Nascemos sós, vivemos sós e morreremos sós. (Osho) (1)

Sim — poderiam me objetar —, mas “o Amor é forte como a Morte” (2). Como apreciar a noção de solidão, logo em tais momentos, como o nascimento e a Morte?

A Autoconsciência, essa capacidade que eu e você (e todos mais) temos de nos reconhecer a nós mesmos, é o sinal, como que a marca, que nos indica que estamos, fundamentalmente sozinhos no Mundo. Uma coisa é você ser Um com o Outro, um estado do qual nos aproximamos por meio da empatia (3), principalmente, mas que não te tira a certeza de que você é você; outra, bem diferente, é você ser o outro, dentro do outro, com e pelo outro, identificando-se no outro em cada fibra de seus nervos e em cada recanto da alma.

Este último estado não nos permite escolhas, pois nosso egoísmo não mais vive, nosso Ego se foi, nossa pessoa morreu. Ele só é possível numa tal visão beatífica (4), um “aniquilamento supremo” da individualidade. Afora, os aspectos místicos presentes nessas linhas, o fato é que buscamos no sexo e no Amor esse último desejo, que é o de fugir da solidão do Mundo, quais crianças esquecidas em casa durante a festa da véspera de Natal.

Olhamos pela vidraça de nossa Vida. A noite do tempo se apressa, meia-noite soa pelos badalos de sempre, porém a cada ano menos ruidosos e mais nostálgicos. No sexo, comemos o panetone como se Papai Noel estivesse ali, como se as renas nos fossem levar para o Polo Norte a visitar uma casa mágica da qual não desejaríamos jamais voltar. O panetone acaba, restam os farelos. O prazer gustativo do sexo nos inebria a alma. Ali, sabemos que estamos sozinhos, mesmo dentro de outro corpo. A união final, o amálgama desejado não se concretiza, não há mercúrio suficiente, a pedra filosofal não está presente. Eis a frustração, sempre imperceptível ao coração do aprendiz de alquimista!

A vida, como o sexo; o Amor como o nascimento e Morte, desfilam diante de nós quais deveres sagrados, como um instinto fatal, após o qual estaríamos mortos, desidratados e cozidos, se não contássemos com a inundação de endorfina que sofre nosso cérebro e o automatismo providencial do cerebelo que, gentilmente, mantém nossos corações batendo.

Se, porém, “a Morte é o trabalho da Vida”, a Vida não nos destina, exclusivamente, a uma eterna solidão ou corrida por um tal “ouro de tolo”. A Vida é um sonho real dentro de outro sonho real. Qual de nós está sozinho? Aquele que sonha acordado ou o que acorda após o último sono?

In Corde Iesu, semper! 😉

***

Notas:

  • (1): OSHO. 2006. Amor, Liberdade e Solitude: uma nova visão dos relacionamentos. São Paulo: Cultrix, 2006.
  • (2): BÍBLIA (VULGATA LATINA). Cánticum Canticôrum, VIII, 6: “Pone me ut signaculum super cor tuum ut signaculum super brachium tuum quia fortis est ut mors dilectio dura sicut inferus æmulatio lampades ejus lampades ignis atque flammarum.” (Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o Amor é forte como a Morte, e duro como a sepultura é o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo e das chamas).
  • (3): Empatia, segundo o Dicionário Online Michaelis: “sf (gr empátheia) Psicol Projeção imaginária ou mental de um estado subjetivo, quer afetivo, quer conato ou cognitivo, nos elementos de uma obra de arte ou de um objeto natural, de modo que estes parecem imbuídos dele. Na psicanálise, estado de espírito no qual uma pessoa se identifica com outra, presumindo sentir o que esta está sentindo.” Disponível em <http://goo.gl/8RiEVB>, acessado em 9 de setembro de 2014.
  • (4): Visão beatífica “é o claro, imediato e intuitivo conhecimento de Deus que resulta da felicidade eterna”, segundo o site Exsurge, Domini, em <http://goo.gl/yIrNMX>. Ainda neste artigo, podemos encontrar uma citação do Denzinger-Schönmetzer, no qual conta-se que Bento XII disse que o bem-aventurado “vê a essência divina por uma visão intuitiva e face-a-face, de modo que a essência divina é conhecida imediatamente, mostrando-se plena, clara e abertamente, e não por meio de qualquer criatura” (DS 1000, 2).

2 comentários em “De tránsitu Vitæ (A passagem da Vida)

  1. Acordado não está nem um, nem o outro que pensa ter acordado, pois, quem acorda verdadeiramente nunca se sente sozinho, ao contrário, identificou-se com a essência verdadeira de tudo e de todos, tendo uma multidão colossal consigo o tempo todo, onde, na verdade, já não mais existe o tempo e a distância, nem qualquer impedimento para que haja a comunicação perfeita entre todos, por serem UM. Saúde e sossego, meu Irmão!

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