Onde está a raiz da Alma brasileira?


Não obstante — comparável a qualquer organismo formado por partes diversas —, a alma de uma nação seja multifacetada e incrementada por múltiplas camadas e ondas humanas ao longo do tempo, podemos pressentir, residente lá no fundo de sua história, um núcleo (core, em inglês), uma semente viva a qual unge todas as almas de seus filhos, nativos ou adotados. Esta sublime presença perpassa todos aqueles que pisam no sagrado solo da nação. Andando nós sobre seus rios, bebendo diariamente de suas águas, sendo acordados por seus galos ou tiroteios, podemos, inclusive, ouvir esse estranho canto e sentir esse aroma peculiar.

Como pode-se constatar acima, é um sentimento difícil de descrever. Não pelo fato de essa terra de Santa Cruz ser de porte continental, não por isso. Também não é pelo contraste cultural que já se estende por 500 anos, o que diante da Europa representa apenas como que uma paixão de adolescentes. Talvez seja porque , pela exuberância de um ambiente natural onipotente, pródigo em Vida e de forte conteúdo bucólico, sejamos atraídos de volta àquele vigor da juventude do qual beberam todas as civilizações em seus períodos de aurora.

Basta de devaneios e divagações verborrágicas!

Quero dizer que, não obstante sua história estar contaminada, desde o início (como nos prova Gustavo Barroso), pelo germe do banditismo e da patifaria, do roubo e da exploração, da ganância banhada em sangue; ainda que soframos, hoje, com a degradação cultural previsível por termos um povo que, em sua grande parte, não recebe educação e não quer estudar, relapso, indolente, inconsequente; mesmo que o futuro deste tenha sido guilhotinado precocemente e, hoje em dia, vagueie como alma penada no olhar do idoso desanimado e da criança ranhenta, eu consigo sentir a alma pulsante dessa nação. Mas, como? Do que se trata, afinal?

Pense numa grande receita, cujos ingredientes seguem:

  • Uma Terra literalmente virgem, viva, onipresente, semiconsciente, cujas matas transpiram néctar e curam as doenças de seus filhos com seu ar salutar, tendo índios como flora e a flora como guardiã, contando com litoral paradisíaco e rios cristalinos onde os peixes pulam para dentro das canoas;
  • Novas riquezas e a riqueza das novidades;
  • Um livro em branco em que, verdadeiramente, um história diferente pode ser escrita, seja ela de defesa da liberdade, seja de recrudescimento da servidão humana;
  • Potencial de progresso virtualmente ilimitado, mesmo para vagabundos, ladrões e/ou oportunistas;
  • Sensação de rejuvenescimento advinda de uma terra sem fronteiras, sem cercas dividindo os territórios, onde as divisões se estabeleciam pelo olhar das onças, pelas enchentes e vazantes dos pantanais e pelo assovio das gentes pintadas com urucum;
  • Batuques cerimoniais, noites no tronco, festas nas senzalas, canto de chibatas a rasgar o lombo dos cativos, choro de sabiás, lama das encostas em estações de chuvas, naus açorianas pululando sonhos de vida melhor;
  • Choque de culturas curiosas umas em relação às outras, o mormaço que cozinha a pele branca, a gripe e a varicela a assombrar malocas de palha treliçada, o fogo sob as saias e a rivalidade entre as fêmeas humanas, a Inquisição instrumentalizada, o jesuitismo sincrético e lava-cérebros, Tupã e Yahweh, Nhandeara e Jesus Cristo, Nossa Senhora da Conceição e Janaína, as Yamí e as Bruxas, a imagem do Rio Parnaíba ou a de Santa Sara Khali;
  • A Carta de Pero Vaz de Caminha, as boas e más notícias, as fraudes documentais, o massacre tamoio sobre franceses no imenso túmulo da Baía da Guanabara, as insurreições judaicas, as conjurações maçônicas, as cooptações das milícias, as aves gorjeantes de Gonçalves Dias, a maquilagem de Zumbi e de Tiradentes;
  • Cortiço e as Vidas Secas, o complexo Sargento de Milicias, a prodigiosa memória de Brás Cubas, o Grande Sertão Veredas e o Guarany, a psicodélica Tarsila do Amaral, o subliminar Niemeyer, comunistas do Tempo e do Vento, os recados infantis dos pães-por-deus e as preciosas cartas de alforria, a diarreia não relatada às margens do Ipiranga e do Marechal Deororo, o golpe pseudo-abolicionista de 1889;
  • Um Rancho de Amor a uma das ilhas brasileiras, que não faz esquecer o êxtase místico experimentado ao ouvir os acordes do Brasileirinho — únicos no Universo —,  os itens da brasilidade da Aquarela, o Trem das Onze e a Saudosa Maloca de Adoniram Barbosa, Elis Regina, as Águas de Março de Tom Jobim, a Nega Tereza de Jorge Benjor, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Noel Rosa, o Carinhoso de Pixinguinha, o Menino da Porteira de Sérgio Reis, de Tonico e Tinoco.

A essa receita, por último, juntem a consciência de que a esse país, a partir de 1500, foi chegando gente que ou veio como exilada, enviada ou por desespero. O Brasil começou como o resultado da perplexidade de brancos e índios, do desespero de negros, da ganância de ricos marranos e do êxtase que essa terra causava a todos, entre suores, sangue derramado e picadas abertas pelas matas. Por essa interação é que ficamos embevecidos e podemos sentir tal emoção ao rever a Terra que era Virgem e agora é Mãe Gentil, que vê nascer a gente bronca e simples, boêmios, no subúrbio ou nos campos, intelectualoides e estelionatários.

Vou mais além e para terminar essas linhas “murmurantes”, posso confessar: já desejei voltar a todas as terras por onde meus ancestrais possam ter passado, cruzado, e onde venceram. Eu, entre esse milhões de descendentes de colonos, recebi a dádiva de visitar mentalmente todas essas bravias terras (entre castelos, campos e catedrais) para terminar aqui, nesse paraíso terrestre, “onde eu mato a minha sede e onde a Lua vem brincar”.

Esse é o Brasil brasileiro, pra mim, pra ti!

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