Nesta postagem, tentarei expor minha visão sobre o que vem a ser Deus, o Bem, o Mal e suas implicações diversas na percepção humana. Obviamente, o tema merece um ensaio próprio. Mas, penso que, por ora, este texto será suficiente para tecermos algumas considerações importantes. Antes de tudo, quero esclarecer que não pretendo discutir noções teológicas concretas, mas tão-somente lidar com conceitos abstratos, embora estes necessitem, sempre que possível, ser expostos à luz da experiência humana.

***

Sobre Deus

Certa vez, um padre ocultista disse que “um Deus definido é um Deus finito”[1]. Definindo-se Deus, ele cai por si só, é destronado e negado como tal. Obviamente, o artigo indefinido “um” dá a entender que o autor da frase se referia ao objeto de cada uma das definições acerca de “Deus”, não ao Deus incognoscível. Ora, e quem conhece Aquele que não se pode conhecer? Acaso, por uma tal “revelação” d’Aquele, é possível que os cegos venham a ver e entender o que é a Luz? Tenho minhas dúvidas.

Diziam, antigamente, que Deus é o summum bonum, o Bem Supremo [2]. Ora, o Bem Supremo está sobre outras classes de bens e, por isso, não seria único. Seria Deus o Bem Supremo? Ainda não me satisfaço com essa frase, embora creia que Deus seja Bom. Para aferir se Deus é, realmente, Bom, precisaríamos ter certeza que sabemos o que é o Bem. E então: o que é o Bem?

Em latim, bonum, além de siginificar “Bem” no sentido moral, é também tudo aquilo que se adquire. O Bem é uma posse, aquilo que se recebe de outrem ou por meio de outrem. O que se tem, seja obtido por dívida ou por saldo, é um bem. Tudo aquilo que se possui é um bem, favoreça-nos ou não. Alguém nos dá, nós o recebemos. Seja lá o que for, tudo o que ocorre é um “bem” que recebemos.

Continuemos…

Sobre o Bem e o Mal

Nós, seres humanos, costumamos nomear como algo bom aquilo que nos traz alegria e prazer, enquanto que mau é o que nos traz tristeza e dor. Em suma, o que nos é favorável é bom e o que nos desfavorece é ruim. Essa é uma visão subjetiva da realidade do Bem. Logo, se Deus é Bom e Único, todos deveriam crer unanimemente que algumas coisas são boas e outras más. Não é o que acontece. Se Deus contiver o Todo, então Deus deve estar acima das concepções pessoais acerca do Bem e do Mal. Então, acaso, Deus não seria nem bom nem mau? Sim, Deus não seria humanamente bom nem mau.

Outra palavra ligada a Deus é Sabedoria. Saber está acima de conhecer. Conhecer é ter a experiência das coisas através dos sentidos. Saber é conter, em nossa Inteligência, as causas do que experimentamos e deduzir seus efeitos. Isso, a nível pessoal, equivale a dizer de onde viemos e para onde vamos, o que somos e o que devemos vir a ser. É ser auto-consciente.

Três atributos são dados à Divindade: onisciência, onipresença e onipotência. Saber o que pode ser sabido, estar onde pode-se estar e poder agir onde é possível agir. Se, para Deus, nada é impossível e Deus é Bom, todas as possibilidades de eventos representam o Bem. Quer dizer que tudo é bom? Não, quer dizer que o que é necessário ocorrer é bom e o que excede o necessário representa o mal, o descarte, o lixo, o que deve ser rejeitado. Satanás, não raramente, é representado como o enjeitado, o exilado. Tal é o significado do nome Belial, ou seja, inútil, vagabundo, que não presta para nada.

Em poucas palavras: o Bem é o que é emergente, o que é necessário, o que não se pode conter ou obstaculizar. O Bem é aquilo que nos faz conhecer a nós mesmos e os “deuses”, ou seja, a Criação de Deus em suas múltiplas facetas. O Bem é o que desponta na Noite Escura da Alma [3] como aquilo que procuramos sem saber o que é. Ora, se ainda não conhecemos, não sabemos o que é. Conhecemos quando apreendemos com os sentidos e com a mente.

Por isso, “o Reino de Deus é como o Noivo”[4] que vem verificar se suas noivas estão com suas lâmpadas plenas de óleo. Tudo o que nos acontece deve nos encontrar preparados para apreender o que se nos quer mostrar, não como mera apreensão de dados sem sentido, mas de Vida consentida, sentida e ressentida em milhões de impressões interiores. Daí que o júbilo não é mais importante que a dor, ou vice-versa. A alegria e a dor são passageiros, pois que meios para  conhecimento da Realidade e não devem ser os objetos de nossas ambições. Aquele que se prende na perseguição do próprio sofrimento não é mais doente e escravo do que aquele que doa sua vida pela alegria. Todas as algemas geram decepções e desespero. Não devemos permitir que o prazer, a dor e todas as outras comoções nos detenham.

Consequentemente, o Mal é tudo o que excede o necessário. O que excede, pesa; o que pesa, prende. O que prende, obstrui. Nisso consiste o Mal, e não na perversidade. A perversidade persiste em se manifestar por que a virtude também se manifesta. A perversidade é emergente, e não pode ser detida, é sintoma da ignorância e da cegueira humanas, seja dos que habitam sobre a Terra, no ar ou sob a Crosta. Ela é emergente e servirá para que nos conheçamos e aceitemos o que precisa ocorrer em nossas vidas.

As doenças também não são ruins, mas apenas efeitos de causas prévias, naturais ou artificiais. O Mal reside na negação do óbvio, rejeição da Realidade, nos vícios, no apego, no desespero, na soberba. Se perseguimos o que nos machuca, ao invés de praticarmos as virtudes, como reclamaremos, depois, do triunfo dos que nos querem ferir? Como, então, pleitearemos o fim da perversidade se não praticamos, positivamente, o seu contrário?

***

Deus é a Primeira Causa, é a semente que contém a Árvore inteira em si, tão pequeno e invisível como grande e inabarcável. Por isso, Ele promove todas as coisas à existência, tendo criado o joio e o trigo, reunindo, em uma só poção o veneno que mata e o remédio que salva. Dele saem Lúcifer (o portador da Luz) e Samael (aquele que é cego). O cego vê; aquele vê, fica cego. Dele sai o Cristo que unge e o Messias que pisoteia os povos, o buraco-negro que é o núcleo, o centro e fim de toda galáxia.

Deus não é uma pessoa, mas a Primeira Ideia emergente. Vãs são as mentes que pensam Deus ser uma dessas entidades adoradas na Terra, por essas primitivas crianças, e que faria o que se lhes pedisse por simples “bondade”. O Bem não pode ser detido, é todo a Potência de ser o que se deve ser, desde toda a Eternidade.

***

NOTAS:

[1] Abade Alphonse-Louis Constant, conhecido mundialmente por Eliphas Levi, um dos mais famosos ocultistas do séc. XIX. A citação pode ser encontrada em seu livro A Ciência dos Espíritos, 1ª parte, Introdução, onde lê-se textualmente: “Mas um Deus definido é necessariamente um Deus finito, e todas as religiões pretensamente reveladas de uma maneira positiva e particular desabam logo que a razão as toca; não há senão uma religião, e Vítor Hugo disse bem quando bradou: Protesto em nome da religião contra todas as religiões. Se Deus tivesse autorizado somente Moisés, não teria permitido Jesus. Se tivesse autorizado somente Jesus, não teria permitido Maomé. Não pode aí haver senão uma lei divina, mas há, nesse baixo mundo, uma multidão de juízes e uma grande multidão de advogados que tentam rebater incessantemente, apesar de seus perpétuos desabamentos, a Babel das contradições humanas“. Disponível em < http://goo.gl/XpKaJP >. Acesso em 24 de abril de 2015.

[2] AGOSTINHO DE HIPPONA, Santo. De Natura Boni, I, 42: 55.

[3] Ou La Noche Oscura del Alma, poema (e tratado, como comentário ao poema) de autoria do místico espanhol Juan de La Cruz (João da Cruz, santo católico), escrito no séc. XVI. Leia mais em artigo relacionado na Wikipedia: < http://goo.gl/Lu8lKD >. Acessado em 24 de abril de 2015.

[4] Bíblia Sagrada. Evangelho segundo Mateus, 25, 1-12.

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10 comentários em “O que (ou quem) é Deus?

  1. BRILHANTE TEXTO, MANO! E A CONCLUSÃO COMPROVA O SEU AMADURECIMENTO, QUE ME TRAZ UMA GRANDE ALEGRIA: “Bem não pode ser detido, é todo a Potência de ser o que se deve ser, desde toda a Eternidade.” PARABÉNS! É DAÍ PARA FRENTE E PARA ALTO! SUA ELEVAÇÃO É UMA PROVA INQUESTIONÁVEL QUE O MUNDO ETÁ CAMINHANDO PARA MELHOR, PORQUE SOMOS “UM”. LOUVADA SEJA A VERDADE!

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  2. “Doenças não são ruins, mas apenas efeitos de causas prévias, naturais ou artificiais”.
    Da mesma forma que o predadorismo é uma máxima entre os seres que vemos a olho nu, é também entre àqueles que nos exigem os microscópios. Vírus e bactérias surgiram e precisam matar para sobreviver. Independente do tamanho do predador, ele causa dor e sofrimento às suas vítimas. Não é apenas uma carnificina e particularmente quanto a ação de vírus e bactérias na vida do ser humano, são elas causadoras da mutilação ou interrupção de sonhos e planos e a incapacitação para qualquer outro plano por meio da morte.
    O que dizer também de outras causas naturais como os terríveis terremotos que causam grande destruição e mortes sem nenhum tipo de distinção. Muitos acreditam que é uma espécie de “punição ou aviso divino” e acham natural que seja dado a quem ainda está no ventre materno, tenha 1, 5, 10 ou 90 anos, com o mesmo rigor. Some-se a isso, as tsunamis, vulcões, tufões e outras intempéries. Não havendo como associar esse cenário à figura de uma divindade desprovida de psicopatias, me parece que é irrefutável a constatação de que não há piloto na nave Terra e como qualquer outro planetoide podemos, inclusive ser alvejados a qualquer momento por um corpo celeste de grandes e fatais dimensões.

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    1. O erro dos religiosos é fazer de seu deus local (antropomórfico, criado às suas imagens e semelhanças) a Mente Suprema que criou a Lei Universal. E o erro dos ateus é crer que só existe essa possibilidade quando se fala em “Criação” e, que portanto, não sendo ela razoável, não possa existir a Ordem.

      Ora, religiosos creem na Ordem advinda de um deus antropomórfico. Os ateus, ao invés de buscarem uma solução mais elevada, chafurdam na lama da ignorância, diferindo daqueles apenas no extremo que se encontram. Ambos, no mesmo lamaçal.

      A presença de leis e Ordem praticamente afirma que há uma força mantenedora da Ordem. A Ordem pode surgir do Caos, e vice-versa, como alternância de fases, e isso pressupõe uma origem, uma precedência que não nos compete atingir. Atingir o entendimento do que é Eterno exige sair do que é transitório. Por isso, alegoricamente, para conhecer Deus você precisa deixar de existir. Logo, ambas as possibilidade se anulam mutuamente e cada uma a seu turno.

      Você liga a psicopatia à concepção humana de Deus, não aos próprios homens. Esquece que a Perfeição da Ordem, por seus efeitos, é prova pujante de que há uma Inteligência que garante a Ordem no Universo.

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      1. Bem vindo ao lamaçal da ignorância com seu ponto de vista. Aliás, qualquer um que comentar será bem vindo. O que quer que pensemos ou façamos, será oriundo da utilização de nossos sentidos e consequente interpretação. Assim sendo, é absolutamente saudável que se exercite a observação, experimentação e emissão de juízo. A isto dá-se o nome de evolução. Radical ou não, concluo que a tosca figura da divindade bíblica é uma ofensa a lógica humana. Embora não se possa negar a existência de uma certa ordem no que conhecemos até agora sobre o universo, valendo-me das ferramentas que tenho, considero que há imperfeições latentes. Em 1994 um cometa se chocou contra Jupiter e lá abriu uma cratera, onde segundo cálculos; caberia 10 (dez) de nosso planeta. Se tivesse desviado um pouquinho sua trajetória…, não estaríamos aqui interagindo. Mesmo não tendo sido alvejado por ele; caracteriza-se um enorme desperdício de energia e somado a outros eventos registrados, que podem ser aleatórios ou até mesmo integrantes de uma trajetória regular que desconhecemos, mostra que estar no espaço implica em ser um alvo em um estande de tiros. O universo ou deus, ou até mesmo ambos, requerem um ponto de origem embrionária. Essa premissa torna mais provável a existência do universo a partir do big bang ou algo equivalente, posto que isso apenas deflagrou um processo de evolução sem precedentes. O mesmo não se poderia ( ou pode-se?) dizer de deus, tendo em vista que o concebem originalmente complexo. E mesmo na limitação de pensar, como entender um ser que já veio com todo o conhecimento existente?
        Observando uma parte daquilo que se sabe sobre o universo, sua história, funcionamento e projeções, me soa mais racional, imaginar um universo a partir de um big bang e que de alguma forma gerou involuntariamente, uma existência inicial e primitiva que evoluiu (como tudo o mais no universo), se desenvolveu exponencialmente e passou a criar. Este processo pode ter se repetido e ter dado origem a outros destes seres. Estes podem ter seguido rumos diferentes, evoluído diferentemente uns dos outros, com experiências e percepções diferentes. Podemos ser fruto de experiências de um deles, ou de uma união entre alguns deles. Podemos ter sido abandonados em algum momento, naturalmente não com a forma atual que temos, mas de maneira a ter interagido com situações e contextos que acabaram por originar nossos antepassados. É possível que, por conta disso, este(s) ser(es) nem tenha(m) consciência plena de nossa existência, podendo estar a “zilhões” de anoz-luz de distância em sua trajetória criativa. O fato é que não se evidencia a presença de alguma força condutora, portadora da bondade ou da maldade, moralidade e propósito na existência de nosso sistema solar. Deus e Diabo são apenas sinônimos que o homem atribui para a realização ou a frustração de suas aspirações.

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      2. Você não considera o ante quam do Big Bang. O que havia antes do Big Bang? Uma singularidade? O que gerou a singularidade antes da singularidade?

        Quando falo “Deus”, jamais me refiro ao deus antropomórfico dos judeus ou sei de que povo for. Mesmo os africanos são mais sábios, ao conceber suas divindades mais de acordo com forças naturais, residindo seus mitos como parábolas.

        Não, não há acasos, tudo está matematicamente programado, inclusive os “desvios padrões”. Você não considera a prevalência da “Vontade” sobre a Inteligência, e dessa sobre a Natureza através da Ordem. Seja como for, há um Ordem, e essa Ordem (Lei) foi criada por algo Racional.

        Obrigado por me receber no lamaçal da ignorância. Não é todo dia que podemos descer tão baixo. Na verdade, nunca desci tão baixo…

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      3. Parece que não fostes capaz de perceber que o que chamo de “lamaçal da ignorância” é o habitat natural e inevitável de todos (TODOS) os que estão no caminho da evolução. Nada nos diferencia, a não ser o tempo que permanecemos dormentes e de joelhos.
        “Nunca ter descido tão baixo” é uma afirmação típica de quem se eleva sem ter sido elevado. Não me atreveria a tal, todavia estamos por aí para evoluir.

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      4. Eu entendi sim, é disso que eu estava falando. Descer e subir, metáforas e resultado de impressões subjetivas. Minha referência não é você nem qualquer outra pessoa. Agora você foi o arrogante e pretensioso. Realmente, nunca desci tão baixo quanto onde estou agora e de onde ainda não pretendo sair. E, se não saio, é por vontade própria, por não achar que eu tenha esgotado todo o meu desejo nesse “lamaçal”.

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