A Noite Escura da Alma


Simplesmente, um dos poemas mais lindos e perfeitos que já li! Saboreiem!

***

São João da Cruz, Doutor da Igreja.

A Noite Escura da Alma (em espanhol, La Noche Oscura del Alma) é um poema do escritor e místico espanhol São João da Cruz, datado do séc. XVI, que daria origem a um livro, em dois volumes, com comentários do Autor sobre o dito poema. Trata da jornada épica da Alma (a “amada”) em busca da união com seu (e nosso!) Criador (o “Amado”). A “noite” é escura, pois há muitas dificuldades em encontrar um caminho seguro dentre tantos apegos e amarras (armadilhas) com que a Alma, deveras, se depara.

Falar, comentar, divagar sobre o poema são expedientes desnecessários diante de uma construção literária ímpar, seja pela beleza, pelo estilo, ou seja pelo conteúdo absolutamente espetacular. Não foi à toa que João da Cruz, contemporâneo de Santa Teresa d’Ávila (autora do Livro das Moradas ou Castelo Interior), fora canonizado (declarado como tendo morrido em “odor de santidade”, ou seja, com alma santa).

Sem mais, as oito estrofes deste lindo edifício de inspiração:

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A NOITE ESCURA DA ALMA

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Em uma noite escura
De amor, em vivas ânsias, inflamada
Oh! Ditosa aventura!
Saí sem ser notada,
Estando já minha casa sossegada.

Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,
Oh! Ditosa aventura!
Na escuridão, velada, E
stando já minha casa sossegada.

Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa alguma,
Sem outra luz ou guia
Além da que no coração me ardia.

Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia,
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia, Em lugar onde ninguém aparecia.

Oh! noite, que me guiaste,
Oh! noite, amável mais do que a alvorada
Oh! noite, que juntaste
Amado com amada,
Amada, já no amado transformada!

Em meu peito florido
Que, inteiro, para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.

Da ameia a brisa amena,
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava.

Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado;
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado,
Por entre as açucenas olvidado.

***

Fonte: Coração Sacerdotal.

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