Aristóteles e o cinismo da democracia contemporânea


O que é, realmente, democracia? Meus leitores já alguma vez se fizeram essa pergunta, sinceramente? Bem, imagino que contestar ou questionar o regime democrático como ele hoje é concebido, mesmo para os mais ecléticos, seja uma heresia imperdoável.

Nós, conservadores, crescemos pensando que o conceito de democracia é diametralmente oposto às doutrinas totalitárias (principalmente, as da Esquerda). Mas, será mesmo que sabemos o que é democracia? Esse regime de liberdades fundamentais, pretendido por nós, onde o fruto do trabalho de cada um de nós é preservado de toda intromissão do Estado, desde que respeitadas as leis, é mesmo condizente com o conceito de democracia conforme foi originalmente elaborado?

Segundo um artigo da Wikipedia [1]:

“Democracia é uma forma de governo no qual todos os cidadãos elegíveis participam igualmente — diretamente ou através de representantes eleitos — na proposta, no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governação através do sufrágio universal. (…) O termo origina-se do grego antigo δημοκρατία (dēmokratía ou “governo do povo”), que foi criado a partir dos termos δῆμος (demos ou “povo”) e κράτος (kratos ou “poder”) no século V a.C. para denotar os sistemas políticos então existentes em cidades-Estados gregas, principalmente Atenas (…).”

O que temos hoje é a democracia representativa que, no fundo, visa proteger a sociedade (dominada, numericamente, por massas ignorantes) dela mesma e de seus conflitos destrutivos. Concordo completamente com esse ponto. Lamento é que ela tenha sido sequestrada, oportunamente, por carcarás mercenários, que legislam apenas em causa própria, ignorando solenemente aqueles para os quais devem trabalhar, em prol do desenvolvimento econômico e de melhores oportunidades para todos. Assim, atuariam prevenindo revoluções e insurreições durante as quais todos estaríamos ameaçados.

Mas, poderíamos perguntar o que vultos históricos, como Aristóteles [2], pensavam acerca da democracia . Algumas pessoas ainda não sabem, mas estou cursando Bacharelado em Administração Pública na UFSC, em Florianópolis. Na apostila da disciplina de Ciência Política, da 2ª fase, há um conteúdo que fala sobre as formas de governo. Detive-me na parte que falava sobre a democracia e suas origens. Vejamos excertos do que ali se fala:

“Ao analisar a tipologia das formas de governo de Aristóteles, precisamos ter bem claro que o termo democracia tinha, na antiguidade, um significado muito diferente do que tem hoje. No tempo de Aristóteles, democracia significava tirania da maioria sobre a minoria, mas a partir do século XX passou a ser entendido como o governo da maioria que respeita os direitos da minoria. Portanto, neste ponto do nosso estudo, o que importa é que você saiba que, para Aristóteles, assim como para vários pensadores da antiguidade, a democracia tinha uma conotação negativa, enquanto para nós possui uma conotação positiva.” [3]

Essa tal tipologia das formas de Poder de Aristóteles se baseava nos fins, ou seja, nos objetivos finais do exercício do Poder. Para Aristóteles, o Poder era representado pelo que obtinha-se ao final do processo, como se fosse um bem tangível e demonstrável.

No entanto, essa visão acerca do Poder modificou-se pelas influências, muitas vezes deletérias, do Iluminismo Francês e Inglês dos séculos XVII e XVIII. O Poder  passou a ser visto como um meio, não mais um fim, e a figurar como algo imaterial pelo qual uma pessoa, ou um grupo de pessoas, influencia a coletividade ao seu alcance. Dividiu-se, por convenção, o Poder em três tipos: econômico, ideológico e político. Assim, os regimes de governo, não mais se orientariam, em essência, para o bem-estar final da sociedade. Fosse qual fosse o regime ou tendência, as condições de vida das classes sociais estariam sempre, dali por diante, em segundo plano.

Mas, enquanto sabemos que o Poder, hoje em dia, é exercido como um meio de influência e não mais em nome de um objetivo final de desenvolvimento da sociedade, as correntes políticas se digladiam por privilégios cada vez mais imorais, estando a massa a vagar em um mercado ideológico que se resolve em si mesmo e cujos conflitos só muito forçosamente são vistos como batalhas visando melhorias sociais e/ou garantias fundamentais dos  polítes (cidadãos). Podemos dizer, inclusive, que a democracia contemporânea se resume a uma reconstituição demagógica, como era considerada por Aristóteles, uma deformação do governo plural ideal — a Políteia:

“(…) De fato, os demagogos gregos defendiam as classes mais pobres, em geral fazendo uso de violência e outros artifícios apelativos, sem restrições de ordem comum, alegando o benefício de suas próprias ações na defesa de direitos da maioria, justificando-se como tal uma oposição à aristocracia conjuntural.” [4]

Aonde quero chegar com essa longa introdução?  Retrocedendo oportunamente, vejamos como Aristóteles via a democracia. Para Aristóteles, um governo deve seu Poder ao fim a que se propõe, é uma concessão visando o desenvolvimento e o bem-estar da sociedade. Para ele, havia três formas de governo, com suas variantes boas e más (degeneradas):

Tabela das Formas de Governo (segundo Aristoteles)
Esquema das formas de governo, segundo Aristóteles.

Por que Aristóteles achava que a democracia era ruim? A razão é simples: para ele, a democracia é o governo das massas, expostas aos descontroles e conflitos sociais e transformadas em turbas enfurecidas, sujeitas às vulnerabilidades das outras formas degeneradas que se inseririam como alternativas (sempre milagrosas).

Assim, a boa forma correspondente, a Politeia (Política, Governo Constitucional e Legal), cujo objetivo  deveria ser  a satisfação de governantes e governados, sucumbe sob sua forma degenerada e passa a privilegiar apenas as demandas das maiorias desqualificadas, viciadas e sem educação, pois dificilmente as parcelas bem educadas da população, mesmo as mais humildes, recorrem ao radicalismo e extremismo laicistas (de massas ditas “laicas”), típicos de correntes demagógicas e populistas. Naturalmente, as massas, assim desencaminhadas e com o poder nas mãos, tendem a engendrar perseguições e massacres contra todos aqueles grupos com influência diminuída (ou com menor respaldo entre as massas) que ousem contestar seus demandas e vistos como os opressores de sempre. Mal sabem as ingênuas massas que seus opressores jamais figuram como realmente são enquanto há forças em oposição, resignando-se às palhas, convenientemente mascarados sob disfarces de ocasião.

democracia2-

A conclusão deste processo convulsivo é, naturalmente, a destruição do Estado. Este quadro eu pinto para um Estado como o Brasil, cuja maioria do povo ainda não desenvolveu um padrão cultural que priorize a preservação da Liberdade individual. A democracia que, na teoria, visava antes livrar o povo dos desmandos dos governos, agora tende a tornar o povo um títere contra ele mesmo (a considerar um regime em que as massas governem), numa reação em cadeia em que ele se  autodestruirá. Após a derrota do povo por ele mesmo, sem outras oposições, sobressaem os conspiradores de sempre, as elites protegidas dentro de  arranha-céus de vidro polido  ou abrigadas sob bunkers, providencialmente construídos com nosso dinheiro.

Sobre as outras duas formas de governo (de Um e de Poucos), com suas boas e más variantes, não me demorarei. Posso dizer,  apenas que, no Brasil independente, passamos diretamente da boa forma Monárquica para má forma oligárquica. Mesmo a gestão de Getúlio Vargas a considero mais oligárquica do que tirânica. No Regime Militar, a anomalia oligárquica superou o desejo de um governo aristocrático de guiar a sociedade a um desenvolvimento cultural e socioeconômico equilibrado.

A Constituição “democrática” de 1988 veio e múltiplos poderes foram dados a um povo que não sabia nem escovar os dentes [5]. Tais poderes, por não terem sido exercidos de fato, nem equilibrada nem conscientemente, pelas massas, foram usurpados pelos condutores (demagogos) do rebanho inepto, ora mal alimentado, ora intoxicado pelo usufruto de bens primários (não mais que panis et circenses) da metrópole babilônica, farta em diversões e futilidades de última ordem.

A Igreja sempre defendeu que o poder político dos reis não é recebido diretamente de Deus (ao contrário do que seus detratores costumam dizer); é o povo organizado em comunidade política que transmite o poder aos reis. Obviamente, a maioria dos reis foi composta por déspotas e tiranos, disso não restam dúvida. Mas, também, com muita frequência, houve (e ainda há) regimes monárquicos em que as massas evoluem culturalmente tendo a Realeza, com seus valores e cultura, como modelos e metas. E um desses modelos monárquicos foi o que desenvolveu-se no Segundo Reinado, no Brasil da segunda metade do ´seculo XIX. O Brasil tinha uma enorme influência na Política internacional nessa época, e ainda mais econômica. Isso, claro, fora convenientemente deletado dos livros de História escritos pelos revisionistas republicanos.

Ainda que com desvios pontuais possíveis (não raros, no entanto), uma mistura entre Monarquia e Aristocracia levaria a um maior e mais equilibrado florescimento cultural e econômico, resguardadas as liberdades individuais contra a fome de poder e dinheiro das elites financeiras e outras catervas, bem como protegidas das instabilidades das massas indolentes.

Já que a Monarquia teria pouquíssimas chances de ser aclamada e a Aristocracia seria ainda mais remotamente possível (pela quase inexistência de homens com valores éticos elevados, capazes de governar o Brasil), ficamos com a esperança, cada vez mais inócua, de que surja um configuração realmente Política (de Políteia), onde a maioria não destruísse, com seus conflitos medíocres e bárbaros, o legado de séculos de tradição nacional, nem as minorias chantageassem, de forma cínica e fascistoide, a sociedade com suas exigências de direitos sem contrapartidas.

Hoje, assim, no Brasil, acredito que o PT e as massas subnutridas, mental e fisicamente, que o seguem. estão mais próximos e coerentes com a antiga degeneração da Politeia (a saber, a democracia) do que nós, cujos desejos por uma nação instruída, equilibrada e próspera, não vão de encontro ao que pensamos ser, de verdade, democracia. A democracia aparece, então, como o que sempre foi: um jogo entre grupos totalitários sem nenhum espírito federativo real,  de unidade ou mesmo empatia.

Portanto, quando você ouvir falar que o PT deseja maior democracia, acredite. Pois, para que haja verdadeira democracia (como degeneração política), é necessário que as massas empobreçam, reajam de forma cega e descontrolada, tomem o Poder e tentem destruir o País, causando alguns notáveis massacres, num revanchismo até mesmo genocida. A democracia, se fosse levada a termo, significaria um desastre inimaginável. Para aqueles que sabem se portar apenas como escravos, é melhor e mais seguro que continuem sob a cangalha, para sua própria segurança e daqueles que os rodeiam.

Na minha opinião, a opção pela democracia, no atual estágio de evolução do povo brasileiro, foi um grave erro. Espero que haja ainda uma saída contra o Poder que essa democracia totalitária das massas bestializadas e das minorias anticristãs concedeu a essas gangues de terroristas que estão depredando nosso Patrimônio, infiltradas como câncer em todos os redutos da sociedade.

***

Referências:

  • [1] WIKIPEDIA. 2014. Democracia. Wikipedia, Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Democracia&gt;. Acessado em 02 de maio de 2014;
  • [2] MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA. 2014. Aristóteles. Monografias – Brasil Escola. Disponível em <http://goo.gl/wLcItf&gt;. Acessado em 02 de maior de 2014.
  • [3] COELHO, Ricardo C. Ciência Política, p. 17 (Bacharelado em Administração Pública). Florianópolis, Depto. de Ciências da Administração/UFSC: 2010;
  • [4] WIKIPEDIA. 2014. Demagogia. Wikipedia, Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Demagogia&gt;, Acessado em 02 de maio de 2014;
  • [5] FIGUEIREDO, João B. Citado em Pensador: João Batista Figueiredo.  Pensador UOL. Disponível em <http://goo.gl/QSx4vF&gt;. Acessado em 02 de maio de 2014.
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