Ao lado do instinto materno, considero os instintos sexual e de sobrevivência as forças motrizes mais poderosas da essência humana. Assim, podemos vê-los em ação também em quase todos os reinos da Natureza, inclusive entre os seres assexuados. Em três palavras, respectivamente, os ciclos derivados daqueles três instintos: geração, expansão e conservação. Eis o encadeamento que, desequilibrado, suscita tantas emoções avassaladoras em todos nós. Entre essas, temos o ciúme.

Dizemos que são instintos porque já os trazemos, tais como marcas, em nós mesmos, tanto em termos biológicos como comportamentais, seja estes em relações individuais ou coletivas. Algo nos move a procurar a união dos corpos e almas, visando a procriação. Mas, esta não é apenas um motivo econômico (ou antieconômico), mas uma das realizações principais da vida de um ser humano. Tudo que fazemos de grande na Vida visa a perpetuação através da sobrevivência, se não de nós mesmos (cruel utopia futurista), de nossos genes e/ou nossos feitos a serem ecoados por centenas de gerações.

Assim, as relações sociais e afetivas dos seres humanos são reproduções ativas (e, algumas vezes, passivas) dos três instintos citados no início deste artigo. No entanto, o justo equilíbrio nos efeitos daqueles deve levar a uma interação também justa entre as pessoas, a uma maior compreensão acerca da fugacidade da Vida e das dificuldades dos outros. O que vemos é que, nessa selva onde reina o “salve-se quem puder”, nossos interesses pessoais, descrentes que somos das razões do outro, devem suplantar as sem-razões do comportamento desse outro, sempre ameaçador e/ou imaturo.

Cegos guiando outros cegos — diria Jesus. Nesse caso, eu falaria que são cegos querendo apresentar uma orquestra aos surdo-mudos. Afinal, como será que o ciúme, como sentimento, toma de assalto a mente das pessoas?

 ***

Ciúme, em espanhol, se fala celos. Indo mais adiante, vemos que o significado dessa palavra se relaciona com a noção de zelo. Logo, uma pessoa ciumenta — celosa — é zelosa, por natureza, com tudo aquilo que ela tem como seu. Isso se manifesta nas mais variadas formas, seja para com objetos, status ou pessoas. Mas, o que isso tem a ver com os instintos, propriamente ditos, citados acima?

Geração (meios de conceber, realizar, satisfazer), expansão (meios de crescer e desenvolver) e conservação (meios de manter a satisfação) são feitos desejados e inerentes a todos os seres, racionais ou irracionais, operados por uma Vontade natural extrínseca a esses mesmos seres. Assim, definimos que o ciúme resulta de um desequilíbrio em um (ou mais) dos três processos supracitados, em que sentimos impotência pela falta dos meios de satisfazer alguma daquelas necessidades.

Cada ciclo de nossa vida passa por esses três processos. Quando não conseguimos mais gerar a paixão sexual, necessária à atração física, isso pode se refletir negativamente em nossos corpos e mentes. Sem essa paixão renovada (ou regenerada), cremos que aquele ciclo (no caso de uma relação amorosa) não expandirá e procuraremos nos apoiar no que tivemos de bom no passado. Por fim, vem o medo de que o “aborto” do ciclo amoroso possa por fim à relação. Por isso, a analogia neurótica que muitas pessoas fazem, aludindo ao fim de sua própria vida pelo risco de fim da relação. Algumas dessas pessoas, com efeito, atentam contra a própria vida, seja desistindo do trabalho, usando drogas ou se suicidando.

As pessoas ignoram algumas coisas, tais como:

  • Os ciclos mudam, assim como as necessidades de cada um;
  • A paixão, numa relação, nem sempre será satisfeita por sexo, mas por quaisquer outros desejos de plenitude ou excessos, inclusive por comida, aventuras, esportes e paixões intelectuais;
  • A consciência do prazer pode levar à consciência da consciência do prazer (não é redundância), ou seja, a um nível a mais de sensibilidade relativa ao outro;
  • A consciência do risco de perda, medo do desenlace, pode levar a tornar-nos cônscios de que sabemos de nosso medo, o que leva à culpa e depressão.

Quando estamos numa relação na qual nos acostumamos aos excessos (e sobre os quais, quase sempre, as relações são fundadas), perdemos a referência do que é realmente excessivo. Afinal, em meio a tantos excessos, o que excederia a eles (aos excessos)? Paulo Mendes Campos, certa vez, escreveu: Aquilo que tens à mão é o que te prende; aquilo que possuís é o que te priva. [1]

Aquilo que conquistamos e nos satisfaz, isso sim buscamos manter. É perfeitamente normal que as pessoas busquem o prazer máximo, ao passo que fogem da dor. O problema é que nos fixamos no terceiro processo primário, descrito acima — a conservação —, como a Bruxa que, na estória da Branca de Neve, inutilmente, tenta evitar o envelhecimento. Precisamos, urgentemente, manter nosso prazer, sem saber se do fim daquele ciclo poderá (ou não) advir outro ciclo mais virtuoso, com a mesma pessoa, com outro ou só. O prazer é nosso; nem o tempo ou espaço teria o direito de nos tirar aquele bem, menos ainda quanto mais fugazes (e, portanto, preciosos e intensos) forem seus efeitos.

O desejo pelo prazer se torna tão imperativo que, a despeito das limitações do outro, não raro, começamos a fantasiar e sublimar todas as condições para que aquele prazer continue evoluindo indefinidamente. E qual é o risco?

O risco é o de acontecer o mesmo que quando um devoto se excede na veneração à memória de um santo. Primeiro, a exaltação e emoção levam o devoto a reescrever a vida do santo por uma lenda (alguns chamam a isso de “mentira piedosa”). Logo, milagres e feitos de “piedade” são atribuídos, e assim procede-se a uma apoteose exagerada da alma do santo.

O mesmo ocorre quando nos apaixonamos. Quando você dá sua vida ao outro, irrefletidamente, esquecendo-se que o outro é tão frágil quanto você, você o transforma num santo, sem contar que essa “santidade”, talvez, seja um peso que o outro não possa carregar e não corresponda à realidade. Sua vida segue, junto com todas as suas expectativas e desejos, a cumular os ombros do outro de encargos inadmissíveis. Só que, nesse caso, o “santo” é humano, e você pode estar tratando-o como um ídolo [2], um “Santo Antônio”, sempre ameaçado de ser afogado num copo de reclames ou ser quebrado junto com sua ilusão.

No Cântico dos Cânticos, lemos que “o Amor é forte como a Morte”. Belo, esse versículo, não? Mas, à frente, diz-se que “o Amor é forte como a Morte, a paixão é violenta como o Sheol [3]. Suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama divina” [4]. A luta pela manutenção do prazer, da relação, do castelo (muitas vezes, construído com um baralho) que é a vida a dois, torna-se desejo de morte com o colapso das relações, a separação emocional, cravejados de pregos como ficamos com a separação de corpos.

O medo de perder é o medo de morrer. O ciúme é uma ameaça de morte; a desistência pode soar a nós mesmos como suicídio. Falta de fé? Não seria esse um sinal de que não cremos que a Vida segue e que haverá uma ressurreição de nós mesmos? Não é o ciúme como um tal desejo de gritar e morrer, enquanto gozamos num espasmo de orgasmo?

O medo, a ansiedade, o descontrole, são sintomas de que fomos vencidos pela nossa idolatria em relação ao nosso “ídolo” humano, por nós venerado naquela relação e que deve nos atender em nossas necessidades. Quando a representação de fantasias, projetadas por nós, e a presença física do ser amado (fonte de nosso prazer) se esvaem de diante de nós, nossa vida acaba, a imagem do “ídolo” se quebra, adoecemos e morremos um pouco (se não literalmente). Blasfemamos contra Deus e amaldiçoamos, sem saber, nosso ídolo, seguindo o verdadeiro ser amado por uma estrada estranha, pela qual viemos a saber, depois, que passamos a amar o ídolo por não termos amor por nós mesmos.

O Amor (ou qualquer relação verdadeira) pressupõe, sobretudo, a Verdade e, por sinal, a ausência de ilusões. A única forma de sermos inteiramente sinceros com o outro e, portanto, amá-lo, é sê-lo, primeiramente, conosco. Ainda que nem sempre possamos gritar o que pensamos ao Mundo, nossas almas jamais poderão prescindir de escutar o que sentimos.

LEIA TAMBÉM: De Tránsitu Vitæ.

***

NOTAS

[1] CAMPOS, Paulo Mendes. Folclore de Deus, in “O Amor acaba: Crônicas líricas e existenciais”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

[2] Ídolo: imagem concreta ou abstrata (forma mental) que usa-se como representação de uma crença, seja ela relativa a uma ideia ou a um ser que é digno de ser adorado ou venerado (Nota do Autor).

[3] Sheol: do hebraico, “morada do mortos, sepultura”. Equivalente ao termo grego Hades. Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Sheol>.

[4] BÍBLIA SAGRADA. Cântico dos Cânticos, VIII, 6. Disponível em <https://www.bibliaonline.com.br/vc/ct/8>.

3 comentários em “Ciúme, sexo e sobrevivência

  1. Durante toda nossa vida somos arrebatados por emoções violentas e diante delas exercemos o livre arbítrio. Se não me engano, Marilena Chauí nos oferece excelente contribuição para encontramos uma possível saída. Ela diz que somos seres passionais e, diante dessa realidade podemos usar a ética , que nada mais é do que usarmos a razão em detrimento da emoção. O filósofo M. S. Cortella explia que ao ficarmos diante dessas três palavras: Quero, Devo, Posso (quero mas não devo, devo mas não posso, posso mas não quero) toda cautela é salutar.
    Parabéns por sua clareza de ideias.

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    1. Bom dia, Maria!

      Realmente, chegar a privilegiar a Razão, esse bem conquistado a tão duras penas, seria um grande avanço. O problema é que os instintos precedem à conquista da Razão. Aliás, eles mesmos nos guiam a essa conquista, com fins a nos auxiliar em nossa preservação. Relegar uma força automática ao ostracismo, colocando-lhe freio, sempre gera algum efeito colateral.

      Obrigado pela visita e bom domingo! 😀

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  2. Nem tanto, nem tão pouco… Usar da razão não significa necessariamente um impedimento, exige apenas uma reflexão mais apurada. Temos um cérebro apto para encontrar o meio termo entre instinto primitivo e razão. 🙂
    Boa semana! 🙂

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