O Amor como um Pacto


O que é o Amor? Ele é um sentimento, uma (ou a) Realidade, o fundamento de todas as coisas? É possível que a humanidade possa conhecer o Amor de formas tão diferentes, por tão dissonantes concepções? E se o Amor for um pacto?

Deus Caritas est!

Em grego, o versículo acima da Primeira Carta de João [1] diz-se: ὁ θεòς ἀγάπη ἐστίν (hó theos ágapi estín). Deus é Amor! Ora, segundo a concepção de um Deus Eterno, obviamente redundaríamos em sua imutabilidade. Sendo imutável, cada um de seus atributos estaria livre da noção de efemeridade ou mudanças de estado. No Universo, tudo que se relacione a Ele e ao Seu Amor, seja qual for a realidade em questão, deve, então, tender à sua plena Realização.

O Amor tende à Realização. Tudo que é feito por Amor ruma em direção do objetivo íntimo de seu impulso. E é justamente por isso que ele é símbolo do Espírito Santo, ainda mais quando nos recordamos do que disse o Senhor quando fez descer a pomba simbólica sobre Jesus: “Esse é meu Filho mui amado, em que quem me comprazo” [2].

Portanto, sendo os sentimentos e afeições humanas tão instáveis, mutáveis, e até mesmo perecíveis, nada mais natural que questionar a qualidade de sentimento aplicada ao Amor. Mas, então, o que seria o Amor? Como nos aproximaríamos de uma noção mais condizente, tendo em vista o que presenciamos e o que a nós foi revelado?

Não partirei para consultas bibliográficas, pois o intento desta postagem é desenvolver uma noção pessoal e apresentá-la à reflexão de todos os “amantes” leitores. O material aqui é pessoal, com ecos longínquos do que tenho vivido, apreendido e escutado.

Certa vez, li em um blog, em uma seção de pensamentos e lendas árabes, que o “Amor é uma decisão”. Não ama-se porque sente-se ‘amor’. Ama-se porque decide-se manter um pacto. Um acordo com você e o que o espera para ser feito. Entre você e uma missão, objetivo, necessidade. Entre você e aquele com quem você firma seu pacto, com quem (ou o que) vive sua jornada e trilha seu Caminho. São Paulo, ao fim de sua vida, disse: “Combati o Bom Combate; guardei a Fé” [3]. Amar é manter-se no Caminho acertado, é cair e levantar, tornar a cair e pedir ajuda aos “amantes” do Caminho.

Quão terrível seria o Amor se fosse comparável à Paixão, que queima rápido como palha ao vento e consome sua alma até as cinzas! Quão pobre se ele fosse oposto (portanto, não superior) ao Ódio, não passando de uma alternativa insossa para sobrevivermos neste mundo de feras! Quão menor seria a Amizade, se essa não fosse a única manifestação do Amor, realmente durável, dentre os afetos humanos!

Oxalá fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, nem frio nem quente, te vomitarei de minha boca”. [4]

O Amor não tem como oposto o Ódio, mas a Indiferença. O Amor realiza; a Indiferença é a Inércia fatal. O Ódio, por outro lado, é oposto à Amizade, e a ela conduz, se nossos ouvidos abrem-se à Graça. A Indiferença não nos leva à coisa alguma, não faz tremer o muro sobre o qual nos assentamos confortavelmente, enquanto assistimos o Mundo em chamas. O Amor te impele a escolher, e seguir atrás d’Ele [5].

É, pois, essa constância em manter nossas boas afeições, em consonância com a Verdade e no cumprimento de nosso Pacto, que nos aproximamos, vagamente, da noção de Eternidade do Altíssimo e de Seu Amor. Lembrando: o Amor do Pai é gratuito porque ele a tudo possui e em Seu Poder tudo detém. Nosso Amor não é gratuito, nem poderia ser. Não somos Deus, mas apenas seus filhos amados.

O que poderemos dar, então, em troca desse Amor? A única coisa que podemos dar a Deus é nosso “sim”, é aceitar esse Amor em gratidão. Esse é o pacto: aceitando o Amor do Pai, estaremos sendo fiéis com o Pacto que Ele firmou com Ele próprio, a saber, amar-nos. Nós somos o objeto direto da Frase de Amor de Deus. Ele é o sujeito. O complemento verbal é: ao próximo como a ti mesmo!

O Amor é, pois, um Pacto, sobre o qual nossa única expectativa deve ser a de cumprí-lo, não a de receber algo. Seja o cumprimento de uma visita, de uma peregrinação, de um encontro, de uma vida inteira ou de um prato de comida. Prometeu? Pactuou? Cumpra! Não há serenata mais poderosa do que frases tais como “cheguei”, “é só pra você”, “missão cumprida”, “estou de volta, vivo”, “sente-se e coma”.

E você, já cumpriu sua parte no Pacto de hoje? Ao menos, hoje?

***

NOTAS

[1]1 João IV, 16.

[2]Mateus III, 17.

[3] 2 Timóteo IV, 7.

[4] Apocalipse III, 15.16.

[5] Lucas IX, 23.

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7 Replies to “O Amor como um Pacto”

  1. Amor? Ah o amor!
    Maldito amor. Quando o amor é verdadeiro ele nunca se transformará em indiferença.
    O amor verdadeiro é eterno e imutável.
    Concordo que o seu contrário seja a indiferença, porém ainda que às atitudes pareçam gélidas, se o amor for real por dentro de quem o sente ele queima.

    Curtido por 1 pessoa

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