Ayrton Senna do Brasil!


Aquela fatalidade na curva Tamborello, no circuito de Ímola (Itália), em 01/05/1994, não apenas foi algo inesperado e triste. Foi causa de imensa perplexidade e comoção de toda a população brasileira. Podemos constatar também o imenso afeto que Ayrton Senna despertava em todos.

O acidente fatídico que vitimou Ayrton Senna e ceifou sua vida parecia, revisto centenas de vezes nos noticiários daquele dia, algo impensável. Ninguém, até aquele momento, se dava conta do lado heroico de Senna. Talvez porque, no Brasil, os heróis sejam realmente raros, mais que em qualquer outro lugar do Mundo. Só depois que as pessoas deixaram de ver, aos domingos, aquele brasileiro com real orgulho de ser brasileiro, a sacudir a bandeira de seu país, é que as pessoas perceberam o quanto ele faria falta.

Senna não era apenas vencedor; ele vibrava como um vencedor. Ele não apenas faturava campeonatos; ele queria os louros de vitórias obtidas no braço, com paixão. É isso: Senna era passional. Não desejava apenas ser o melhor; ele perseguia o desafio. Havia um certa compulsão pela superação naquele ímpeto de Senna por ultrapassar carros mais potentes que o dele, figurando quase como um dever de honra. Instigava aqueles que o instigavam. Provocava seus provocadores e procurava quebrar recordes, fazendo o que poucos pilotos (ou nenhum) teriam conseguido antes.

Como bem observou um de meus colegas de trabalho, os adversários de Senna sabiam que, onde quer que ele estivesse competindo, eles não teriam descanso. E onde mais Senna tivesse dificuldades e obstáculos, mais difícil ainda seria vencê-lo. Na adversidade, Senna se tornava a maior adversidade em uma corrida. Na chuva, Senna era um mago que revertia todas as gotas d’água na pista em motivos a mais para bater recordes, envergonhar orgulhosos pilotos e festejar junto ao povo que o adorava.

Houve outros pilotos, tão competentes quanto Senna, que vi disputar a F-1 (Fórmula 1): Alain Prost, Nigel Mansell, Dammon Hill e, principalmente, Michael Schumacher, mas nenhum detinha aquela gana extrema pela vitória. Este último disputou, embora durante pouco tempo, muitas corridas diretamente com Senna. Não por acaso foi, este último, sete vezes campeão de F-1. Schumacher, alemão, trazia o instinto da efetividade (eficiência + eficácia), próprio dos germânicos. Frio, focado, competente, oportunista e disciplinado. Senna era tudo isso, mas turbinado pelo “fogo nos olhos” que tem o herói, aquele brilho no olhar que somente os predestinados parecem possuir.

Senna foi predestinado, sim! Predestinado o suficiente para ser tricampeão de F-1 em 1992 (coisa, até então, difícil de ocorrer) e para ganhar uma corrida em que seu carro se arrastava em apenas uma marcha, totalmente desgastado, enquanto chovia torrencialmente em Interlagos (1991). Um ano depois, também em Interlagos, acredito ter sido sua apoteose verdadeira, e não após a morte, quando dizem que os heróis vão ao Paraíso. Após a vitória difícil, ele deixa o carro pra trás, esquece o pódium e é carregado nos braços da multidão extasiada por causa de sua vontade de vencer. Realiza-se ali, sim, a apoteose de Senna. Um vencedor é acolhido por aqueles pelos quais venceu, a saber, todos os brasileiros. Este, talvez, entre tantos momentos épicos de sua carreira, foi o mais emblemático de sua vocação para o heroísmo e do amor que o Brasil, sinceramente, lhe votava.

Os pilotos da Ferrari, Nicola Larini, e da Benetton, Michael Schumacher, choram ao saber da morte de Senna. FOTO: CLAUDIO LUFFOLI/AP
Os pilotos da Ferrari, Nicola Larini, e da Benetton, Michael Schumacher, choram ao saber da morte de Senna. FOTO: CLAUDIO LUFFOLI/AP

Chorei muito pela morte de minha avó em 1997,  e por nenhuma outra pessoa, exceto pela morte de Senna. O abalo que sofri foi tão forte que desenvolvi uma síndrome auto-imune e um mês depois, no início de junho de 1994, descobri-me com diabetes, aos 13 anos de idade. Nesta Terra de Gigantes, ele foi o único ícone de que tenho lembrança que tivesse realmente aura de herói. Um herói conduz, vai à frente, mostra como se age nas batalhas de nossas vidas e com que amor devemos encará-las.

Vinte anos sem Ayrton Senna

É isso. Senna não era um santo para veneração. Mas, por mérito próprio, deveria constar na capa de muitos compêndios de Mitologia. Hoje faz 20 anos desde a sua apoteose final, prevista por seus olhares preocupados, antecipada pelo acidente letal do novato Roland Ratzemberg um dia antes e  encontrada em mais uma manhã ensolarada de domingo, numa certa curva de Ímola.

Parabéns pelo 20º aniversário de sua apoteose final, Ayrton Senna da Silva!

Com admiração, de seu fã,

Júlio.

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2 comentários em “Ayrton Senna do Brasil!

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