Meu último leito


Não nos damos conta, mas morremos, de certa forma, ao fim de todas as noites. Vinte e quatro horas de um ciclo que parece, por vezes, não ter fim. Cansamos do dia, cansamos da vida que levamos. A vida pesa; corpo e mente sofrem. A Natureza vem e nos concede um recover para os membros, para os olhos. Dormimos. Milhões de vidas celulares repousam, alguns para acordar no dia seguintes e outros para dar lugar às novas vidas.

Assim é a dança das cadeiras e dos leitos da Vida. Quando fechar meus olhos pela última vez nesta terra de feras (como diria Augusto dos Anjos), não quero me preocupar com a casa que deixei ou com o choro dos que me amam. Quero cerrar as pálpebras pela manhã, quando o Sol estiver ainda em ângulo agudo no Céu, erguendo-se sem pressa e dando seu último estímulo de luz aos meus nervos ópticos.

Ideal seria, para manter minha vaidade bem contida na coleira, que uma simples alma me acompanhasse nessa hora e gozasse do frescor da brisa campestre, ao cair da tarde de Outono ao qual tanto aspiro; que deitasse comigo sobre uma esteira de grama verde, entre milifólios e dentes-de-leão, a contar aqueles paraquedas minúsculos que, lentamente, dariam o tom de meu último sono. Ao fundo, uma alta montanha apontando para um local no Alto que representa apenas sonho, um mito que amamos enquanto ainda não o tenhamos alcançado. Eis a Filosofia da Vida, a consumação de um amor e o fim do drama terrestre.

Wallpaper Portador da Promessa 2015 Transcendência

Paraíso: calma em saber-se dormindo, a salvo. Paz: sonho lúcido da alma sem impedimentos e sem ânsias. Sono: ausência do “nada”, plenitude de Luz. A passagem sem traumas fisicos ou mentais é dádiva para poucos, sejam ricos ou pobres, seja para a gente simplória ou erudita. Não precisamos ficar a especular tanto por tal “mito”, transformado em drama, tal qual é o que chamam de morte. Afinal, para mim, a Morte não existe. Apenas a Vida após a Vida. Novidade após o sono.

Ao fim, caro sonâmbulo, prestemos atenção ao anjo que nos sussurra, enquanto adormecemos:

As fades and flows
This so bright sunshine,
The whisperin’ wind blows
On our flowerin’ bed, so fine.

Like a marine in a sole boat
Which sails upon your skin,
A little piece of your soul floats
Toward a river never seen.

(Ebrael Shaddai, 19 de junho de 2015, 01:30.)

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