Florianópolis, 24 de maio de 2015.

Ao Sr. Joaquim Barbosa,

Outrora Ministro e Presidente do Supremo Tribunal Federal.

Brasília, DF.

Caro Sr. Joaquim Barbosa:

Eu, como cidadão brasileiro que busca estar minimamente informado e interagir através da internet ainda livre (mas, sem mais qualquer privacidade), acompanho o que o senhor e outras pessoas conhecidas falam nas redes sociais, blogs e outros veículos da mídia corporativa. Tento buscar os fatos em suas fontes e opiniões sobre as quais possa basear meu julgamento. Em vão. Confesso que me entristece, sobretudo, constatar como o povo é ingenuamente otimista. Explico.

Há meses atrás, boa parte do eleitorado, desesperado ou idiotizado pelo quadro de insanidade social e eleitoral, aclamava ora o senhor mesmo, ora o General Augusto Heleno Pereira ou o deputado Jair Bolsonaro (PP/RJ) como seu novo candidato dos “sonhos” à Presidência da República. Obviamente, o fazia por conta dos valores conservadores e/ou moralmente exemplares que os senhores supracitados pareciam exaltar.

Não é minha intenção aqui colocar em questão ou macular, de forma alguma, a sua honra, muito menos inquirí-lo. Afinal, quem sou eu para fazer isso? Se não me é lícito, no entanto, desferir acusações, me dou o direito de questionar suas declarações públicas. E o que me garante essa prerrogativa? Bem, o senhor é Mestre em Direito, o senhor bem sabe…

Aliás, o senhor, tendo sido Ministro do STF, sabe bem mais do que a maioria dos brasileiros acerca de muitas coisas. Muitas delas devem ter corrido (ou correm e continuarão a correr) em segredo de justiça, mesmo quando há indícios claros para colocar  muita gente na cadeia, faça-se o que quiser para tentar impedir que a luz do Sol passe ao interior desta caverna medonha. Sem desconsiderar as condições necessárias aos flagrantes, mas sem negligenciar, também, o teor da imoralidade do(s) delito(s) ou de séries deles, o que ofusca a necessidade de flagrantes.

Mas, o que me incomoda mais é pressentir um certo cinismo em alocuções e justificativas a toque de caixa, dadas para certas cenas chocantes, nas quais tenta-se defender o indefensável, escusar o que é nauseabundo por natureza. O deboche, é isso que nos machuca e enfraquece. A chacota implícita em certos desvarios semânticos, malabarismos surreais dos discursos. Em sua vasta experiência na Suprema Corte, creio que o senhor esteja habituado às teatralidades da cena jurídica e verborrágica.

Quando lembro da defesa que o senhor fez da nomeação do Prof. Luiz Edson Fachin para o cargo de ministro da Suprema Corte, externo minha crítica a ela sem paixão ideológica alguma, já que considero essa “guerrinha” (da Esquerda Caviar contra a Direita Canhota) como mera paródia tupiniquim da disputa entre jacobinos e girondinos para decidir como destruir a nação. Será pelas massas esfomeadas ou pela drenagem de nossas riquezas pelos bancos? Ou seja: são todos atores desse teatro politicalheiro, como diria nosso saudoso Rui Barbosa. Entretanto, simbolicamente, considero escandaloso que um senhor, como esse tal Prof. Fachin, tão imiscuído na atuação política de petistas e socialdemocratas, seja considerado idôneo e neutro para participar do Ministério da Suprema Corte.

O senhor, recentemente, deu a entender, em declaração no Twitter, que não se espanta que juízes sejam nomeados por parlamentares (ou tenham suas nomeações por estes aprovadas, o que dá no mesmo), complementando que isso seria um desastre para o Brasil. Ora, o que esperar de duas classes de brasileiros que têm total liberdade de, sem qualquer comedimento, aumentar seus próprios salários? Que valor pode ter suas críticas ao PT et caterva se foram eles mesmos que lhe nomearam?

Não é porque os fatos apontados pelo senhor são verossímeis que todas as outras incongruências institucionais (as quais eu chamaria de “sementes de orgias”), como que por um passe de mágica, seriam esquecidas. O que sinto ao ver o que acontece com as classes política e togada é que, de repente, parece que os cargos tomam conta do âmago do nomeado. Sim, é como se os espectros lascivos das Bacantes se arrojassem sobre políticos e magistrados e estes esquecessem totalmente o que significam bom senso e noção de reta Consciência. Juízes, praticamente, intocáveis; presidentes e ex-presidentes da República inatingíveis; deputados e senadores que, sem ter a quem responder por quatro anos, lançam a leilão seus votos no Congresso e contrariam a Vontade do Povo em matérias que vão da anistia pelo estupro à Lei da Responsabilidade Fiscal até a abertura das fronteiras estrangeiras às tropas de nações “amigas” (Venezuela, Cuba, etc.).

O senhor e todos os supostos “ex-pobres” (que saíram da vida humilde para o sucesso) são verdadeiramente humanos. Humanos, sim, com todos os agravantes que a condição humana prevê para o senhor, para mim e para todos aqueles nos quais, ingenuamente, o povo põe sua esperança.

Muitos dos “intelectuais” brasileiros criticam os religiosos por sempre precisarem de um deus ao qual culparem ou pedicharem. E qual o diferencial que os senhores nos apresentam? Se vos acusamos, como são punidos? Se em vós confiamos, quantos minutos passaríamos sem que nos decepcionássemos com as vossas condutas? Se apelamos a vós, acaso, não seria mais provável que fôssemos atendidos pela ossada de algum dos Césares romanos? A quais dos brasileiros realmente ouvis? Alguma vez o senhor já se questionou se esses privilégios concedidos a magistrados e políticos eleitos (e aposentados) são chancelados pela Vontade do Povo?

Justiça, Verdade, democracia? Onde?

Diante das orgias diárias celebradas em todas as cortes, cemitérios administrativos e casas de pregão legislativo, temos que fazer força não apenas para não chorar, mas para não enlouquecer. Constitui verdadeiro castigo ler e ouvir palavras vazias que, se contém algum indício de verossimilhança, estão desconectadas do restante da realidade e revelam incoerências extraordinárias, como as que citei mais acima.

Ao senhor, digo que tenho alguma esperança, talvez vã, de que leia esta carta e, se o fizer, que o tenha feito até aqui, concluída num epílogo insatisfeito, aflito, inquieto. Essa, sim, é a única esperança que nutro nesse momento.

Respeitosamente,

Júlio César Coelho.

Anúncios

8 comentários em “Carta aberta a Joaquim Barbosa

    1. Boa tarde, Hélcio!

      Obrigado pelo incentivo, mas acho que faltou citar algumas coisas. No entanto, como não tô afim (ainda) de conseguir sofrer um processo, eu me contive. Creio que não faltarão oportunidades. A novela “Terra do Cu-Brasil” ainda não terminou. Qualquer semelhança com a realidade será devido à mera falta de Rivotril. 😀

      Um abraço!

      Curtir

  1. Olá Julio!! Parabéns pelo excelente texto, suas palavras traduzem o sentimento de todos nós que temos o mínimo de consciência ética, política e moral.

    Curtir

  2. ola amigo, sou mais um brasileiro que cheguei aos 56 anos com pouco grau de escolarideda porem, observando comportamentos e modo de pensar de uma gente que tem esperanças. porem, guando ouvimos discursos com linguajar tão bem elaborados e difices da grande população entender, ficamos a mercer de politicos desonesto. O povo precisa de alguem que desperte no povo a esperança, por isso compartilhei a carta aberta. quero de uma forma passar a frete tudo que
    eu puder transmitir a todos para que o Brasil seja livre,…..ou ficar a patria amada ou escravo no Brasil!……

    Curtir

    1. Boa noite, Edson!

      Me solidarizo com seu destino, que deve ser o mesmo da grande maioria de nós. Isso se eu mesmo chegar ao patamar de experiência que você (ainda vivo).

      O que eu posso dizer a você? Posso dizer que, das duas alternativas do fim de seu comentário, creio que as duas ocorrerão. Ficaremos aqui mesmo, sem termos para onde fugir, escravos do Amor à Pátria e das botas dos inimigos. Por quais motivos? Bem, isso aí já demanda muitas e muitas postagens de discussão…

      Um abraço fraterno,

      Júlio. 😀

      Curtir

Escreva abaixo seu comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s