Em uma frase, eu poderia definir o objeto focado por este artigo da seguinte forma:

Desejo é a sensibilização operada pela Vontade na natureza dos seres.

Há dois termos que, em latim, significam, cada um a seu turno, a noção do que é o desejo:

  •  Cupiditas: palavra derivada do nome do filho de Vênus, Cupido, -inis, a deidade romana responsável pelo nascimento do desejo e das paixões nos seres (na maioria dos casos, as paixões sexuais e/ou artísticas). Cupido é o nome em latim equivalente ao que representa Eros, em grego.
  •  Desiderium: literalmente, desejo, intenção, ato de quem ambiciona algo. O mais interessante é que, decompondo essa palavra, obtemos de- e siderium. Ora, siderium ecoa o Céu, o espaço sideral, as estrelas. Logo, de-siderium evoca a ideia de um sentimento de quem perdeu algo, de quem caiu do Céu e está à procura de algo muito valioso, um caminho de volta às “estrelas” ou ao seu Paraíso.

A rigor, o desejo tem essa conotação, partindo das premissas expostas acima. O desejo é, ao mesmo tempo, motor das paixões (desejo como brasa acesa) e vetor do destino dos seres, a nível físico e/ou espiritual. Aliás, cabe lembrar, vejo que a realidade espiritual precede a física, seja de que ângulo eu aprecie este fato.

Vontade e desejo são a mesma coisa? A princípio, pelo uso corrompido que damos às palavras que usamos, parecem dar na mesma. Porém, analisando a primeira premissa no axioma que estabeleci no início, parecem que não significam a mesma coisa. E por que?

Pense numa carruagem. A Vontade seria o cocheiro, e o desejo é seu cavalo. A primeira é a inteligência que dirige a força cega, representada pelo segundo. A Vontade detecta uma direção a seguir, pois a carruagem lhe transmite uma necessidade. O desejo, criado e incitado pela Vontade, aponta e impulsiona a carruagem a seguir naquele rumo, a fim de satisfazer aquela necessidade premente, urgente. A passagem do tempo e as condições do Caminho condicionam a Vontade a acelerar o desejo ou dosar suas rédeas.

As necessidades sempre condicionam o desejo? Sim, sempre. O desejo nasce onde falta algo, onde o repouso é inconveniente ou “indesejável”. Ainda que nos movamos em direção ao repouso, o fazemos porque não estamos em repouso. Mesmo algo em movimento que se mova ao repouso, opera uma mudança. Toda mudança provém de um “salto” de estado, cujo vetor é o desejo, e isso independe se o ser está em movimento ou em repouso, na luz ou nas sombras, sujo ou limpo.

O desejo, assim, é o que nos leva a receber algo. O mesmo termo que dá origem ao verbo “querer” (em latim, quærere ), significa “buscar, procurar, solicitar”. Quem deseja algo, automaticamente o busca. Desta forma, querer é poder, pois quem pode buscar, o faz sem demora. E se busca, se sai de sua zona de conforto (boa ou menos ruim, não importa), é porque necessita de algo.

O desejo é um força boa ou má? O desejo é uma força cega, criada pela Vontade, com o fim de impulsionar uma mudança de estado (qual seja físico, moral, emocional ou espiritual). Sim, cega, pois se fosse fixa, não poderia ser dominada pela Vontade. Portanto, não cabem adjetivos como bom ou mal, certo ou errado. Esses não passam de subjetivações, embora os destinos, e seus efeitos, sejam previsíveis pela experiência de cada ser.

Por que as pessoas dizem que os desejos geram os vícios? Em primeiro lugar, devemos conceituar vício. Podemos definir vício como uma ação, a princípio operada para satisfazer uma necessidade que, não preenchido plenamente e contando os seres com outras opções, redundam e se retroalimentam indefinidamente. Por sua vez, a Vontade, ainda com a necessidade primária não satisfeita, precisará operar um novo desejo para compensar o desgaste causado pelo desejo anterior (portanto, para estabilizar-se), ficando, assim, fragilizada. Resultado: o ser nunca se estabilizará por sua própria Vontade, a qual, ficará refém de outras necessidades advindas da primeira. O ciclo interminável de desejos estéreis e ineficazes (em seu fim de satisfação) é que, ao fim, configura ao que chamamos vício.

Os seres, conscientes ou subconscientes, vivem em estado subjetivo de separação uns dos outros. São seres sempre portadores de necessidades, as mais variadas, em sua maioria comuns a todos. Assim, constituem um comércio de necessidades, não apenas materiais, mas também morais, emocionais e espirituais. Temos, cada um, um copo, no qual recebemos algo que nos interessa de um outro e do qual deveríamos passar à frente parte do que é recebido a outro. Assim, nosso copo nunca estaria vazio nem transbordante.

Se, ao invés de doarmos aos outros parte do que recebemos, retermos o máximo, majorando nossas necessidades reais, acumulamos mais do que precisamos. Acostumamo-nos, então, com aquela quantidade máxima, pensando sempre que precisamos de mais. Não percebemos que nos esforçamos para reter aquilo que não temos capacidade de usufruir. Debilitamo-nos, carregando um fardo inútil, enquanto nos distanciamos de nossos outros comerciantes, nos afastamos da sociedade de almas, ajudamos a falir o sistema. Nisso consiste o egoísmo: reter para si o que não nos compete fruir. Isso, mais do que uma postura mesquinha, é ingenuidade. É como tentar acumular água com uma peneira. Seja sonegando o talento, enterrando-o, seja deitando-o fora, prestaremos contas ao Administrador da Fazenda.

Por que o desejo confunde as pessoas? Vejo dois problemas, e o faço como constatação pessoal: as pessoas não sabem para onde vão nem do que precisam, realmente. As pessoas apenas reagem à contingência. Seguram areia entre os dedos e se esquecem que entre eles também cabem as estrelas (a essência de sua Vida, sua missão neste Mundo). Se o desejo nasce da Vontade, a mesma sabe que a areia pertence aos dedos tanto quanto as estrelas. Se chegar às estrelas é uma ilusão, querer dominar o vento que movimenta a areia também o é.

Em latim, a raiz do verbo “querer” (“velle”) e “voar” (“volare”) é a mesma. Eu voo, eu quero, eu busco. Querer é sobrevoar sua necessidade, é uma antevisão do que você deseja. Se você quer voltar às estrelas, queira, do fundo do Coração. Mas também cuide de segurar a areia. Como dizia Lair Ribeiro, com os pés no chão e a cabeça nas Estrelas.

In Corde Iesu, semper! 😉

***

Briefly, I could set the object focused in this paper as follows:

Desire is the awareness operated by Will in the nature of beings.

There are two terms in Latin  which, both by each way, notice the meaning of we guess it’s desire:

Cupiditas – word that came from the name of Venus’ son, Cupido, -inis (in eng. Cupid), the Roman deity responsible for making raise desire and passions in beings (in most cases, sexual passions and / or artistic). Cupid is the Latin name equivalent to what is Eros for the Greek.

Desiderium – literally, “desire, intent, wish, act of one who aspires to something”. The most interesting is that, by decomposing the word, we get de- and -siderium. We could see that siderium reminds us the sky, outer space, stars. Thus, de-siderium evokes the sense of who lost something, who fell from the sky and are looking for something very valuable, a way back to the “stars” or his Paradise.

Strictly, the desire has such connotation, based on the premises set out above. Desire is, at the same time, motor of lust (desire as burning coal) and guidance of beings, physically and / or spiritually. Incidentally, it is worth remembering, I think spiritual reality precedes physical one wherever may I apreciate both.

Are both Will and Desire the same? At first glance, for the corrupted way we do use of words, both seem to be the same. However, analyzing the first premise in the axiom above, Will and Desire seem not mean the same thing. , But, why?

Think of a chariot. The Will is the coachman, and the Desire its horses. The first is the intelligence that directs the blind force, represented by the second. The Will detects a direction to follow, because the coach gives her a necessity. The desire, created and encouraged by the Will, points and drives the chariot for it to keep on that path in order to meet that urgent, urgent need. The passingby of time and the road conditions affect the Will as well speeding up the desire or as relaxing their reins.

Do the needs always influence the desire? Yes, they always do The desire is born where something is missing, where the home is inconvenient or “undesirable”. Even as we move toward the rest, we do it because we are not at rest. Even something in motion that moves into the rest, operates a change. All change comes from a “jump” of state, whose vector is the desire, not regarding if the being is in motion or at rest, under the light or into the shadow, dirty or clean.

The desire, therefore, is what enables us to receive something. The same term that gives rise to the verb “to want” (in Latin, quærere), means “to seek,  to search, to ask for”. Who wants something, automatically searches for it. In this way, wanting is might, for who can search, does so without delay. And if one searches abd comes out of safe zone (good or bad, nomatter), one goes for it because one needs something.

Is Desire a good or evil force? Desire is a blind force, risen by the Will, in order to boost a change of state (be it physical, moral, emotional or spiritual). Yes, blind, for if it were fixed, it could not be ruled by Will. So that word doesn’t allow adjectives like good or bad, right or wrong. These are just subjectivities, although destinations, and its effects are predictable by the experience of every being.

Why do people say that desires generate the vices? First, we must conceptualize addiction (another name for vice). We can define addiction as an action, firstly operated to fulfill a need still not satisfied and counting beings with other options, it comes to feed needs back indefinitely. In turn, the Will, still not satisfied with the primary need, will need to operate a new desire to compensate for the debt (by wearing) caused by previous desire (or be it, to stabilize it), and thus remaining ever more weakened. Result: the being would never stabilize on its own Will, which, would fall as hostage to other needs, those which come first. The endless cycle of unuseful and ineffective desires (in their job of fulfilling needs) is that, at the end, figures that we call addiction.

Beings, conscious or subconscious, live in subjective state of separation one from each other. Beings always carrying needs, different and common to most. Thus, the people establishes a trade of needs, not only material, but also moral, emotional and spiritual. We are like cups, in which we receive something that interests us from another and that we should get ahead to another. So, our glass would never be empty or overflowing.

If, rather than we give to others of what we received, we keep back the most, subsequently overworthying our real needs, we will accumulate more than we need. We are used to fit, then, that maximum amount, thinking we need ever more. We cannot realize we strive to retain much more than we are able to take advantage. We get our  strenght abused, carrying an useless burden, as we move away from our other traders and from the Fellowship of Souls, we help to bankrupt the system. It is egoism: to retain what we are unable to enjoy. This, more than a petty attitude, it is naive. It’s like trying to hold water with a sieve. Or withholding talent, burying it,or laying it out, we must to account to the Farm Manager.

Why do desire confuse people? I see two problems, and I do as at particular glance: people do not know where they wish to go for or what they really need. People just react to contingency. They hold sand between their fingers and forget that they also fit stars (the essence of his life, our mission or duty in this world). If the desire is born from the will, it knows that the sand belongs to the fingers as much as the stars. Reaching to the stars is an illusion as well as to dominate an whirlwind.

In Latin, the root of the verb “to want” (“velle”) and “to fly” (“volare”) is the same. I fly, I want, I seek. To want is to fly over your need, is a foretaste of what you want. If you want to return to the stars, please, look for it from the deepest of your heart. But also take care of holding the sand. As has ever said Lair Ribeiro, keep on with your feet on the ground and your head up in the stars.

3 comentários em “De Cupiditate (Sobre o desejo)

    1. Recebemos e damos, melhor forma de não deixar nosso talento enterrado. 😉

      Me lembro sempre de ti quando oro. Provação existe apenas quando estamos no lado de cá do muro. Do lado de lá, já não mais será… essa mesma provação.

      Decidir = “decidere”, daí de-cidere = cortar fora. Se tem de decidir, a opção já se tornou inevitável bem antes. Decida, escolha e pronto. Mais fácil que escolher o que quer é escolher o que não quer.

      Beijo e obrigado pela visita!

      Curtido por 1 pessoa

Escreva abaixo seu comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s