Sobre o pensamento dos animais


Ou “De animálium cogitatione“.

Continuando a minha pequena série de devaneios com títulos em latim, venho refletir sobre os animais, mais especificamente os animais não humanos, ditos irracionais. Particularmente, uma pergunta sempre me fustigou a mente desde a adolescência: os animais pensam?

Vamos fazer o mesmo exercício etimológico levado a cabo em postagens anteriores: analisar a origem do termo principal, animais. A palavra “animal”, em latim animalis, deriva de ánima (alma) e refere-se tanto às espécies irracionais como a quaisquer outros seres vivos da Natureza. Mas, por extensão, denota seres dotados de “almas viventes”.

Logo, sabemos que todo ser vivo possui um DNA, por meio do qual um espécime passa às gerações futuras a memória genética de sua espécie (conjunto de características físicas e biológicas) que delinearão a evolução das mesmas gerações. Obviamente, a “memória” genética não implica em ideação (elaboração de ideias), mas deixa implícita a noção de ordem, algo que nota-se presente, em maior ou menor grau e mesmo de forma inconsciente, nos animais.

Os animais não humanos não são racionais porque o primeiro sinal da Razão é a Autoconsciência, a faculdade de se reconhecer a si mesmo diferente dos outros seres e, mais ainda, de refletir sobre essa distinção. Porém, se vemos um papagaio “cantar” uma cantiga infantil ou chamar cada pessoa de uma família por seu próprio nome, podemos ver aí ações ordenadas, não aleatórias. Quando presenciamos cães reagirem de forma diferente aos que lhe chegam, é porque, no mínimo, guardam vivas suas memórias sensórias (sensações de afeição ou repulsão, por exemplo) em relação às diferentes pessoas.

Em relação aos seres humanos, sabemos que aqueles com dificuldades sérias de autoexpressão ou relacionamento social também sofrem com diferentes níveis de confusão mental e atraso no desenvolvimento mental e intelectual, sendo, por exemplo, o caso de pacientes autistas. Temos, assim, firmado que pessoas que tem dificuldades congênitas de relacionamento com o mundo exterior dificilmente atingem o mesmo nível de intelecção e pensamento que os que lhes rodeiam. (Obviamente, me refiro àqueles que não sofreram qualquer trauma psicológico ou condicionamento do meio em que vivem.)

Aí, me pergunto: será que animais não humanos, com cérebros mais desenvolvidos e em contato próximo com o ser humano, não seriam como que “autistas” naturais? A memória (principalmente, além de outras partes do cérebro) é um dos requisitos básicos para a elaboração de ideias (a ideação). Assim, não tendo como expressarem, de forma sofisticada, suas “ideias”, os animais estariam privados da chance de evoluírem em direção ao estágio racional, não deixando, porém, de ter um sentimento de si mesmo.

O ser humano tem, à sua disposição, duas faculdades naturais, além dos cinco sentidos físicos: a intuição e o instinto. Pela intuição humana, mais passiva do que ativa, somos conectados aos planos da alma espiritual em contato com a realidade divina sobrenatural, justamente por serem os humanos dotados de Razão, dom de Deus (saber de onde vêm e para onde vão, ou seja, de intuir sobre como foram criadas suas almas). O instinto vem-lhes da memória racial da espécie, também chamada de inconsciente coletivo, um repositório misterioso de noções comuns a toda a humanidade (se nos referirmos, aqui, à espécie humana).

E o que mais, além da Razão, nos diferencia dos animais? Com certeza, é o instinto, que nos liga à memória da espécie e está mais ativo quando os indivíduos dessa espécie agem de forma parecida, se comportam de forma tão semelhante que se parecem com um “corpo”. Bois pastam, aves migram para o Sul ou Norte na Primavera, gatos saem para acasalar mais à noite, etc. Em quase tudo, agem como um só “corpo”. E assim o fazem porque não podem “inventar” maneiras diferentes de se comportar, individualmente. Quando mudam (ou, como dizem, evoluem), o fazem de forma quase unânime, motivados por fatores ambientais.

Os homens se distanciaram, mais e mais, do seu contato com o instinto à medida que houve a divisão de tarefas, a tal especialização, em função da necessidade de fazer aumentar a produção de bens. Passaram a agir de forma diferente, fazer coisas diferentes uns dos outros, tornando-se cada vez mais como que espécies humanas diversas dentro de corpos biologicamente semelhantes. Assim, não agiam mais em grupo, como um só “corpo”. A fase coletiva da humanidade passou a se tornar menos natural e mais doentia. Quando todos os homens caçavam juntos e as mulheres criavam juntas seus filhos, todos pensavam e agiam de forma consensual.

O problema da existência de um pensamento animal continuará dentro de especulações científicas e filosóficas. Porém, mesmo assim, podemos tecer muitas mais analogias. A presença de memória nos animais é algo já indiscutível, provado cientificamente. Sendo assim, a mesma degeneração e morte que sofre um pássaro em migração que se perde de seu bando, assim também um paciente com Mal de Alzheimer sofre quando perde a memória, a capacidade de elencar ideias e pensamentos.

Penso que, sim, os animais pensam, em níveis rudimentares (ou nem tanto), mas pensam. O grande problema é que sua coesão instintiva com o “ser” coletivo da espécie os impede de elaborar ideias sobre si mesmos, individualmente. Um gato, por exemplo, que deixa de agir como os demais de sua espécie (ao não precisar mais caçar, por exemplo), tende a desenvolver e manifestar uma comunicação cada vez mais elaborada. As necessidades (ou melhor, a suavização delas) tornam os animais mais próximos do padrão de comportamento humano. Quem sabe, por aí, podemos começar a entender como se deu a evolução do ser humano rumo à Razão e seu progressivo afastamento dos seus semelhantes.

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Leia mais: http://goo.gl/5CVC2h.

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