Acostumamo-nos a pensar sobre nossas vidas e sobre a história desse país de forma análoga, por períodos, marcos, fases, datas, etc. Seriam semelhantes aos ritos de passagem da vida de um jovem. Tal qual é nossa nação tupiniquim, um mancebo exposto a provas esdrúxulas e incompreensíveis na maloca onde vive (oh, saudosa maloca, maloca querida!), dotado de muita energia, valor e nenhum juízo.

A letra do Hino Nacional poderia nos servir de bela inspiração para esses devaneios, mas prefiro não me entranhar nas matas do desassossego e da heresia. Fico com essa perplexidade de filho do índio que, entendendo que nada é o que parece, sente-se inquieto com as batalhas que se travam pela alma e corpo desta sua terra continental.

O Brasil não foi sonhado, planejado. Foi uma cria nascida da natural ambição de poder de grupos já velhos, carcomidos pela sede de sangue e riquezas. Ocupou-se, embrenharam-se nele vermes desesperados pela ocupação das melhores gorduras da carne fresca e onde “tudo que se plantava, dava”. Sim, aqui tudo dá-se, nada se retém. Tudo cultiva-se, até ao que chamamos fé e pensamentos. E a luta pela domesticação do bruto escuro das matas, do canibal assustador das costas, continua, sob o cinismo dos que prometem o Céu e um futuro glorioso a gerações às quais nunca se lhes daria chances de vencerem a peleja pela Vida.

O Mar Atlântico, para nós desta Terra da Cruz, sempre foi o grande “passageiro”. Não, não aquele que passa, mas o que dá, realmente, a passagem. Milhões de negros foram trazidos para cá vendidos por seus próprios reis, pelos de sua cor e estirpe, dura prova! Os caciques se viram arruinados por míseras quinquilharias encomendadas por aqueles que eram os primeiros a fugir dos que “gripavam” nos navios (sabemos bem quais são!). Provas após provas, testemunhando as trapaças como modus operandi dos senhores, e nosso garoto esplêndido (o qual não se podia medir), com os olhos risonhos, não se incomodava com as doenças que herdava, com os ultrajes infames dos muquiranas e com o estelionato piedoso dos que se cobriam de preto com vergonha pela palidez da pele.

 Os ritos de passagem que as franjas das águas do Atlântico testemunharam não foram apenas duros, mas infames. Não foram, pois, somente dolosos, senão cínicos. Os assaltos que a alma do Brasil sofrera não foram mais pungentes que as lágrimas que a mesma fez surgir dos olhos dos negros libertos ao se darem conta que a República não desejava sua liberdade, mas o uso de sua ruína como forma de acumular uma massa de manobra nas cidades.

Mão-de-obra barata é o que os liberais precisavam para consumir as muambas descartáveis (assim, já naqueles tempos) que traziam da Inglaterra e dos EUA. Afinal, escravos só beneficiavam aos fazendeiros, e não consumiam, não enriqueciam o Mercado com qualquer vício por futilidades! A “inclusão social”, neste país, significa agrupar mais viciados em bobagens supérfluas. Nada mais que isso. Pobres não têm o direito de existir, no Capitalismo, se não é viciado em algo. No Socialismo, os pobres não devem sobreviver se não trabalham sob a chibata.

Antes disso, já testemunhávamos a fabricação vergonhosa e folclórica de heróis, numa apoteose patética de seres humanos que não honravam suas fezes. Bandeirantes recebiam honras por rasgarem a selva em aventuras de caça a peças “indígenas” e ouro. Senhores negros, traficantes de escravos negros, torturavam outros negros para levarem os louros como libertadores, quando não passavam de agitadores, proto-comunistas e ditadores de araque.

Um tal Tiradentes protagonizaria, em fins do séc. XVIII, uma paródia de um Cristo republicano: curava dores, teve filhos suspeitos, supostamente traído por seus “amigos”, martirizado e elevado ao Panteão dos “heróis”. O brado de sancto súbito fazia corar de inveja à “Igreja” revolucionária! Mal sabe a plateia deste Circo que quem foi martirizado foi um ladrão (não o dentista), o qual aceitou a proposta de ser esquartejado para que sua família recebesse ajuda para sobreviver, enquanto o “herói” desfilava, logo em seguida, na Assembleia Nacional Francesa, sob os augúrios de seus “irmãos” maçons. (Leia mais aqui!)

Tiradentes teria embarcado incógnito para Lisboa, após ladrão assumir sua identidade (Foto: Ilustrativa).

Aqueles que nos deveriam inspirar a imagem deveras Nobre dos “melhores” da Aristocracia eram sombras desta, ainda que não das mais escuras. Dom João VI (coitado!), foi “casado” com uma espanhola piolhenta e abriu as “pernas” de nossos portos aos ingleses, em troca da dívida da Côrte. Dom Pedro I declarou a independência não mais que de sua diarreia, desgraça seguida por Deodoro, que emitiu a ordem para proclamar a República do alto de seu leito. No fim, os pracinhas da FEB que, gloriosamente, tomaram o Monte Casino enquanto os empregados de Getúlio Vargas se divertiam em cassinos do Estado da Guanabara.

Todos os pracinhas estão ou mortos ou pobres e o Brasil continua sem saber de onde veio nem para onde deve ir. Tiradentes morreu, mas continua a ser o “cristo”, para o bem ou para o mal, quando não para a alienação republicana. Os índios continuam viciados em quinquilharias ou em cachaça, quando não protegidos dos revolucionários na santa pureza das matas. Tudo o que o “jovem” povo pensa saber foi-lhe ditado, tendo-lhe sido terminantemente vedado o direito de questionar a versão oficial da ideologia ou dos fatos que justificaram os atos teatrais desta chanchada brasileira.

No Brasil, o que é original é o que vem da terra, seja a religião ancestral, as lendas, as frutas, o mar e os rios. Tudo o mais foi importado, dos vícios às ideologias, do roubo às virtudes. Talvez, as únicas coisas realmente nobres e de valor inestimável podem ter se passado em quartos iluminados a lamparinas ou nas redes das malocas no romper das madrugadas, que viram nascer tantas crias dessa terra e testemunharam o olhar simples de quem morre próximo ao chão batido, próximo à mesma terra que lhe há de comer e beber.

Os ritos de passagem e as épocas de nossas vidas são ilusões se não sabemos o que significam. Assim é com a história do Brasil: se não a conhecemos, que bosta de povo ingênuo seremos ao reivindicar soluções para problemas cujas origens ignoramos?

Um comentário em “O Brasil e alguns de seus ritos de passagem

  1. Enfim, todos sempre viveram sem se conhecer – causa do desequilíbrio em geral. E continuam desequilibrados, porque continuam teimando em viver sem se conhecer. E o Brasil, ser vivo, abençoado, nada tem a ver com essa teimosia que, diga-se de passagem, não é privilégio do Brasil, caso contrário o resto do mundo estaria em equilíbrio. Abraços, Júlio, você realmente nasceu para escrever. E o faz muito bem!

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