Existem três maneiras pelas quais as pessoas, individual ou coletivamente, podem ter seu comportamento modificado: pela evolução natural, pela alienação e/ou pela Violência. Esta última, em maior ou menor grau, está inserida parcialmente nos dois primeiros processos. Costumo me referir à Violência, quando não voluntária, como Trauma. Trauma é uma lesão ou dano qualquer que causa modificação na estrutura e/ou funcionamento da mente e/ou do corpo físico.

Por modificação via evolução natural entendo os processos de tentativa e erro (aprendizagem e assimilação) e os processos degenerativos naturais (ou seja, as doenças físicas ou mentais). Ambos os tipos de processos envolvem alterações na percepção sensorial e, portanto, no comportamento que se norteia pela mesma. Um resfriado, por exemplo, diminui a capacidade respiratória e, assim, a oxigenação do sangue e do cérebro, a capacidade de auto-expressão e a percepção sensorial (tal como nos estados febris).

A alienação é o processo pelo qual as faculdades reflexivas são drasticamente diminuídas, seja por doenças neurológicas ou perturbações mentais, seja por renúncia voluntária ao exercício da liberdade de Consciência. No âmbito das perturbações mentais, quase sempre é disparada por conflitos internos ou resultante de Violência ou traumas sofridos. Muitas vezes, o cérebro mesmo, para reduzir o grau do sofrimento psicossomático, reduz as atividades sensorial, motora, fisiológica e cognitiva.

Por fim, temos a Violência, a qual tem sido largamente utilizada pelas elites e alguns grupos humanos como meio de persuasão de seus adversários ou subordinados, alternativa eficiente à doutrinação ou inculturação. Fundamenta-se nos efeitos que o Medo, o Terror e o sofrimento alheio podem exercer sobre a capacidade de julgamento e decisão dos seres humanos.

De alguma forma, as torturas, agressões físicas e morais, ações terroristas, chacinas e outras cenas chocantes imprimem suas imagens não apenas no fundo da mente do espectador, mas também de todo o seu corpo. Com as recentes teorias acerca da “memória celular” [1], todo conteúdo mentalmente processado se transfere a todas as células do corpo humano, provocando as chamadas somatizações dos traumas.

Um exemplo bem clássico são as ligações afetivas inexplicáveis que surgem entre agressor e agredido [2]. Não raro, podemos nos reportar a casos em que, mesmo abominando o estupro, mulheres estupradas passam, subitamente, a relatar incontrolável desejo de serem novamente estupradas, senão pelos mesmos estupradores, por outros quaisquer [3]. Também podemos citar aqueles homossexuais que alegam ter começado a sentir impulsos desordenados após terem sido abusados sexualmente quando crianças ou adolescentes. Ao menos, nesses casos, podemos relacionar a Violência da pedofilia com a distonia homossexual entre corpo e libido.

A Violência ocorre por uma ou mais dentre três opções: um pedido imoral, uma ameaça brutal e/ou uma promessa falsa. Sejam seus efeitos: assédio moral, assédio físico e humilhação. A Violência tem apenas um objetivo: a obtenção de Poder absoluto sobre o(s) outro(s). A submissão do agredido ao agressor é fundamental para que a vítima pare de ser castigada, seja mental ou fisicamente, enquanto que o contrário acontece com o estado moral, que degenera à medida que mais e mais concessões são feitas.

O resultado final é um dano permanente à personalidade e/ou corpo da vítima, de modo a transformá-la numa escrava. Simples assim. Morra ou não, o agressor quer um escravo, ainda que precise matá-lo. Se não o mata, o violentador, imprimindo sua imagem no corpo e mente da vítima, faz com que seu ser passe a fazer parte da própria constituição celular da vítima. É como um invasor, um vírus, envolto na escuridão das entranhas do corpo e da mente de seu hospedeiro.

Isso é tanto mais brutal e de rápidos resultados quando esse processo de transformação pela Violência incide sobre toda uma coletividade. Quando o grupo rebelde do gladiador Spartacus foi, finalmente, derrotado pelas Legiões Romanas de Crasso, este mandou crucificar seis mil rebeldes na Via Ápia, estrada romana que liga Cápua a Roma, na Itália [4]. Como escravos poderiam resistir ou obstar qualquer ordem de gente que não hesitaria em te pregar num poste de madeira e te deixar apodrecendo ali, até que, de você, sobrasse apenas ossos?

O pior terror é aquele que não se sabe de onde ou de quem esperar. É o caso das máfias, elites psicopáticas e satânicas que esquartejam crianças em rituais de sangue ou emparedam pessoas em construções de prédios para que estes recebam o beneplácito das Trevas. O que poderíamos esperar de políticos que dizem combater o Terrorismo, mas financiam, abertamente grupos terroristas? Estão a nos mandar um recado claro: “Ou sejam nossos escravos vivos aqui, no Ocidente, ou sejam decapitados pelos que treinamos no Oriente! Aceitem nosso Império ou vejam só nas mãos de quem vocês cairão!”

***

NOTAS:

[1] Em 2002, a revista científica Journal of Near-Death Studies publicou uma pesquisa extensiva realizada pelo neuroimunologista Paul Pearsall sobre o assunto. Pearsall havia entrevistado cerca de 150 receptores que haviam passado por transplantes de coração ou de pulmão e afirmou que as células vivas do tecido do órgão transplantado tinham a capacidade de memória (Vide: Changes in Heart Transplant Recipients That Parallel the Personalities of Their Donors • Paul Pearsall, Ph.D., Gary E. R. Schwartz, Ph.D., & Linda G. S. Russek, Ph.D. In “Journal of Near-Death Studies”, vol. 20, nº 3, 2002.).

[2] Essas ligações afetivas ou passionais são típicas de casos de Síndrome de Estocolmo.

[3] Vê-se que este tipo desejo é desordenado e originado por trauma porque, se a pulsão sexual não for desperta para a cópula, o será para a morte (suicídio). Há inúmeros relatos na literatura psiquiátrica e de ficção sobre esses casos. Seria um estado psicológico que englobaria características da Síndrome de Estocolmo e da de Oslo, em que a vítima passa a querer prolongar o sentimento que lhe originou o trauma, e o retroalimenta, além de as ocorrências encontrarem correspondência (culpa ou merecimento) na própria vítima.

[4] Apiano. Guerras Civis, I, 120. Disponível em < http://www.livius.org/so-st/spartacus/spartacus_t02.html >. Acessado em 11 de julho de 2015.

2 comentários em “Sobre o poder e o uso da Violência

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