Tempos de fúria


Se antes, como seres confusos, já tínhamos imensas dificuldades para compreender nossos próprios sentimentos, hoje em dia essa tarefa se mostra ainda mais sofrível. A tecnologia era lenta e nossos deveres eram duros, mas tínhamos algum tempo para refletirmos e nos exercitarmos. Com as cidades atuais abarrotadas de gente violenta, carros rápidos, barulhos constantes, deveres mais urgentes, nem o pouco tempo que tínhamos para pensar temos mais. O que anda errado?

Passamos de seres sensíveis a entidades reativas. O processo de sensação-assimilação-resposta se limitou a sensação-reação. Nossas respostas aos estímulos não passam de reações irrefletidas. Quando pensamos querer algo, isso não se configura mais como algo novo, mas como reflexo a um hábito de massa. Como a vida anda tão globalizada, até nossos sentimentos estão massificados.

Tempos de fúria, esses! De nós, são exigidas respostas, adaptações, recadastramentos, adequações, atualizações. Seguimos o comportamento dos demais sem refletirmos sobre a legitimidade das exigências da sociedade. Tudo em tempo recorde. A tecnologia quer pensar por nós, fazer tudo por todos.

O dinheiro não tem mais valor. Sendo assim, ele é dispensável, devendo ser substituído por dinheiro de plástico ou, até mesmo, virtual. O valor das coisas não é nem mesmo subjetivo, muito menos pode ser aferido por outros bens físicos. Simples: não temos mais nada. Não possuímos nem mais o direito à Vida, podendo nós não acordarmos se algum médico resolver usar de caridade e desligar os aparelhos de sustentação à Vida, ao lado de nosso leito de UTI.

Paz para quê, se temos de trabalhar mais e, sendo “desapegados”, renunciar ao dinheiro fictício que os bancos fabricam a partir do nada? Logo, também, nossa faculdade racional será dispensável à Elite e nosso direito à Liberdade de Consciência será uma vaga lembrança das eras em que esse planeta era habitado por seres humanos. Parodiando Zé Ramalho, eu poderia cantar:

“Ei, ô, ô, vida de gado, povo chipado e povo feliz!”

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5 comentários em “Tempos de fúria

  1. É o término de uma fase que está em liquidação para, enfim, adentrarmos na racionalidade que sempre foi falada, porém, nunca existiu, caso contrário seríamos hoje um mundo em total equilíbrio. Falta muito ainda à humanidade para saber o verdadeiro significado da palavra RACIONAL, que certamente, jamais poderia ser encontrado no dicionário dos pensadores, que confundem o pensamento concreto com raciocínio, que absurdamente, por falta conhecimento verdadeiro da vida, referem-se a uma pessoa racional, quando se trata de uma pessoa totalmente irracional, fria de sentimentos, calculista, onde a humanidade, o amor, a fraternidade e a paz são praticamente inexistentes. Mas, felizmente tudo isso está por pouco para ter o seu final, porque a Natureza não está de brincadeira. Diria:
    “Povo chipado, povo enganado, tarde demais saberá o quanto é infeliz!” Abraços, Júlio!

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