Há pessoas que, simplesmente, não têm como tirar folga nesse período de festas de fim de ano, seja pelo Natal ou pelo Ano Novo. Há outras, no entanto, que tiveram a sorte de encontrar um trabalho que lhe possibilite essa trégua providencial ao estresse cotidiano.

Mas, convenhamos: tendemos a usufruir a folga ou como tartarugas com cãibra ou como chimpanzés iludidos pelo cacho de bananas douradas. Ora nos esvaímos num oásis de absoluto ócio, ora nos entregamos à euforia que nos cansa ainda mais. Ambos os comportamentos são contraproducentes no intuito de fazer descansar nossas mentes inquietas. Mas, como encontrar o meio termo?

Mesmo que o fim de ano seja uma linha imaginária que as convenções humanas criaram para celebrar o término de um ciclo (também imaginário), cria-se ali, sim, um abismo diante do qual devemos interromper nosso passo. Mas, não que não devamos, vez por outra fazer pausas em nossas vidas, mas porque todos, como seres sociais, fazemos isso coletivamente. Se juntos sofremos reveses e obtemos vitórias durante o período de um ano, ao final deste devemos todos juntos parar e pensar. Auto-avaliação de nossos passos: eis o melhor uso que podemos fazer deste tempo de ócio e encontro com as pessoas.

É diante deste abismo entre a aceleração do dia-a-dia e a inércia a que tendem nossas mentes que percebemos o quão distantes (ou próximos) estamos de nossas metas. Mais ainda: o quanto ainda necessitamos uns dos outros e de nós mesmos. Quando estamos unidos e, em uníssono, oramos a Deus, em gratidão, é que nos sentimos mais humanos e nossa carne toma uma utilidade só comparável à Caridade e à procriação.

Recesso — lembremos — não é o mesmo que retrocesso. O primeiro termo significa reter o passo, enquanto o segundo equivale a andar para trás. Recesso é andar devagar, quase parar para apreciar as flores do caminho com mais atenção e verificar em que estado se encontram as bolhas da sola de nossos pés.

O recesso nos convida a recolhermos água nova para o próximo trecho da jornada, ao qual acederemos por um salto imaginário de coragem por sobre nossas angústias, carregando as chagas de nossos erros e as criaturas estranhas que habitam o fundo do alforje de nossas almas. Também evoca a ideia do regresso a alguns pontos em que deixamos cair nosso ânimo, parte de nossas promessas e muitas prendas tão mal conservadas em nossas túnicas surradas.

Sim, agora também este errante e vagabundo terráqueo se recolhe ao seu saco de dormir. Não acredito que eu seja uma pessoa realmente digna de contemplar as estrelas sobre minha cabeça. Mas as pedras que alguns, como carrascos auto-investidos, me atiram, me servirão de travesseiro para moldar meu crânio sem afundá-lo antes de findar esse Dia Grande chamado Ano.

Ao acordar em novo Dia Grande, que tenhamos, ao menos, força para respirarmos o ar que muitos se recusam a reter em seus pulmões, seja por medo, ódio ou loucura.

DIES IRÆ voltará aos trabalhos somente em janeiro, ao fim da primeira ou segunda semana. Não apenas para dar lugar a um balanço, mas para descanso desse cara “intolerante” que nele escreve. Louco para uns, arrogante para outros, mas ainda assim humano!

Feliz e Santo Natal a todos, especialmente aos amigos e leitores que ainda não se cansaram de vir a este espaço meio anacrônico. E também desejo-lhes um próspero Ano Novo! 😀

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2 comentários em “Enfim, chegou o tal recesso de fim de ano

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