As imagens desbotadas que ainda conseguem iluminar a lente de minha Memória se assemelham àquelas dos sonhos mais queridos. Parece que, quanto mais nos afastamos do tempo de nossa infância, mais nítida fica a impressão de que aquela é a Realidade, de fato, enquanto flutuamos em algum mar do exílio, em meio a certa viagem que sabemos não ter volta.

Por quantas vezes, estando longe de nosso lar, sentimos essa estranha sensação de deslocamento, essa nostalgia que nos chama de volta aos nossos objetos, à areia que se levanta das ruas onde vivemos e ao padrão de luz que perpassa a vidraça de nossas janelas pela manhã? Muitas vezes, certamente!

Eu, deveras, sinto essa saudade incurável, não mera melancolia inconformada, mas aquele complexo conjunto de lembranças, sensações, cheiros e gostos que me tornaram naquilo que sou hoje, um menino “crescido” que estudava em livros de papel, comia polenta cozida em fogão à lenha e escutava minha avó, de terço em mãos, cantar a ave-maria que rodava na Rádio Guarujá AM, todos os dias, às dezoito horas.

Sim, incurável. A falta que aqueles tempos me fazem formou uma cicatriz indelével. Não há local mais doce à memória do que aquele em que descobrimos os porquês e as restrições da Vida, em que nos assentamos no meio-fio, impassível ao ruído de carros que passam, para ver o por-do-sol, quietos e sem dizer palavra. Vêm aos meus ouvidos, como numa manifestação de vidência, o som de minha respiração ofegante pelas vezes em que pedalava em torno do quarteirão da casa de minha mãe, aos fins de tarde, tentando bater meu próprio recorde ao cronômetro por falta de alguém com que brincar.

Aqueles tempos me parecem quase lendas ou fantasias hoje em dia. Naqueles tempos, éramos felizes e nos tornávamos exatamente no que quiséssemos, numa inocência perdida. Ou será que é hoje que nos vemos sem direção? Há 25 anos atrás, para dirigir um ônibus, nos bastavam cadeiras enfileiradas na sala e uma tampa de panela. Para achar bananas assadas, não íamos a supermercados, mas ao forno à lenha. Guerras só conhecíamos aquelas de travesseiros ou de ovos com farinha na saída da escola, no último dia de aula do ano. Para fazermos uma ditadura, íamos aos formigueiros e reprimíamos a tentativa de expansão dos exércitos da rainha Formiga. Se eu quisesse um jogo de futebol, com ou sem companhia de colegas, poderia, inclusive, usar um frasco vazio de vinagre, uma conga velha e os vários postes de varais de roupa.

É esse gigantesco teatro de Vida que lembramos como nossa terra. Estamos tão intimamente ligados a ele que, literalmente, somos personagens dançando, de um lado para o outro, como bonecos com uma vaga lembrança de nossa vida passada. Festejávamos com os ônibus antigos, a cada nova versão e modelo, pelo maior “conforto” e rapidez. Suas janelas perfaziam nossos slides. Nosso cinema era o da Vida real, era sonhar em ser como aquele cara da esquina de mãos dadas com a moça solteira.

Nosso ser, encapsulado em uma miniatura subdesenvolvida, aquele da infância, entra em efervescência, apressando a idade adulta. Hoje, nosso ser adulto tenta retardar esse processo em direção a uma infância que não é como a anterior, mas na qual as imagens ficarão, sim, novamente desbotadas e, surpreendentemente, longínquas e desconexas, sem sentido.

A maturidade seria, verdadeiramente, feliz se, enquanto dispuséssemos das responsabilidades dos adultos, ela nos trouxesse doses diárias de memórias mais vivas, em um cenário atual menos ingrato ao passado, e muitos, muitos amigos-crianças de volta ao campinho de futebol, aos bailes de carnaval das crianças, ao portão de saída da escola e de nossas vidas.

3 comentários em “Saudade incurável em nosso Ser

  1. Todos nós viajamos com suas lembranças de infância. Particularmente eu o imaginei em cada detalhe narrado. Também tenho minhas lembranças, época muito boa porém com suas dificuldades. Porém, sem sombra de dúvidas, eu era muito mais feliz!

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  2. Muito bonito este texto, fiquei emocionada, pq vc descreveu suas lembranças de maneira tão bonita que viajei vendo sua vida, vendo a minha, e assim é para todos. Li, parei um pouco, pensei na minha vida, na minha infancia, continuei lendo e depois pensei que, com certeza, eu poderia escrever um livro somente de minha infancia. Muito doce e alegra.

    bjs

    Curtido por 1 pessoa

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