De Amaritudine (A Amargura)


Se tem uma hora em que necessitamos mais de café, essa é a hora morta, à meia-noite. Então é que a boca fica meio-amarga. Não como os chocolates, num desnível de cacau, overdose do vício. Amarga pela saliva represada, pela perplexidade, que nos impede de engolir, num medo esquisito de engasgar, de deitarmos e não acordarmos sãos e salvos.

Essa odinofagia que muitos sentem, essa taquicardia que nos assalta às horas da aurora e que nos embargam o sono dos justos é o que nos traz à baila os fantasmas de sempre. Por que não segui os conselhos maternos? O que me ajudou a ser tão estúpido na juventude? Ladeira abaixo não faltam santos alcoviteiros, zombeteiros, pomba-giras às gargalhadas. Seria eu um melhor engenheiro, médico ou detetive policial? Serviria melhor aos pobres da rua, serviria de algo a mim mesmo?

Como nos salvarmos de nós mesmos? Somos o que somos, um núcleo duro cercado de clara de ovo por todos os lados, de liquidez instável, porém que não nos modifica em nada a vida. Somos o resultado de estímulos vívidos diferentes, nada mais. Mudam-se os prantos e os pranteados, a marca do cigarro consumido à exaustão durante as madrugadas. Mas os dentes amarelados continuam os mesmos, bem como o jeito esquisito de sorrir, os olhos baixos, tão inexpressivos e preguiçosos. O núcleo duro permanece intacto, a personalidade com suas imensas crostas, a ira das lágrimas e o tremor das mãos ávidas por revide.

Essa inépcia do Ego em servir-se do resto de alma que ainda subsiste sob o imponderável de nosso Ser é o que nos permite sobreviver sem sermos pulverizados de uma só vez neste mundo terrível. Não, não o orbe terreno, mas o mundo, esse teatro armado de emoções humanas, sem destino, sem motivos. Acaso, o que sobraria de nós se nossa fornalha interior trabalhasse sem descanso, sempre mais voraz?

O que é doce acalma, mas vicia. O que é amargo, esse sentimento feito de fel, é o que nos põe em nosso devido lugar: mortais perante todos, imortais ao fecharmos os olhos e dormirmos, enfim, até amanhã ou até sempre.

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If there’s an instant we need more coffee, it’s at the dead hour, the midnight. Then mouth becomes a few bitterer. Not bitter like the black chocolates, in an upheaval of the cocoa, overdose of vices. Mouth bittered  by dammed saliva, for the perplexity, which prevents us to swallow, a strange fear of choking, of laying down and not waking up safe and sound.

This sore throat that so many feel, this tachycardia that assaults us at the hours of dawn and embargoes our fair sleep, are all what bring to the fore the ghosts of ever. Why not follow the maternal advice? What did helped me to be so stupid in youth? Downhill abound pimps saints, mocking, Pomba Gira laughingWould I be a better engineer, doctor or detective? Would I best serve the poor in the street, would I be worthy something to myself?

How to save us from ourselves? We are what we are, a hard core surrounded by egg white on all sides, unstable liquidity, but that does not change our lives in any fucking shit. We are the result of different vivid stimuli, nothing else. You shift the tears and criers, the brand of cigarette consumed up to dismay through the early morning. But eroded teeth remain the same, and the weird way of smiling, eyes downcastso expressionless and lazy. This core remains intact, the personality with its huge scabs, the wrath of tears and trembling hands eager for reckoning.

This ineptitude of the Ego to avail himself of the soul that rests under the unreachable of our Being is what allows us to survive and not even be powdered at once off this terrible world. No, not the this whole orb, but the aparente world, this fake theater of human emotions, without goals, without reasons. So, what would be left of us if our inner furnace could burn unceasingly, ever more ravenous?

What is sweet, also calms us downthough addictive. What is bitter, that feeling made of gall, really grants us our very home. Before all outside, true mortals; immortals as we close our eyes and sleep at last until next morning or even forever.

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