Para os protestantes que insistem (inutilmente, claro) que a devoção à Santíssima Virgem Maria surgiu por uma invenção dos católicos após Constantino é que, especialmente, escrevo esta postagem. Claro que, para todos os católicos, servirá também como informação valiosa, mas escrevo para mostrar aos irmãos que andam no erro que a devoção mariana remonta mesmo à Igreja Católica dos tempos apostólicos (a que os protestantes chamam de “primitiva” para tentar separá-la da Igreja de sempre).

Sub tuum præsidium

Sub tuum præsidium (do latim, “À vossa proteção”) é a mais antiga oração pela intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, e é datada do séc. II, quando muitos dos primeiros sucessores dos apóstolos  (ordenados como bispos e presbíteros) ainda estavam vivos.

No original em latim:

“Sub tuum præsidium confugimus, Sancta Dei Genetrix; nostras deprecationes ne despicias in necessitatibus nostris, sed a periculis cunctis libera nos semper, Virgo gloriosa et benedicta. Amen.”

Traduzindo:

“À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus; não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades; mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. Amém.”

Vejamos o que nos afirma um artigo sobre o assunto, constante no site da Editora Cléofas:

“No ano de 1927, no Egito, foi encontrado um fragmento de papiro que remonta ao século III. Neste fragmento estava escrito: “À vossa proteção recorremos Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita!”.

Esta oração conhecida com o nome “Sub tuum præsidium” (À vossa proteção) é a mais antiga oração a Nossa Senhora que se conhece. Tem ela uma excepcional importância histórica pela explícita referência ao tempo de perseguições dos cristãos (Livrai-nos de todo perigo) e uma particular importância teológica por recorrer à intercessão de Maria invocada com o título de Theotókos (Mãe de Deus). (…)”

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Um pouco de história (real) da Igreja

A mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo foi honrada e venerada como Mãe da Igreja desde o início do cristianismo. Já nos primeiros séculos, essa devoção está presente e pode ser reconhecida, por exemplo, nas evidências arqueológicas das catacumbas, que demonstram a veneração que os primeiros cristãos tinham para com a Santíssima Virgem. Tal é o caso de pinturas marianas das catacumbas de Priscila, do século II, local onde os primeiros cristãos se reuniam, ocultos aos romanos: um deles mostra a Virgem com o Menino Jesus ao peito e um profeta, identificado como Isaías, ao seu lado [cf. a gravura abaixo]. Nas catacumbas de São Pedro e São Marcelino também vemos uma pintura do século III ou IV, que mostra Maria entre Pedro e Paulo, com as mãos estendidas em oração.

A Virgem, o Menino e o Profeta Isaías
Primeira representação conhecida da Virgem Maria (Catacumbas de Santa Priscila – século II)

Os Padres do século IV elogiam de muitos modos a Mãe de Deus. Epifânio refutou o erro de uma seita árabe que tributava idolatria à Maria: depois de rejeitar tal culto, ele escreveu: “Sejam honestos para com Maria! Seja adorado somente o Senhor!”. A mesma distinção vemos em Santo Ambrósio, que, depois de exaltar a “Mãe de todas as virgens”, esclarece que “Maria é o templo de Deus, e não o Deus do templo”; para prestar sua legítima devoção mariana, livre de enganos, ele distinguiu o lugar devido a Deus Altíssimo e o lugar da Virgem Maria.

Na Liturgia Eucarística também constam dados confiáveis que demonstram que a menção à Maria nas Orações remonta ao ano 225, e também nas antiquíssimas festas do Senhor, da Encarnação, da Natividade e da Epifania: todas homenageavam a Mãe do Senhor e da Igreja.

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O testemunho dos primeiros presbíteros

O primeiro registro escrito da Patrística de que dispomos sobre Maria é o de Santo Inácio de Antioquia (bispo entre os anos 68 e 107 d.C.). Combatendo os Docetistas, ele defende a realidade humana de Cristo para dizer que pertence à linhagem de Davi, verdadeiramente nascido da Virgem Maria. Afirmando que Cristo foi concebido em Maria e nascido de Maria, e que a sua virgindade pertence a um Mistério escondidos no Silêncio de Deus.

São Justino (martirizado no ano 167) refletiu sobre o paralelismo entre Eva e Maria: “Se por uma mulher, Eva, entrou no mundo o pecado, por uma mulher, Maria, veio ao mundo o Salvador”. No Diálogo com Trifão, São Justino insiste sobre a verdade da maternidade de Maria sobre Jesus e, como Santo Inácio de Antioquia, enfatiza a verdade da concepção virginal e incorpora o paralelo Eva-Maria para a sua argumentação teológica.

A teologia mariana é um tema constante dos primeiros presbíteros da Igreja. Santo Irineu de Lyon (nascido no ano 130), em uma polêmica contra os gnósticos e docetistas, salienta a geração de Cristo no ventre de Maria. Também da maternidade divina lança as bases da sua cristologia: é da natureza humana, assumida pelo Filho de Deus no ventre de Maria, que torna possível a morte redentora de Jesus chegar a toda a humanidade. Também digno de nota é sua abordagem sobre o papel maternal de Maria em relação ao novo Adão, em cooperação com o Redentor.

No Norte de África, Tertuliano (nascido aprox. no ano 155), em sua controvérsia com o gnóstico Marcião, afirma que Maria é a Mãe de Cristo, – portanto Mãe de Deus, – pois o Senhor foi concebido em seu ventre virginal.

No século III começou a ser usado o título Theotókos (Mãe de Deus). Orígenes (185-254 dC) é a primeira testemunha conhecida deste título. Em seus escritos aparece, pela primeira vez, a sentença Sub tuum præsidium, que, como dito acima, é um apelo à intercessão da Virgem Maria. Orígenes também define Maria como modelo e auxílio dos cristãos. Já no século IV o mesmo título é usado na profissão de fé de Alexandre de Alexandria contra Ário.

A partir daí, muitos e muitos presbíteros explicaram a dimensão teológica desta verdade: Santos Efrém, Atanásio, Basílio, Gregório Nazianzeno, Gregório de Nissa, Ambrósio, Agostinho, Proclo de Constantinopla, etc. A tal ponto que o título de “Mãe de Deus” torna-se o mais utilizado quando se fala de Santa Maria. Obviamente, “Mãe de Deus” não implica que Maria é “deusa”, e sim que Jesus Cristo, seu filho, era plenamente homem e também plenamente Deus. Se Jesus é Deus, e Maria sua mãe, ela é e será sempre a mais agraciada entre todas as mulheres, pois foi a mãe de Deus.

Fonte: Revista Fiel Católico.

2 comentários em “Sub tuum præsidium

    1. Boa noite, Nágea!

      Bem, eu desconhecia essa “interpretação” a respeito de Nossa Senhora, embora já soubesse que há religiões que a sincretizam com outras figuras ou deidades (como Iemanjá, para os candomblecistas, etc.).

      Não, Nossa Senhora não é nada disso que você falou. Ao menos, não para os católicos. Para os católicos, até que Jesus venha e diga-nos o contrário, será o que sempre nos disse dela a Santa Igreja: Mãe de Nosso Senhor, Mãe de Deus (enquanto feito Homem), agraciada com o Dom de ser a Arca da Nova Aliança na qual encarnou o Verbo de Deus.

      Nossa Senhora, a Santíssima Virgem Maria, é uma pessoa concreta, a mais perfeita das criaturas, bem-aventurada para sempre justamente por ter dado à Luz ao Salvador da humanidade, o Messias e Cristo. É a Mãe da Igreja Universal (Ekklesia Kathóliké), pois nela nasceu o Corpo físico daquele que é a Cabeça do Corpo Místico de Cristo, esse que é a mesma Igreja. Enquanto representação da feminilidade, nada tem de divina na origem, mas apenas na santidade de seu seio e cooperação na Obra da Redenção.

      Essa é a herança do Fidei Depositum! Um abraço em Cristo!

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