Não! Se me perguntarem se a Vida cansa, direi que a Vida não representa um fardo. É o Mundo que, nos aproximando mais e mais uns dos outros, torna meio carregado o ar ao nosso redor. A interação, esses entre-choques com os outros (sempre os outros), nos custam um tempo precioso para que nos estabilizemos e nos controlemos.

Entretanto, retornar ao combate diário pelo silêncio interior, necessário ao repouso da Mente e à reflexão, tornou-se tarefa quase impraticável nos dias de hoje. É no silêncio que, se alcançado em um nível mínimo, nos permitiria varrer da mente aquilo que a contamina e nos prende, tiranicamente. Nobres metas sempre estão a ceder lugar a pensamentos fortuitos, desejos prementes e necessidades imediatas. Concebemos esses pensamentos inúteis como filhos mimados a nos aporrinhar, dia a dia.

Tal é o reflexo da impaciência dos pais e mães da atualidade. Dão tanta atenção aos desejos imediatos que acabam por transferir aos filhos o mesmo tratamento pouco firme com que atendem à mente. Se um homem ou mulher não consegue educar a própria mente, na qual podemos executar limpezas períódicas, quanto menos conseguirá disciplinar filhos humanos, que são herança e encargos vitalícios! Dos filhos não nos podemos livrar nem deveríamos negligenciá-los.

Filhos crescem e voam, se tornam independentes. Assim deveria acontecer. Porém, como reflexo de nossa pouca estabilidade emocional, não conseguimos deixar de tiranizá-los nem de sermos escravos das preocupações. Mas, por que?

Interação: essa é a chave. Reagimos ao burburinho mental de tal forma com que também aos estímulos do exterior, dos seres e eventos que ocorrem ao nosso redor. Ação e reação. Eco e reverberação. Não podemos dar resolução aos problemas do mundo, embora não devamos deixar de afirmar, diante deste mesmo mundo, que nos ressentimos de sua agressividade e totalitarismos.

Interferência: eis o que deforma nossa Vida. Interferimos demais, não deixamos que as sementes que plantamos tomem vida própria e sejam curadas pela Natureza. Devemos regá-las, vigiá-las, orar por elas? Sim, e — mais ainda — esperar. Podemos estar prontos para mudar de direção e métodos? Acredito nisso, porém sem jamais esquecer o que foi, exatamente, que plantamos. Não misturemos nossos venenos aos sonhos que de nós dependem.

Interdição: por meio disso que tencionamos usurpar o lugar de Deus. No interdito da ira, do desespero, do descontrole, lançamos, por terra, noites de chuva e de estrelas em que todo lindo pomar florescera e frutificara. Maçãs vermelhas – assim as queremos. Têm de ser vermelhas, pois assim pensamos estar escrito. Todos disseram: maçãs vermelhas! — e nosso orgulho nos inflara e nos aproximara mais da imagem que fazemos do Dono da Fazenda chamada “Universo”. Surgem maçãs verdes, maçãs podres, perfuradas, pequenas, grandes. Esbravejamos: não servem! Há quem diga que sempre houvera maçãs de outros tipos. Nós, porém, solenemente, dizemos que maçãs que não sejam vermelhas não fazem parte do que nos foi ordenado produzir.

Intermitência: isto não faz parte da Verdade. Verdade é o que nunca muda. Portanto, ela não pode ser intermitente. Nós somos intermitentes. Só há uma coisa em nós, que nos perpassa, que é verdadeiro: o Espírito. O restante muda, embora não tenha fim. O corpo muda, morre, transmuta-se em nutrientes para a terra. A alma vira mera sombra volátil e, depois, dissolve-se. O que jamais morre é o Espírito. O que parece nunca ter fim é essa necessidade de nos calarmos e deixarmos que Ele, o Santo Espírito, nos renove todas as fibras de nosso ser pueril, inseguro e atrasado.

Cristo disse: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim da Era” (*). Pois, então: a “era” está acabando, o æon chega à sua conclusão de forma um pouco melancólica. Continuamos a viver de ilusões, a pensar muito pouco no que é essencial, a deixar que sejamos enganados, a dar valor mais ao peito estufado — que brada como se fora de um galo tuberculoso — do que ao pulmão pleno de vida e à mente imersa no silêncio.

Silêncio total. Místico. Silêncio anterior à Aurora, apesar dos galos, apesar das sombras, apesar de nós. É o que eu desejo para as próximas noites do resto de nossas Vidas.

—-

(*) Evangelium secundum Mattheum, XXVIII, 20.

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