Este é um tema deveras amplo para ser tratado assim, numa única postagem. Podemos, no entanto, tentar traçar algumas linhas gerais. Toda a realidade da inveja é cercada por uma viscosidade chocante, repugnante. O próprio ser tomado pela inveja se torna um barril de sebo ambulante e ele mesmo, o doente, reconhece-se como tal e busca, no fim das contas, esconder-se. Falemos sobre a Inveja, então, começando com uma citação minha:

A inveja é essa doença cancerígena da alma. Diz o doente: “Não quero o que tenho. Quero tudo que não tenho. Sou o que não sou, morram comigo! 

Pelo que posso observar, três elementos estão intimamente ligados, e em conflito constante, na manifestação da inveja:

  • baixa auto-estima;
  • complexo de superioridade ou triunfalismo, moral ou imoral;
  • ressentimentos por traumas não trabalhados.

Nas pessoas de menos posses ou em situação de carência extrema, a inveja se manifesta por delírios e desejos de riqueza. Mas, a bem da verdade, isso é absolutamente esperado, já que, sem esse sentimento exacerbado e que as pode levar a ilícitos, as pessoas se acostumariam à inconveniências e sofrimentos de sua condição. Afinal, saber-se humano, ver seus semelhantes obterem mais do que si e ver a si mesmo como um animal de carga, privado do mínimo, não é lá algo a que alguém deva se acostumar. Ainda com relação a essas pessoas, quando a inveja é horizontal (ou seja, para com outros de sua mesma condição), aí não passa de rivalidade social. Isso é ainda mais normal.

No entanto, quando, além de pobres, certas pessoas se veem com algum dote intelectual incomum entre os seus pares, acrescenta-se aí um sentimento de superioridade, como se as mesmas fossem as últimas bolachas do pacote e devessem receber certas regalias ou reverências. Veem seus pares obterem o mínimo com esforço e, não achando que devem passar pelos mesmos trabalhos, ressentem-se quando aqueles os colocam em seu devido lugar. Ou, como dizem, quando os chamam a cair na real. Para esses invejosos, o trabalho (inclusive o intelectual) é uma maldição e um sintoma de inferioridade.  Esses ressentimentos, se não trabalhados, redundam em traumas cumulativos, descambando em neuroses e violência, em não raras ocasiões.

Podemos dar um exemplo simples: quantos de nós já receberam propostas de trabalho e, quando notificado, aquele ser do canto da sala sorriu amarelo? Ele, um invejoso, jamais se contenta com o caminho convencional, com seu próprio caminho. Ele, se pudesse, possuiria sua alma para ser você, ter o que você tem, mijar em seu vaso sanitário perfumado ao lado de uma pia de mármore bem limpa. Se você faz algo certo, bem feito, se demonstra saber mais e, até mesmo, o que os outros pensam, ele tenta fazer igual, lhe odiando por não conseguir. Ainda que você faça algo ilícito, mas de forma eficiente, ele iria querer ser ainda mais bandido.

Todos os seres humanos nasceram para exercer alguma atividade. Ricos ou pobres, quando por longo tempo inativos, não apenas caem em vícios, como também adoecem, física e mentalmente. Sejam aqueles mais aptos a trabalhar com o raciocínio ou com os braços (em alguns casos, com ambos), todos devem ser ativos e ir em busca do que almejam. Jamais devem se esconder sob pretensos privilégios, desculpas esfarrapadas ou reações pseudo-moralistas. Devem agir. Sem demora. O tempo urge e ruge, muitas vezes.

 Esgotando-se as desculpas em si mesmos (doenças, medos, falta de vontade, etc.), os invejosos passam a atacar a todos os que vencem seus desafios, procurando neles defeitos, tomando a si como referência. Quando não são boas referências nem mesmo aos seus próprios olhos, os doentes de inveja tomam qualquer referência contrária àquele o qual inveja, do qual cobiça algo, sem medo de cair em contradição flagrante. Acusam-nos de hipocrisia, como se a hipocrisia não fosse, em maior ou menor grau, comum a todos os seres humanos. Ora, manifestar, ao mesmo tempo, suas faces real e ideal, sejam elas boas ou más, é algo absolutamente normal, pois as pessoas procuram sempre projetar à sua frente o que se é e o que se quer ter ou ser.

O invejoso, não conseguindo vencer a vergonha de manifestar o que realmente é e, ainda mais, escondendo o seu ideal fantasioso, fecha-se em si mesmo e forja, em sua forma patológica, os maiores delírios quanto ao que ele diz ser e o que diz que fará. Quando descoberto, tenta sustentar sua posição real com alguma arrogância, ainda que em estado deplorável, e torna seu ideal pervertido, magicamente, em ideal de virtude. Se não o consegue fazer, usa da arma mais conhecida pelos possuídos pela inveja: a covardia. Se o invejoso, quando se manifesta, é cínico (ou seja, transforma a “sarna do cão” em virtude humana), quando atocaia e se esconde daqueles aos quais ataca, demonstra a ferocidade com que busca se autodestruir e destruir outros consigo.

Resumindo: a inveja é uma doença moral que se instala na mente totalitária, fanática, racista, extremista e irremediavelmente imoral. Pode ter fundo psicopatológico ou, senão, desbancar em transtornos como estes, a neurose, a histeria ou a psicose. É supremacista, embora encarne o ideal politicamente correto. Torta, ainda que pregue valores morais. Não admite, sinceramente, a própria pequenez humana, embora tente fazer isso, de forma sempre vaga, e superestime a própria mediocridade.

Ser e ter: direito de todos. Ter com responsabilidade, ser sem anonimato: dever de todos. Isso, claro, vale para aqueles que são normais. Os invejosos verdadeiros nunca estão em estado normal, embora possam se regenerar e se integrar à sociedade humana plenamente, se ainda estiverem vivos.

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Um comentário em “De invídia (Sobre a Inveja)

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