Notas sobre a Hipoglicemia


Hipoglicemia é o evento clínico conhecido como a carência temporária de glicose na corrente sanguínea. Basicamente, a alimentação insuficiente, irregular, com escassez de carboidratos e em intervalos muito longos entre uma refeição e a seguinte, bem como o excesso de insulina administrada ao paciente,  são suas causas mais frequentes.

A medida de glicose normal no sangue é dada por algo entre 60-110 mg/dl. É considerado que um paciente está com hipoglicemia quando esse valor está abaixo de 50 mg/dl, segundo a Dra. Shirley de Campos.

Tende  a acometer com mais frequência aos diabéticos, cuja taxa de glicemia (glicose no sangue) tende a ser mais irregular, devido à incapacidade do pâncreas de produzir insulina e mantê-la estável, o que faz da administração externa de insulina destoe, por vezes, da quantidade de alimentos ingerida pelo paciente.

A hipoglicemia também pode, concomitantemente, afetar a saúde de pessoas que sofrem de hipertireoidismo (hiperatividade da glândula tireoide), que faz com que o corpo absorva mais rapidamente os lipídeos, desfalcando-o de sua reserva secundária de energia quando lhe falte glicose. Coma alcoólico também é causado por hipoglicemia, sendo, por isso, necessária a administração de solução glicosada endovenosa aos pacientes. Além disso, tumores pancreáticos benignos que produzem muita insulina podem provocar a hiperinsulinemia (excesso de insulina no sangue), ocasionando a baixa excessiva da glicemia.  A hipoglicemia reativa, causada por estresse psicológico, faz com que os alimentos ingeridos suscitem a produção de insulina em demasia, provocando os mesmos sintomas acima. Há ainda outras causas para hipoglicemia, que você pode conferir aqui

Para entender como a hipoglicemia acontece, é preciso saber quais os principais tipos de carboidratos presentes em nossa dieta, que são justamente os elementos que faltam no organismo hipoglicêmico no momento em que ocorre tal evento:

  • Carboidratos rápidos são os açúcares mais rapidamente absorvidos pela corrente sanguínea, inclusive já na mastigação, de alguns segundos a minutos depois. Ex.: mel, refrigerantes não dietéticos, caldo de cana, balas, chocolates, açúcar refinado, biscoitos doces, etc.;
  • Carboidratos lentos são os aqueles que demoram mais a ser absorvidos pelo corpo, cujas moléculas serão quebradas apenas a nível intestinal, meia hora a uma hora depois da ingestão. Se não há demanda de consumo imediato pelo organismo, suas moléculas degradadas pelo processo digestivo tendem a ser armazenadas no fígado sob a forma de glicogênio. Ex.: batatas, pães, mcereais, aipim, biscoitos salgados, etc.

Vou tratar aqui da hipoglicemia verificada na rotina dos diabéticos, entre os quais me incluo. Mais especificamente, entre os diabéticos do grupo I, conhecidos por depender de injeções diárias de insulina. Vamos conhecer, primeiramente, o que vem a ser a insulina, esse hormônio que aumentou em quase 100% a expectativa de vida dos diabéticos:

Insulina1 é o hormônio responsável pela redução da glicemia (taxa de glicose no sangue), ao promover o ingresso de glicose nas células.2 Esta é também essencial no consumo de carboidratos, na síntese de proteínas e no armazenamento de lipídios (gorduras).3

É produzida nas ilhotas de Langerhans, células do pâncreas endócrino. Age numa grande parte das células do organismo, como as células presentes em músculos e no tecido adiposo, apesar de não agir em células particulares como as células nervosas.

Quando a produção de insulina é deficiente, a glicose acumula-se no sangue e na urina, destruindo as células por falta de abastecimento: diabetes mellitus. Para pacientes nessa condição, a insulina é providenciada através de injeções, ou bombas de insulina.

Fonte: Wikipedia.

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Como ocorre a Hipoglicemia nos diabéticos?

A hipoglicemia ocorre, nos diabéticos, basicamente, por irregularidade nos horários das refeições, demasiado esforço físico, tensão psicológica ou excesso na dose de insulina administrada para controle e metabolização dos carboidratos ingeridos, necessários aos diabéticos como a qualquer ser humano. Quando esses fatores desencadeantes, supracitados,  coincidem, a ocorrência pode implicar em gravidade extrema.

Verificação da taxa de glicemia via glicosímetro – indispensável!

É muito importante, além de o paciente cuidar-se na alimentação e no controle das taxas de glicose (para não ser surpreendido em momentos inconvenientes – como no trânsito), que os colegas de trabalho e familiares sejam orientados para detectar anomalias nos comportamentos e reações do paciente. É imprescindível a colaboração de todos os que convivem com o diabético.

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Hipoglicemia leve

Provocada por um ou dois fatores desencadeantes acima citados, caracteriza-se por sudorese excessiva (suor mesmo em clima frio, tremores, demonstração ou sensação de desorientação ao falar, agir e mover os membros (mãos, pés, pescoço, cabeça). Passados alguns minutos, advém a taquicardia, queda brusca de pressão e hálito etílico (como de quem ingeriu bebida alcoólica). É indispensável que o paciente esteja sempre munido de algo doce (refrigerantes não dietéticos, chocolates, doces, bolos, geléias, água com açúcar, etc.)  para que seja ingerido imediatamente, e em seguida tome sua refeição normal daquele horário. Os sintomas aliviam em poucos minutos.

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Hipoglicemia severa

Ocorre quando, na iminência da crise hipoglicêmica, o paciente não dispõe de alimentos doces por perto, lugar onde possa conseguir obtê-los ou alguém que os providencie. Quanto mais fatores desencadeantes supracitados se combinam, tanto mais perigosa torna-se a crise.

A hipoglicemia leve, quando não detectada pelo paciente ou por alguém próximo, se não tratada imediatamente, pode evoluir para a hipoglicemia severa. Esta caracteriza-se pela progressão e agravamento dos sintomas: incapacidade de prosseguir em tarefas ou raciocínios simples, descontrole motor, visão dupla, acentuação do hálito etílico (como se o paciente estivesse bêbado ou drogado), perda da noção de tempo-espaço, crise de pânico, convulsões, olhos piscando rapidamente.

Nestas ocasiões, é importante procurar não deixar que o paciente perca a consciência, acalmá-lo (pois a tensão faz a glicose cair ainda mais). Procure administrar líquidos muito doces por via oral. Em caso de convulsão, tem-se que ter paciência, pois o paciente poderá demonstrar uma certa agressividade, e segurar suas pernas, braços e cabeça para evitar impactos e ferimentos em partes vitais (principalmente traqueia e crânio). Ele tenderá a se jogar no chão, morder-se e arranhar-se em seu “desespero” por falta de glicose, reação normal tendo em vista que o cérebro é o primeiro e principal órgão afetado pela hipoglicemis. O cérebro consome entre 75% e 80% de toda glicose produzida pelo corpo.

Se o paciente perder a consciência, nunca tente dar nada doce por via oral, pois a função de deglutição (ou de engolir) estará comprometida. Qualquer coisa que você tente fazer passar pela garganta, poderá causar asfixia ou afogamento, com a provável morte. Se o paciente estiver portando ampolas de glucagon (glicogênio injetável por via subcutânea que se converte rapidamente em glicose), aplique uma delas imediatamente como mostra a figura abaixo. Se não, chame algum serviço de emergência (SAMU, Bombeiros, PM ou outra unidade móvel particular) para que o paciente seja removido logo para um pronto-socorro.

Como já fora dito, caso não seja socorrido, o paciente pode, em alguns minutos, entrar em coma e até morrer. Em casos extremos como esse, se não morre, pode retornar à consciência com sequelas mentais (demência, amnésia, síndrome do pânico, depressão, etc.) ou motoras.

Injeção de glucagon na lateral do abdome, sem esquecer de fazer a “prega” bem alta.

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Detalhes clínicos da Hipoglicemia no diabético

Como dito acima, é importante que o paciente esteja sempre atento aos possíveis sinais de uma iminente hipoglicemia, já que a mesma tende a ser muito comum à medida que o tratamento com insulina precise se intensificar ou não. Além disso, a verificação regular das taxas de glicemia capilar (aquela feita como na figura mais acima) ajuda a evitar que o paciente seja surpreendido por uma crise.

Há três variações principais de insulina administrada ao diabético: NPH (de ação lenta e gradual, com ação prolongada por até 8 horas), Regular (R) (de ação rápida, menos durável, por até 2 horas) e a Mista (70/30) (solução a 70% de NPH e 30% de insulina R, com duração variável por no máximo 8 horas).

Muitas vezes, o paciente não detecta os sintomas da hipoglicemia antes que a glicose seja rebaixada a menos de 40 mg/dl, o que faz com que perceba os sintomas quando o quadro já está bastante perigoso e tenha pouco tempo para agir (isso quando ainda pode agir sozinho). Com o passar do tempo, cria-se uma certa tolerância com relação aos sintomas tanto de hipoglicemia quanto de hiperglicemia, por algum problema com hormônios que detonam os sintomas (suores, aceleração dos batimentos cardíacos, tremores e espasmos, etc.).

Quando um paciente está na iminência de uma hipoglicemia severa, deve tomar muito cuidado pelo seguinte: ele já não tem mais glicose em níveis seguros no organismo, mas ainda tem insulina. O corpo, mesmo desencadeando alertas, sabe preservar-se e bloquear funções que diminuam a glicose, enquanto libera reservas de glicogênio do fígado e queima de gordura (que geram glicose suplementar). Isso faz com que a insulina diminua temporariamente seu “ataque” à glicose.

Quando, porém, em crise severa, o paciente tomar ou comer algum carboidrato rápido (açúcar refinado, refrigerantes, sorvete, balas, etc.), notará que a hipoglicemia voltará em seguida com força, pois o restante de insulina voltará à carga para processar aquela glicose e tirá-la do sangue novamente. O paciente, assim como os que estiverem prestando auxílio, devem prestar bastante atenção a esse fato. Deve-se aguardar, pelo menos, uns 15 minutos até que o paciente tenha certeza que está estável. Em seguida, deve proceder à sua próxima refeição, dependendo da taxa de glicemia após a ingestão dos doces.

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Minhas impressões

Hipoglicemia não é brincadeira. E ainda há quem veja um diabético em crise de hipoglicemia e o tenha como retardado, doido ou drogado, ainda mais quando este está em convulsões. É imperativo que os diabéticos mais jovens tomem muito cuidado com a insulina que são obrigados a receber. A insulina pode matar, levar ao coma e até a morte, se não acompanhada dos cuidados necessários com os horários corretos das refeições.

Interessante – embora assustador – é a fúria que toma conta do paciente que sofre com uma convulsão de hipoglicemia severa. Eu, como diabético há 18 anos, já passei por inúmeras crises severas. Dedo destroncado, cicatrizes, mordeduras, impactos com a cabeça em paredes: tudo causado por convulsões incontroláveis em crises ao longo desses anos.

Num contexto psicológico pontual, na convulsão o que sentia era o medo de morrer, o que verificava facilmente com a convulsão. Sendo a glicose o combustível do cérebro, o que sei é se porventura “dormisse”, parasse de me debater, eu morreria. Acho que essa é uma reação inconsciente do organismo – o instinto de sobrevivência -, a sensação de que precisamos nos agarrar àquela única tábua de salvação e garantia de vida, sem a qual tudo ficaria escuro e deixaríamos essa mesma Vida, escorrendo por aquele túnel sombrio e gelado da morte.

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13 Replies to “Notas sobre a Hipoglicemia”

  1. Boa tarde, está de parabéns pelas informações socializadas, tenho um filho de 23 anos e tem diabetes tipo 1 desde os 16, e hoje pela manhã ele teve mais uma convulsão. Graças a Deus não precisei correr com ele para o hospital, pois realmente já aconteceu de chegarmos lá e acharem que ele estava drogado, até mesmo o médico que o atend
    eu. Muito obrigada pelas informações foram muito proveitosas!!

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    1. Adriana, se a gente quer o Bem para gente, vai querer também para outros. Por isso, compartilhamos.

      Outra coisa: se um médico, novamente, se negar a atender o rapaz por levantar a hipótese (sem fundamentação) de que os sintomas são decorrentes do uso de drogas, processe-o. Consiga testemunhas, procure a corregedoria do Conselhor Regional de Medicina, e processe-o por omissão de socorro. Sem mencionar o B.O. que você pode registrar, pelo mesmo motivo.

      Um abraço!

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    1. Sim, destilados são um problema. Além do estrago que fazem no Coração e Fígado, o álcool tem essa peculiaridade. Ele aumenta a glicose e depois a queima com muita rapidez.

      Seu marido está correndo risco sério de perder a Vida. Ele precisa se conscientizar.

      Obrigado por sua visita. Melhoras ao seu marido!

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  2. Olá!!! Minha filha é diabética desde 1 ano e 4 meses e está com 16 anos atualmente. De vez em quando sofre com essas crises convulsivas por hipoglicemia, será que tem algum medicamento para evitá-las? Tenho medo de sequelas!

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    1. Infelizmente, o único remédio é a prevenção, embora seja justamente a dieta rígida inserida em uma rotina corrida uma das coisas que precipitam as crises. Sempre haverá algum prejuízo, ainda que mínimo, à saúde, quando há picos ou quedas de glicemia. Ter fontes de glicose “rápida” é fundamental, a qualquer hora e lugar.

      Um abraço e melhoras à sua filha! 😎

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  3. Olá parabéns pela matéria.
    Descobri a mais de ano q.tenho diabetes, no começo do tratamento precisei tomar insulina.Acordei um dia a noite passando muito mal.Sentia meu coração bater muito forte, estava sozinha em casa.Mas não tive forças para me levantar,e devo ter adormecido de novo.só Acordei no dia seguinte.

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    1. Provavelmente, estavas com hipoglicemia severa nessa ocasião. Acredito que você hoje tenha consciência de ter fontes de glicose de ação rápida (melado, refrigerante doce, bolos, etc.).

      Deves ter junto de você, também, o glicosímetro (medidor de glicemia capilar) sempre com pilha e em bom estado, com tiras de teste dentro do prazo de validade. Muitas vezes, confundimos os sintomas da hipoglicemia com os da hiperglicemia – ou vice-versa – e, baseado num julgamento errado, tomamos as medidas erradas, colocando, inclusive, sua vida em risco.

      Obrigado pela visita! 😀

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  4. Descobri a pouco tempo atravez de um desmaio que tenho a hipoglicemia é horrivel e depois do desmaio meu corpo foi sugado todas as energias que eu tinha ate no mecher dos dedos eu ficava cançada, e passei um mes de cama andando somente o necessario e muito chocolates e doces em geral o pior que tambem tenho angina onde complica, os remedios me causa adrenalina me deixando muito debilitada.
    voce esta de parabens pelo site nossa!!! bem esclarecido, DEUS O ABENCOE tem muitos como eu em busca de mais explicaçoes. ja pesquisei em varios e muitos deixa a desejar.

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    1. Eu é que te agradeço, Leovanda! E peço e oro agora por você e por sua saúde. Você, aos poucos, se adaptará. Se você buscar, encontrará, certamente, ajuda e apoio. Você não está sozinha nesse barco.

      Fica bem! Fraterno abraço em você! 😀

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  5. Muito legal sua matéria, tenho diabetes desde os 16 anos, hj com 33, as vezes tenho crise severa de hipoglicemia, quando morava com minha mãe ela achava que era algo espiritual e hoje casada meu marido acha que é algo psicológico, ele insiste que eu preciso fazer terapia, mesmo eu explicando sobre ser consequência da administração da insulina, já tive crise mesmo tendo me alimentado bem, daí ele foca nisso dizendo: “como é crise glicêmica se vc jantou e comeu doce”, e eu não tenho resposta pra isso. Sei que é terrível quando ocorre, eu grito, falo coisas sem sentido, grito por pessoas que não estão presente, me debato, eu agrido meu marido tento morder é uma luta corporal e na maioria das vezes não lembro de muita coisa, só vejo a bagunça e dores e ematomas, enfim, meu maior medo é ficar louca permanentemente. Pior que tenho essas crises quando aumento meu controle, com exercícios.

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