O ser humano existe?


Presente em meus devaneios quase filosóficos, um problema sempre me desconcertava: era o uso do termo existência e outros que se relacionavam com este nos discursos sobre os seres e suas relações com a natureza. Parecia igualmente ilógico perguntar a mim mesmo se Deus existe ao mesmo tempo que indagar se o homem existe. E por quê? Porque significaria colocar ideias diferentes sob o mesmo escopo de investigação, sob o mesmo critério, indicado pelo verbo existir.

A validade das duas questões, apenas aparentemente idênticas, seria posta em dúvida quando eu perguntasse o que teria nascido primeiro, o ovo ou a galinha. Mas, é garantido que assim como o ovo, a galinha também tenha nascido (ou seja, em sua forma de manifestação)? Seria válido usar o mesmo verbo nascer para ambos? Assim, porventura, seria válido usar o verbo existir na questão sobre a essência Deus e do homem?

No latim, assim como em português e em outras línguas próximas, um verbo (exprimindo ação ativa ou passiva) é modificado pelas circunstâncias, as quais eu ousaria chamar, como no Livro bíblico da Sabedoria, de peso, medida e profundidade. Usam-se, então, nas línguas, os números, os casos, as pessoas, os prefixos, os modos, os advérbios, etc. Assim deve acontecer com as ideias que a investigação filosófica (e também, através da Dialética) pretende elucidar.

Vou chamar atenção para o verbo existir. Ele vem do latim, e é a junção do prefixo ex ao verbo sístere. Ora, o prefixo ex dá-nos a ideia de “fora, vindo de fora, exterior, a partir de fora, para fora”; o verbo sístere evoca a ação de “firmar, apoiar-se”. Podemos intuir, deste verbo, a ideia de “algo sólido, que se consolida, apoia-se em condições estabelecidas em algo particular”. Análogos ao verbo sístere (como ação da base de ideias criadoras), temos tenere (ter, segurar), stituere (estabelecer, firmar), stare (parar, situar), etc.

Logo, na origem remota do verbo composto exsístere, podemos livremente deduzir a condição de quem (ou do que) “está livre de limitações, vem de um estado isento de bases tangíveis ou definidas, influi sem ser influenciado”. É em si, e ao mesmo não é (sob a ótica dos limites), não sendo limitado por quaisquer condições.

Não seria, então, um erro de método perguntar se o homem existe? Sim, porque o homem é, mas o é em seu estado cheio de limites e condições. Ele, para ser o que é, depende de uma infinidade de variáveis (saúde, tempo de vida, etc.), não satisfazendo, portanto, os requisitos para existir (cf. acima o significado de exsístere).

***

Perguntemos: Então, o homem não existe?

Isso mesmo: o homem não existe! O homem subsisteEsse é o verbo — subsistir (de subsístere que descreve o ser que manifesta-se sob determinadas condições, age sob certas leis e, na maioria das vezes, é atuado e limitado por essas leis (requisitos, limites, vicissitudes, necessidades, etc.). Nem mesmo se o homem estivesse livre dessas vicissitudes e limites poderíamos dizer que ele existe, pois sendo ele livre, pressuporíamos a possibilidade, para ele, de não ser livre. Estar sujeito à simples possibilidade de ser não-livre, já relativiza sua liberdade. Assim, sua “liberdade” subsistiria sob determinadas condições.

Se, e somente se, o homem não dependesse de uma tal liberdade é que ele, verdadeiramente, não seria atado a nada. Estar ou ser relativo a algo já exclui a hipótese de existência. A necessidade perfaz a condição sine qua non para haver manifestação de algo ou um ser.

Então, segundo a concepção teológica judaico-cristã. poderia eu dizer que Deus existe? Isso é papo para outra postagem. Continue acompanhando…

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5 thoughts on “O ser humano existe?

  1. Filósofo (e) amigo Ebrael,

    Voce está se superando. Excelente aula teórica que faz muito sentido.
    O Ser humano, a maioria, tem subsistido mesmo.

    Beijos

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    1. De teoria mesmo, nada! Apenas divagações e especulações… Mas, confesso que para mim faz sentido.

      Bjs!

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