O fim de semana nos traz duas coisas, entre outras: descanso e a tentativa, ainda que inútil, de se livrar das preocupações, dos problemas, estresses e da ansiedade. Normal! Ou não?

Sim, no início da próxima semana de trabalho, não vou querer me concentrar. Ao contrário, vou buscar a dispersão, perseguir o relaxamento e voltar às origens, irrompendo em meio ao Oceano de sonhos. Quem sabe, eu logre alcançar a boa praia de uma tal ilha deserta, à qual costumo chamar de Cristália, uma terra perdida no canto de minhas memórias de adolescente tardio, onde os raios do Sol se refletem nas calmas águas da enseada como que perpassando um prisma. Sim, minha memória é tal qual essa taça transbordante de cristal genuíno e translúcido.

A minha Cristália não consta dos mapas vulgares, mas constitui um padrão ideal, um refúgio imaginário (ou reflexo subconsciente) onde resgato certas memórias inestimáveis, desde as sensações do útero de minha mãe até o puro e imaculado frescor das chuvas de verão, nos fins de tarde. Em Cristália, busco, novamente, contato com aquele caquizeiro que a dona Isaura, vizinha e ex-professora de minha mãe, ostentava ao lado de sua varanda. Persigo o lagarto dos matagaispróximos à nossa casa, comedor de ovos, e dele me afeiçoo, me tornando seu protetor. Nos vales de Cristália, me assento sobre o parapeito da antiga ponte sobre o Rio Passa-Vinte e me despeço do Sol preguiçoso, que quase pedia para atrasar o anoitecer.

De Cristália, entretanto, também me chegam visões de lugares que nunca conheci, que até hoje me são inspirados em sonhos lúcidos noturnos, como que a evocar de minha alma o que de mais cristalino há nas cachoeiras intocadas, nas colinas sevagens das Highlands escocesas ou nos charcos da Bretanha. E das borboletas amarelas em galhos úmidos, às margens do Danúbio, o que direi? Como não ficaria extasiado com as inóspitas cavernas da Capadócia ou com a solidão convidativa do Monte Athos? Seria capaz de não chorar ao vislumbrar Jerusalém de onde Jesus chorou e onde hoje fica a igreja Dominus Flevit, ou não me ajoelhar diante do amanhecer no caminho de Emaús?

(Clique nas imagens para ampliá-las e ver o slideshow.)

Assim, Cristália é o local mágico para onde convergem, caindo em meu colo, todas as imagens mais comoventes que minha mente já pôde apreender. Será ela uma bola de cristal, uma caixa misteriosa de música, um baú secreto que acesso nas noites de trevas, nos tempos de perigo? Sei apenas que feliz também daquele que tem aonde acorrer quando o sapato aperta, que não tem medo de ficar sozinho consigo mesmo, que sabe aonde ir para falar com Deus e deitar em seu colo.

Cristália é um desses lugares, em que o colo de Deus consiste de imagens e dádivas de sua Criação, enviadas diretamente à minha alma a fim de lhe desinfetar do lixo de nossos desvios. Cristália brilha, traduz a luz de Deus e me torna luz para o Mundo, fortalece minha rede entre dois coqueiros e me faz adormecer ao som de Delerium em Flowers become screens.

6 comentários em “Cristália e a busca por contatos

  1. Que bom que você tem sua Cristália, seu refugio e descanso. Sua viagem interna, o mundo só seu. Que bom!
    Tomara que um dia consiga viajar – de avião mesmo – para lugares que tanto seja conhecer. E do jeito que é inteligente, me mandará cartões postais.
    Abração!

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