Ah, Abrolhos! Se eu pudesse, iria-me embora para Abrolhos. Manuel Bandeira me desculparia, tenho certeza. Abrolhos: terra baixa, pobre em vegetais e superpovoada de ratos e aranhas, em cuja feitura os anjos do Céu a reservaram para os brasileiros sem eira nem beira. Ou melhor, que fossem órfãos da Esperança.

Estou certo de que, se pudessem, nos mandariam todos para Abrolhos, a viver em alguns de seus descampados sem cobertura e a lamuriar por um Brasil que jamais parou de nos doer nos calcanhares. Sim, o Brasil de hoje não passa de um maldito olho-de-peixe sobre o joanete do pé esquerdo.

Mas, ora, rapariga, se não me enviassem como prisioneiro para Abrolhos, lá mandaria eu construir um perfeito manicômio de segurança mínima, na rota de alguma família de tubarões sem gravata. Meus conterrâneos de Palhoça, decerto, não devem pensar que para lá eu degredaria o Tavinho, coitado! Este, vez por outra, apedrejava ônibus sem saber que nele não havia um deputado sequer. Longe de mim!

O minúsculo arquipélago de Abrolhos, que mais parece um retalho do Oceano pontilhado por acne, evoca uma realidade árida, selvagem e incompreensível, tal qual a solidão do músico às seis da manhã, sentado ao meio-fio. Parece-me um grupo de ilhas prisioneiras que fugiram da escravidão na Bahia e ressurgiram, assim, no meio do nada.

O crepúsculo — não importa se da manhã ou da tarde — sempre é enigmático em locais como esse. Um atobá, um lagarto, uma aranha. Em locais assim, uma porção considerável de eremitas gostaria de se entranhar. Também configura-se ali um dos melhores locais do mundo para se mandar certos sujeitinhos tomarem nos abrolhos.

Sim, sinhô — disse o Zé da Praia. Zé não descartava um pinga de melado, amarela como o ouro. Quando comecei a falar, ele bateu com o “martelinho” na calçada da orla, sacudiu a areia das havaianas e prestou atenção, sério que só ele.

Quando eu lhe disse onde ficava Abrolhos, ele riu-se de mim. “Mas, óia, seu Júlio, donde que u’ ômi ia querê di si metê pruns lado dêssi?”, perguntou o Zé, com aquele beiço irrigado de aguardente. Eu já estava cansado de vagar pela noite de São José, sem dinheiro para comprar sequer uma dose de limãozinho, quis tirar onda com a cara dele.

— Zé, oh Zé, em terra de cego, quem tem um olho é rei. Quem tem dois olhos é o que?

— Ah, sei lá, guri besta!

— Abrolhos, Zé, Abrolhos.

Inocentemente, o Zé da Praia, para proteger seus abrolhos, encostou-se no poste de iluminação. Afinal, havia se lembrado da maldição que o tempo havia lançado sobre os bebuns (aquela que diz que os abrolhos de bêbado não têm dono). A luz, subitamente, se apagou. O Zé assustou-se. O Sol tinha aberto seus olhos. Eu ri, uma vez mais, pois havia amanhecido também em Abrolhos.

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