Num tempo em que a mídia politicamente correta se apropria da favela para chamar-lhe de comunidade e tentar ganhar a simpatia de sua gente sempre desconfiada, ainda me lembro de quando aprendi que favela era só favela. Favela sim, aquele tipo de agrupamento apertado de casebres de madeira que começaram a proliferar no Rio de Janeiro logo após a Guerra do Paraguai, no séc. XIX, quando muitos dos negros sobreviventes, heróis, foram alforriados, mas não tinham recebido as terras prometidas pelos maiorais. Foi aí que, não tendo onde morar, eles subiram os morros do Rio e lá se instalaram de forma precária. Com a abolição da Escravatura, o modelo foi “copiado” por todos os negros e pobres do Brasil, em todas as suas grandes villas (cidades).

Não pretendo, aqui, escrever um extenso artigo sobre a alma da favela ou dos morros habitados deste país, tarefa essa para acadêmicos. Isto é preciso, sim, que se diga. Mas, não posso me furtar a fazer apontamentos, tomando por base minha própria experiência vivida nesses lugares. Por dois anos vivi em uma favela, no alto de um morro. Longas e intermináveis escadarias, grandes lições. Vamos lá?

Eu, que sempre vivi em um centro urbano mais ou menos desenvolvido, subi, aos 16 anos, uma escadaria mais uma vez, agora como futuro morador. Parecia outro planeta, mesmo tendo eu já o visitado outras vezes. Uma mala, roupas, suor.

Mulheres com as tetas para fora, amamentando suas crias, cachorros perambulando mais do que as pessoas. Sim, os cães dominavam as vielas daquelas alturas, cobravam seus pedágios. Uma sacola de restos de comida aqui, um pedaço de carne acolá, roubado de uma churrasqueira qualquer. Era sábado no morro da rua João Francisco dos Santos, Saco dos Limões. Cidade: Florianópolis, SC.

Acho que, para encontrar a alma de algo, alguém ou algum lugar, devemos analisar tudo a partir do início. Assim como o dia se inicia com o nascer do sol, precisamos sentir o morro a partir da manhã. E o que me chamou a atenção nas manhãs dos morros? Respondo: os sons. Os sons no morro são, ao mesmo tempo, confusos e limpos. Uma senhora raspando a panela com restos de arroz com a colher de pau ou de alumínio, uma matilha de cachorros perseguindo um ganso. Até as discussões de casais vizinhos são ritmadas.

Um som é inesquecível e permanente para a memória de alguém que mora no morro: o trote de quem desce as escadarias rapidamente, principalmente se for para não perder a condução para o trabalho. Mesmo em dias de chuva, quando as pessoas têm de levar um par de calçados a mais (na bolsa ou mochila) para calçar aos pés do morro, os sons das trotadas viram música.

A vida de quem mora no morro jamais é fácil. Nos dias ensolarados, subir com compras de supermercado até o penúltimo barraco do morro (que era o meu caso), é algo que te desestimula aos esportes. Nos dias de chuva, torça para que a cachoeira de lama, que desce do alto do morro, não leve seu barraco junto com os barrancos, morro a baixo. No Verão, arranje o que fazer de madrugada, combata o sono: você precisará esperar a caixa d’água encher, vagarosamente, pois a água ali só chega durante as noites (mas, não em todas).

Mas, é exatamente essa a alma do Morro: o som. O som de quem resiste, sobrevive, mesmo quando não tem para onde mais ir. Quem já leu O Cortiço, de Aluísio Azevedo, vai me entender. O campo de refugiados torna-se uma grande família. Depois, aparece uma rua, um bairro. Chegam as mazelas da vida moderna, as tentações do crime e do dinheiro fácil, amealhado por meio de drogas e anestésicos para a frustração de quem não se conforma por não ser um playboy. Aqueles que são gratos à Vida que receberam, que sabem que o trabalho dignifica o homem, viva ele onde viver, incorporam aquele lugar ao Coração, à alma, e a transformam em Samba, em pagodes.

Há muitos que, melhorando de vida, mesmo podendo se mudar para locais mais acessíveis, preferem construir suas casas de alvenaria no alto dos morros, mesmo sem ligações com as ruas. E por que? Porque a pessoa pode sair da favela, mas a favela não sai da pessoa. Cada subida por aqueles degraus é como uma peregrinação, fica marcada em seus músculos, em cada fibra do seu ser. A cada vez que nos apoiamos nos muros, a descansar pela subida, chamamos a Cristo para caminhar conosco.

Assim era quando tinha de voltar todos os dias da rua para casa, tendo comido ou com fome, com ou sem emprego, de mãos vazias ou com algum pacote de comida. Assim também era quando, na ausência de ruas que permitissem aos caminhões subirem ao alto do morro, tínhamos que carregar dezenas de sacos de areia, brita, cimento acima, em troca de uma nota de dez ou vinte reais por dia.

Temos uma visão tão bela do mundo lá embaixo, mas, também, tão afastada. Por isso, descemos o morro, arrumados, para ir a algum ensaio de escola de samba. “O morro é feito de samba”, como cantavam Beth Carvalho e Alcione. O Samba tem o DNA do negro e do branco. O morro tem a marca e a alma da resistência, da bravura e do choro engolido em troca da comida, do que é essencial e inestimável.

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2 comentários em “Em busca da Alma do Morro

  1. Do jeito que você descreveu ouço o som das batidas do seu coração. E penso que é uma linda melodia, daquelas de quando a gente se debruça no colo materno e , do respirar ao compasso ritmado, a gente adormece.
    Entregue.
    Tranquilo.
    O sono vem manso; a alma do anjo é boa.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Valéria, a reconciliação com nosso passado é que nos proporciona essa perspectiva de paz, de alma lavada. Eu sou fã desse tipo de resgate com as nossas raízes.

      A alma do anjo, que é inteligência pura, talvez encontre a paz porque sua memória é sempre presente, nunca se perde. 😉

      Um abraço!

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