A Tempestade


Você está vivendo numa boa, como se tudo fosse sombra e água fresca. Você trabalha, sai sempre com seu terno alinhado (ou não), vai com seu carro pela marginal da rodovia, sem pressa. Você não tem pressa. Afinal, tudo, aparentemente, vai bem.

O contrário, também é possível. Você pode estar desempregado neste momento, há alguns meses ou há mais de um ano. Faz biscate para pagar luz, água e aquela TV de plasma que você conseguiu no leilão da Receita, a preço de fim de feira.

Aí, de repente, o tempo muda. Aquele calendário de açougue do ano passado, pregado na parede, se agita violentamente e te dá um sinal. Os tempos estão mudando. O problema é que você já se acostumou à rede sob as palmeiras ou com a lata de lixo como prato de refeição. Sim, o que vem-nos à frente é uma baita tempestade!

Nesse caso, se você se enquadra, mais ou menos, na primeira hipótese, a água fresca fica salobra, a sombra se estende até a madrugada, com a energia cortada por conta de atrasos com a Companhia. Sua rede é arrancada da parede, te mostrando que tudo deve mudar. Se os mudos podem vir a falar, por que você não poderia mudar?

A tempestade se aproxima assustadoramente. Suas roupas estão no varal e suas janelas totalmente abertas, despreocupadamente. Aquela salva de pingos-bomba de chuva alvejam sua testa, te lembrando que sua mulher o deixou, que a pensão alimentícia de seu filho não foi paga porque você torrou a grana em festins particulares e que você já sacou a última parcela do seguro-desemprego. “Tem alguém vivo aí dentro?”  — perguntam, em uníssono, os pingos de chuva em saraivada. O homem esbraveja e profere alguns impropérios.

No outro lado da cidade, um agricultor, que não mais plantava por não ter como não conseguir saldar os empréstimos bancários, está agora fazendo biscates e catando materiais recicláveis para comprar, ao menos,  o pão de cada dia. Os raios da tempestade o surpreendem de forma violenta, explodindo o transformador e, misteriosamente, clareando a mente daquele homem atormentado de dores. A mulher o suporta, embora não viva sem ele. O cachorro o suporta, embora não viva longe de seus pés. Os vizinhos não o suportam, embora dele conservem medo.

4792868258_44683248e4_b-1Sobre sua roça particular, medindo pouco mais de dois hectares, chove durante uma noite inteira. Pela manhã, um girassol, que passara despercebido durante toda sua Vida, desabrocha e olha para o Sol. Como num passe de mágica, todo aquele capinzal seco e desolado transforma-se em uma tela de tons verdes e dourados, sob as lágrimas extasiantes da alvorada.

Poderá o sortudo resistir à queda? Conseguirá o lavrador resistir à sua vocação e aprender a dura lição? Lições duras as desses dois:

  1. Não há nada eterno, nem permanente;
  2. O Sol nasce para todos, ricos e pobres, lobos e ovelhas.

Para o primeiro bon-vivant, a tempestade foi um aviso e um professor; para o lavrador, a salvação e a Esperança; para o Girassol, um convite para fertilizar essa minha terra; para mim, a soberana força da Vida, que tudo anima e que nos traz o Amor.

Mas, a tempestade se amaina. Todos se impressionam com o poder da mudança que a tempestade lhes traz. O preguiçoso se sente aliviado. O lavrador olha agradecido para o horizonte. O Girassol segue o curso do Sol. Mas, ainda assim, a tempestade deixa saudades. Nosso lombo quer sentir o açoite daquela saraivada de água. Nosso rosto não aceita que o cheiro de chuva se vá. O Coração persegue, à distância, aquela nuvem-mãe, aquele vento em rodopio, o tal do redemoinho que nos arrebata.

Apenas para constar nos registros por aí.

29 de abril de 2016.

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