O Apocalipse da Miséria


Dizem as sempre vivas bocas esquizofrênicas que a Humanidade está à beira de transformações profundas, como em “dores de parto”. Ora, estamos a presenciar dores de parto ou prisão de ventre? Sim, esse tal Apocalipse parece que nunca começa. Só faz barulho, mas sair algo desse buraco, que seria bom, não sai coisa alguma.

Placas tectônicas dançam, alucinadamente, sobre o ovo líquido do planeta e a humanidade, se presta alguma atenção, é por alguns minutos apenas. Impressiona-se mais com os defeitos especiais das mídias de gado do que, propriamente, com a dor dos órfãos amontoados, sem eira nem beira, sobre os escombros de terremotos. Não se passam dez minutos, e as tensões se voltam para os fones de ouvido dos telefones celulares, feitos para durarem até o fim da próxima viagem de metrô.

A criatura humana é, realmente, solidária? Sim! Mas, na maioria das vezes, essa “solidariedade” é mais evidente quando o barraco do vizinho ameaça desabar sobre o seu próprio. Aí, até os ateus começam a ensaiar mandingas para o Zé Pelintra. Padres menos castos voltam a memorizar os ritos de exéquias, largam as amantes e se protegem contra o azar, ingenuamente, sob suas estolas.

Vivo me perguntando por que diabos as pessoas se preocupam tanto com o Apocalipse e menos com o propósito moral que ele inspira. Há como que uma incômoda aspiração à catástrofe na mente das massas, quase um desejo pela própria morte. Lembro-me da Martha Suplicy e seu mantra: “Relaxe e goze”. É como se o povo fosse um pessoa de reputação duvidosa que, mesmo parecendo não desejar ser morta, não conseguisse parar de pensar que vai morrer por causa de seus crimes. Hoje, amanhã. Passou 2012, e ainda hoje continua com medo de morrer. Ainda assim, com medo de morrer, relaxa e goza.

O que consigo perceber é que todos nós sofremos hoje de síndrome do pânico em surtos homeopáticos. A mente humana está, definitivamente, empobrecida, na miséria. Estamos doentes e nosso nível de ansiedade atual é indício disso. Afinal, viver como se hoje fosse o último dia (como aqueles que largam empregos, se abarrotam de dívidas, tomam banho em bacias de gelo, etc.) não é querer continuar a viver. É renunciar a todo o cabedal de evolução de milênios em favor de um surto de infantilidade. O que acontece? Vivemos como se não houvesse amanhã e, então, o amanhã vem. Assim, Papai Noel e o Coelho da Páscoa desistiriam de se manifestar aos adultos.

A humanidade cansou de brincar de gente grande, de fingir que corre atrás do próprio aperfeiçoamento. Os bípedes humanos estão cansados de ter que andar eretos. Querem correr livres pelos campos, comer capim até os olhos arregalarem e arrotar alfafa com água de açude. Qual o caminho mais curto, qual o atalho para se livrarem do ajuste de contas que as vidas de cada um lhes impõe? O estado de exceção, a Lei Marcial, o Apocalipse, a transformação trágica do Mundo, como se esperassem que alguém deles sentisse pena. Magicamente, Jesus viria sobre uma nuvem de algodão cintilante, sugaria todos os crentes e fiéis e os colocaria na primeira classe de sua igreja-dirigível, fashion total flex (estão certos que Jesus sempre tem uma carta na manga da túnica).

De um lado, estão uns retardados que pensam poder carregar o Mundo sobre os ombros. De outro, safados que jogam o Mundo sobre os ombros dos retardados. Responsabilidade? Ora, que responsabilidade, que nada! Se Deus é justo, não haverá Apocalipse retumbante. Se Deus é justo — e creio, sinceramente, que Ele o é —, o tal Fim acabará sem nem mesmo ter começado. Virá, literalmente, como ladrão. Silencioso, tinhoso, como na Atlântida. E a Terra descansará de suas dores de parto. Ou de sua prisão de ventre.

Abaixo, uma música antiga, um heavy metal, cuja letra é bastante profética nesse sentido. Meu amigo da Miséria é o protótipo do ser humano contemporâneo. Ou deixará, logo, de sê-lo.

My Friend of Misery (Metallica)

You just stood there screaming
Fearing no one was listening to you
They say the empty can rattles the most
The sound of your own voice must soothe you
Hearing only what you want to hear
And knowing only what you’ve heard
You, you’re smothered in tragedy
And you’re out to save the world

Misery
You insist that the weight of the world
Should be on your shoulders
Misery
There’s much more to life than what you see
My friend of misery

You still stood there screaming
No one caring about these words you tell
My friend, before your voice is gone
One man’s fun is another’s hell
These times are sent to try men’s souls
But something’s wrong with all you see
You, you’ll take it on all yourself
Remember, misery loves company

Misery
You insist that the weight of the world
Should be on your shoulders
Misery
There’s much more to life than what you see
My friend of misery

You just stood there screaming
My friend of misery

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4 comentários

  1. Júlio simplesmente sensacional! Faz bem ouvir verdades!
    Realmente a humanidade cansou de brincar de gente, porque nunca foi gente. E o resquício ínfimo RACIONAL que vem sendo conduzido por sua parte animal está prestes a escorrer pelos ralos da infantilidade profunda, que faz a humanidade se “achar”, sendo que na verdade ela ainda nem SE CONHECE.
    Quem contempla o mal é porque com ele se identifica. Quem com ele se identifica continua FETO a vida inteira, não cresce, não evolui, não abre os olhos. Mantêm-se acomodado no útero da ignorância, por querer somente o VENHA A NÓS, e o VOSSO REINO: nada!
    Daí tanta identificação com a desgraça, hoje em dia, tanta identificação com o horror, com a tristeza, com a corrupção em geral. E por isso já nos adverte o RACIONAL SUPERIOR, o RACIOCÍNIO SUPREMO: “O ser humano é um vago BICHO sem destino, que nasceu em cima desta terra sem saber porque e para que.” Ainda: “O ser humano é o parasita mais monstruoso que existe sobre a terra, em razão dos crimes hediondos que pratica contra as leis naturais.”
    O Apocalipse foi mal interpretado e alterado de má fé. O verdadeiro enfatiza a libertação do ser humano, um fim apoteótico de união e concórdia universal.
    Mas, o bicho só se sente por cima dos por cima e vencedor, quando subjuga seus semelhantes e se torna de todos “senhor”. E assim vai atropelando e mudando tudo ao seu bel prazer, de acordo com seus interesses inconfessáveis, para que se torne o “detentor da verdade”, o melhor de todos e o dono da boiada, manejando-a como se dela fosse dono, e passando por cima de DEUS e da Natureza. É asqueroso!
    Estamos no fim dessa balofestia, onde tudo é balofo, onde tudo é mentira. E de tão velho que é esse vergonhoso presépio, PROVOCOU MOFOS TERRÍVEIS que se agigantam, rompendo as frestas e não podendo evitar serem vistos e a exalar o seu mal cheiro insuportável, que é a essência fétida de todos que renegaram as leis naturais de paz, amor, fraternidade e concórdia universal.
    PARABÉNS, meu Irmão! Brilhando cada vez mais! Tamo junto! Abração!

    Curtido por 1 pessoa

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