Sabe aquele Vento Sul soprando no rosto?


Sabe aquele Vento Sul soprando no rosto? Pois então, é o vento da saudade, do sono embalado na cama macia arrumada por sua mãe. Essas lufadas de ar fresco encontram nossa tez úmida, encharcada em corredeiras faciais, afluentes dos olhos fixos naquelas tardes de sábado. Olhos tributários do Mar que é o Tempo, para onde tudo corre e pelo qual tudo é purificado.

Poucas vezes, me dediquei a contar ou listar fatos da minha vida, em particular. Mas, como não pular de saudade de minha infância? Há, porventura, época mais feliz da vida de uma pessoa do que a infância? Mesmo passando necessidades, um menino jamais deixa de sonhar, a menos que se lhe tire os sonhos. Com a graça de Deus, tive uma família que me recebeu neste mundo com a caridade de um presépio, no colo de minha mãe, reflexo do amor mariano mais “empedernido”.

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Quando eu tinha dois anos de idade, minha mãe estava grávida de meu irmão. Morávamos em um barraco de madeira de dois cômodos, num bairro afastado de Palhoça, SC. O nome do local já dizia bastante sobre ele: Cova Funda. Certo dia, naquele tempo em que minha mãe trabalhava sozinha para me dar de comer (meu pai havia sumido pelo mundo), apareceu uma senhora de idade pedindo comida. Diz minha mãe que dava medo só de olhar para a mulher, magra feito caniço, olhar cadavérico. Minha mãe contava, naquele dia, com apenas meia panela pequena de arroz cozido com carne moída para o almoço, do dia anterior. Agora não eram mais apenas duas bocas para repartir a ração de comida daquele dia, mas três. A mulher entrou e esperou, ansiosa. Comemos nós três daquela meia panelinha de arroz com carne. Resultado: nunca mais passamos fome a partir daquele dia.

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Minha mãe e avó são minhas referências de Fé e Caridade nessa minha curta carreira na Terra, até aqui. Minha mãe continua a vir à minha casa para preparar meu almoço, dia sim, dia não. Minha avó, já falecida, ainda reza por nós todos, lá do Céu, que é onde está. Elas me legaram os rudimentos da Fé católica, transmitiram a Fé de sempre, a Fé da Igreja em dois mil anos de catequese ininterrupta e Testemunho cristão no Mundo. Lembro-me, com carinho profundo, das vezes que acompanhei minha mãe à reza comunitária do terço, nas casas dos vizinhos. Ali tomei contato com a História da Salvação, fiz amizades, adquiri o santo hábito de lembrar nossos mortos, de rezar em intenção da Igreja, de comungar nossa herança espiritual. Mas, também aprendi o que é a renúncia dos seminaristas e viciei em torta de milho verde.

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Há, no entanto, coisas da infância que me fazem chorar. E chorar muito, de saudade. Sofro de nostalgia, quando lembro das minhas intermináveis tardes na biblioteca do meu Colégio. Eu, sôfrego, carregava pilhas de livros para as mesas de leitura. Levava até meia hora para eu decidir qual daqueles tesouros eu levaria emprestado para a casa. Saía dali com o livro debaixo do braço como quem o tivesse comprado. O cheiro do livro é algo como que emocionante. Caía o fim da tarde, acelerava o passo, voava até chegar em casa, não olhava para os lados. Não me continha, lia enquanto andava. Tropeçava, nem me dava conta do cadarço desamarrado da conga velha, entrava naquele mundo livresco já durante o caminho.

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Durante a maioria dos anos letivos, estudei em escolas públicas, principalmente no período da manhã. Chegava em casa suado, ao meio-dia, uniforme encardido. Almoçava na casa de minha avó materna. Almoço: feijão amassado com socador de madeira (caldo grosso, temperado com alho, cebola e salsinha), arroz, salada de batata com ovos e cebola, aipim cozido, bife de boi frito na chapa do fogão à lenha ou ovo frito. De vez em quando, eu preparava pirão de feijão e entupia as tripas com ele. Me lançava faceiro ao sofá da sala de minha casa, após o almoço, assistia ao Bozo, Vovó Mafalda, Chaves, Chapolim e decidia, em seguida, o que ia fazer.

  • Opção 1: ir ao Colégio jogar basquete ou me internar na biblioteca;
  • Opção 2: fazer os deveres escolares e estudar para as provas;
  • Opção 3: inventar alguma brincadeira para brincar sozinho no terreno em volta da casa;
  • Opção 4 (a minha preferida): deitar na cama de cima do beliche do meu quarto, colocar a cabeça pra fora dela e dormir com o rosto ao vento Sul que entrava pela janela até o fim da tarde. (Sim, dormir na sombra, com vento ao rosto até o fim da tarde, todos os dias, não tem preço. Para todas as outras coisas, existe o Master Card!)

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Outras coisas impagáveis de minha infância:

  •  Pão caseiro com Doriana (aquela do pote redondo com desenho de casa com sol nascendo ao fundo);
  •  Ficar doente, não ir para a escola e ficar embaixo do cobertor vendo desenho durante a manhã toda;
  •  Passar a tarde de sábado, após a catequese, jogando futebol com os primos, voltando para casa sem camisa, descalço, com a cara cheia de poeira;
  •  Assistir Jaspion, Jiraya, Changemen e Flashmen na Manchete (com os deveres escolares já todos feitos) às 17h45, todos os dias, na TV da marca Telefunken (de manhã, passava Lion Maru, Jiban e Spectromen);
  •  Café com leite, pão caseiro ou bolinho de banana, aos sábados à tarde, na casa de minha mãe (detalhe: com cheirinho de assoalho encerado);
  • Rádio Sanyo, ou ligado na Transamérica FM ou tocando fita-cassete gravada com muito custo (muitas vezes, emendada com esmalte de unha, rodando When In Rome, em I Promise You);
  •  Ganhar o primeiro veículo Comandos em Ação, pimeiro Globo escolar (colocando-o contra a luz para simular a rotação terrestre) ou o primeiro Banco Imobiliário;
  •  Mergulhar o pó de um Ki-Suco de groselha ou framboesa em uma garrafa de água com gás e arrotar refrigerante;
  •  Achar a Mara Maravilha gostosa e ficar triste por saber que ela virou crente.

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Algumas cenas ilustrativas seguem abaixo:





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5 Replies to “Sabe aquele Vento Sul soprando no rosto?”

  1. Esqueceu de dizer como é bom no inglês. Como fez para aprender. E dizer como escreve bem e corretamente, a custa do esforço: supremo do querer. Gente que gosta de escrever tem sede de livro, né?

    Superar e – por vezes – nem ver obstáculos. E será que eles existem mesmo? O bom de ser criança é isso: não existe barreira quando se quer, nem que seja no faz-de-conta: a gente faz.

    Esses desenhos japoneses sempre presentes nas infâncias. Sou um tiquinho mais velha que você e ainda me divirto ao me lembrar como “amava” Nacional Kid. Eu, bem mais louca que você, juntei dinheiro em um lote vago para comprar a roupa igual ao ao meu herói e voar. Não voei. Mas saltei do pé de manga. Não contei para ninguém o motivo de andar por dias, mancando.

    O bom dos desenhos era que ninguém morria. Isto por que no outro episódio, lá estava o mesmo malfeitor.

    Gostoso pensar: a gente teve infância divertida. Brincar de finca, pega-dô, mia gato.

    Aliás, nesse tal de mia gato, eu já estava virando mocinha. Daí, os meninos – feito você, no seu tempo, olhando para Mara Maravilha – fizeram com que a brincadeira fosse suspensa.

    Consistia em apagar todas as luzes do comodo e se esconder. Dai, o primo buscador, ia tateando no escuro até achar o “gato”. E inquiria: “mia gato”. Do miado, ele tinha de acertar o nome da pessoa. Com o tempo a coisa foi ficando esquisita. E a brincadeira foi tirada do rol das nossas farras, nas noites na fazenda.

    Minha infância foi quase 100% fazenda: mas tão saudosa quanto a sua.

    Belo post. Mãe, avó, biscoitos e bolos, quitutes. Almoços e o compartilhar com quem necessitava. Gostoso de ler, sentir esses cheiros e lembrar do clima que, de tão bom, nos fez o que somos. Que a saudade hoje fará parte de todos os dias que virão.

    Grande abraço!

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    1. Acredite se quiser, Valéria: aprendi com você a escrever assim, e com Paulo Mendes Campos, que era outro mineiro, como você (este, de “Belô”), que vivia as sensações do interior e da cidade ao mesmo tempo. Ele tomava vinho português e água no mesmo copo de barro cozido.

      Enquanto você se abalava de cima das árvores a salvar o mundo e perder uma perna, eu montava numa “zica” (bicicleta pequena), empunhando um cabo de vassoura, e saía em disparada sobre aquele cavalo de duas rodas a circundar a quadra da casa de minha mãe. Procurava onde estava o inimigo do Jaspion, o Satangoss (( 😀 ))… Meu Deus!! “Onde estão Magaren e Satangoss?? Bastardos!!”

      Eu realmente me encontrei na crônica com você, tentando modular os parágrafos e os estilos com você, nas buscas de Alice, no olhar vago e perdido de Raimundinha, tentando entender o que fez Tio Helvécio ficar tão amargurado. Ah, Valéria, essas andanças por Minas me fizeram encontrar um oásis de beleza e virtudes que você nem imagina que valor tiveram pra mim…

      ***

      Sim, ser criança é não ter barreiras, seja para o real ou ideal. Não ter recalques. Estar sempre à porta que divide o meu eu e eu mesmo. Acordar ou dormir? Qualquer opção vale a pena na infância.

      Um grande abraço e um beijo no Coração! Mande notícias! 😉

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