É justamente no fim da noite de sábado que decido escrever sobre o sábado. Estava irrequieto. O sábado tem um quê de premonição acerca da segunda-feira, pela qual passaremos aflitos durante todo o domingo. Ah, o Sábado e sua malemolência, a ressaca pela semana que se acrescentou à conta da idade, tendo nós a alma lavada pelo ritual de passagem que é a noite de sexta-feira, e isso até para aqueles que trabalham sábado.

Deus descansou de sua Criação no Sábado. Nós, no entanto, reclamamos do sábado, pois ele é único. Quando criança, ficava pensando em como seria bom que a semana só contasse com dias indo da quinta-feira ao Domingo: na quinta-feira, teríamos o cheiro do sábado; no Domingo, a lembrança do cheiro.

Sim, passamos pela semana como um carro de Fórmula 1, desviamos de todas as lojas, cansamos, nos desgastamos com as contas a chegar sem cessar, o dinheiro a voar para longe e a idade – conta mal-criada – a nos fustigar à noite. Chega-nos o tão sonhado sábado e não sabemos por que sentimos aquele estranho incômodo, uma alegria meio desconcertada. Corremos por cinco ou seis dias e, quando temos autorização para sentarmos, ficamos tontos a nos perguntar o que está errado. Sentimos falta do que nos maltrata, nos escraviza.

Queremos encontrar o sábado, mas não conseguimos aproveitar o sábado. Quão secundária não é essa rotina, a de viver! Fugir é próprio do Sábado. Curtir o sábado implica em contar o que nele se curtiu, em enfrentar a segunda-feira, a mostrar fotos do passado, ainda que recente. Não queremos que esta monitora de orfanato, chamada Segunda, chegue. (Ainda bem que não é a “primeira”). Então, não curtimos nosso libertador. Ficamos emburrados, e muito mais se não tivermos dinheiro para queimar com algumas cervejas, a desdenhar aquela mesma rotina necessária para conseguí-lo.

Fujamos da Segunda direto ao Sábado! Afinal, quem melhor poderia falar a respeito dessa inquietude do que aquele que, por pouco, conseguiu fugir do ventre de sua mãe e receber os primeiros embalos de Sábado à noite? Sim, vim ao mundo num sábado, assim, meio desconfiado, querendo voltar para a quentura da barriga, faltando apenas 45 minutos para a meia-noite.

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