que você pode fazer é sorrir-lhe de volta!”

      Um abraço e obrigado pela visita!

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  3. Ebrael, concordo com todas suas palavras. Alias, já falamos a respeito. E não posso desconsiderar e não homenagear este grande humorista. O texto que voce apresentou é um exemplo da inteligência dele com a articulação das palavras.

    Beijos

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  4. Tentei vir antes, mas com problemas de conexão, deixei o comentário arquivado. Vamos ver se agora vai.

    Pois é, eu estava bem longe, quando soube da morte dele. Diante da sua postagem me veio a lembrança de um fato, bastante constrangedor, ocorrido no Palácio das Artes (BH-MG) há muitos anos atrás.

    Alguém começou a rir bastante, das piadas que ele contava. O que parecia ser divertido, pra Chico não foi. Ele parou a sua apresentação, fez com que as luzes fossem acessas e pediu que o camarada se retirasse. Eu não conhecia o sujeito, mas diante deste fato, fui solidaria a ele, e mesmo estando do outro lado da plateia, me retirei junto a alguns outros.

    Conto isto pra confirmar a sua impressão. É a mesma que guardei por muitos anos. E também acredito que com o avanço da idade, e as reflexões que dela provem, ele sim, tornou-se mais generoso. Assisti a um vídeo no youtube em que ele fala da sua história com colocações bastante interessantes e comoventes.

    E referindo-me ao texto dele, complemento o raciocínio: “Melhore mais, melhore muito, melhore mesmo. Merecemos. ” E que Chico esteja bem. Talento, é inegável.Tinha tanto que hoje estamos aqui. Relembrando.
    Abs!

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  5. Como gosto de seus comentarios, Ebrael!!!! ahahahah eu conheci um “cara-de-pau” que usa muito o mercado a que se referiu!!!!!!!!!!! gostei disso!

    Querido do coração: Boa Pascoa. Um beijo e um abraço em vcs todos, na familia, e filhote.

    BEIJOS

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    1. Cara-de-pau não falta, falta é óleo de peroba! Aliás, tenho um tio, chamado Mário César, cujo apelido é justamente Peroba. Adivinha por que? hahaha!

      Feliz Páscoa pra vc e Laura tbm! Deus te ilumine esse caminho difícil que é o de ser mãe!

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  6. Chico Anísio não morreu, apenas mudou de lugar. Fugiu. Mundo grande e moderno, cabeça pequena, minúscula. Talento, pra quê? Desperdício, puro; mundo moderno não consome talento. Detesta. Falta-lhe hábito. Às vezes, comportamento estratégico. Mordaça intelecto-cultural, moderna. Censura simples e seletiva. Somente, sangra a quem ousa “cometer” talento. O vídeo, de tão moderno, expulsou a genialidade; claro, coisa ultrapassada. O preconceito detesta bobagens inteligentes; a imbecilidade é mais palatável aos gênios modernos. Não é necessário mastigar.
    Felizmente, talento quando é grande vira duas asas. Se Chico não tivesse mudado; Chico morreria.

    Frambell

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