Não é fácil falar sobre as emoções profundas despertadas por essas duas instâncias da natureza humana, essa mesma que é capaz de nutrir, a uma vez, o ódio e a compaixão, a cobiça e o desapego. Não é fácil, eu disse —, mas não impraticável.

Já discorri muitas vezes sobre o Amor neste espaço público1, aberto à curiosidade dos Buscadores de si mesmos, tais como eu. O Amor não pode ser sentido, ele deve ser vivido. Não é um sentimento, mas uma decisão pela qual o amante resolve incorporar em si todas as essências humanas que dele mostrem necessidade. Essa é a minha acepção preliminar a respeito do Amor.

Numa segunda fase de reflexão, posso dizer ser a Amizade um Amor humano sem o concurso da necessidade fisiológica e/ou procriativa do sexo. Ou seja, os amigos costumam vincular-se por laços de afinidade e convergência de objetivos. Não rara, também, é a aproximação de pessoas à Amizade dos acidentes da Vida, aos quais chamam, comumente, de Destino. Os casais tornam-se amigos, os amigos podem tornar-se em casais. Mas, decerto que, ao fim da viagem que é a Vida, a Amizade mostra-se como a mais refinada das instâncias das relações humanas.

Uma obra que me influenciou deveras durante minhas reflexões sobre o Amor e a Amizade foi A Insustentável Leveza do Ser, do escritor checo Milán Kundera2. Nela, seu autor mostra o contraste entre as metáforas do peso e da leveza, representantes das figuras da liberdade e do comprometimento. Por uma visão pessoal, interpreto suas ideias na obra como que comparando o Amor e a Amizade à necessidade de um sentido para a Vida de cada um de nós, resultando num “peso” que nos traz ao centro de gravidade de nosso Ser e à limitação de nossa liberdade de sonhar.

Uma pessoa de minha mais alta estima sempre afirmava que “não há Amor verdadeiro, senão o materno”. Essa afirmativa sempre pareceu-me temerária ou, ao menos, discutível. Porém, os anos passaram e hoje considero que, secundariamente, tal assertiva pode ter um fundo de verdade. Mais adiante, explicarei o motivo.

As palavras Amor e Amizade vêm-nos do latim (amor e amicitia, respectivamente)3. Naquela época clássica, elas se referiam, por sua vez, ao amor carnal e à Amizade pura. O sentido que damos ao Amor, em sentido comum, era expresso pela palavra dilectio, que denota “cuidado, preferência, zelo, escolha”. Assim, uma pessoa diligens era aquela que cuidava de uma outra de forma prioritária e a punha acima de todas as suas outras prioridades. Por outro lado, a pessoa dilecta era o alvo daquele cuidado extremado e devotado. A mulher dilecta era a “amada”.

Voltando à busca pelos sentidos das palavras Amor e Amizade, encontramos a palavra hebraica ama (ou ema), que significa “mãe”4. A mãe vive sempre essa renúncia de sua liberdade em favor do cuidado daqueles que ela carregou em seu ventre, em seu colo e que ajudou a fazer amadurecer. A mãe não é aquela, apenas que concede o direito de nascer aos seres humanos, mas a primeira e maior amiga que um ser humano pode ter ao seu redor. Ela dá “à Luz” uma criança, mas também mostra o caminho à mesma, primeiro o caminho ao alimento e, depois, ensina-lhe a refletir a Luz do entendimento.

Enquanto o Pai é a “pedra” (do latim, pater e petra) na qual se apoiam a mãe e sua cria, a mãe transporta a Luz em si, pois só ela é capaz de reter o que é vivo e cuidar do que é inefável, enquanto o homem cuida de manter o que é vivo e o que é inefável a salvo dos perigos da Morte prematura (ou assim deveria ser, sempre).

O Amor e a Amizade são, por isso, extensões dos instintos materno e paterno, residentes em cada um de nós. Somos convocados a ser pais e mães uns dos outros, enquanto somos já irmãos por nossas habilidades e imperfeições. No entanto, sendo pais e mães uns dos outros é que poderemos dar bons exemplos aos “irmãos” (que moram em nós mesmos) de como perpetuarmos nossa herança sobre a Terra.

Há outro aspecto importante na abordagem de Kundera sobre nosso presente tema: a relatividade do valor da Liberdade. Ser ou não ser leve? – pergunta Tomas, o protagonista da obra de Kundera5. A compaixão, típica das mães, retirava dele a Liberdade que o Amor supostamente lhe traria. O Amor é grave. E só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa6. O Amor não nos liberta das cadeias da Morte ou das ilusões, mas nos dá um sentido novo para essa passagem terrena, tão despida de sentido aos ávidos olhos humanos. A pergunta é óbvia: Liberdade, para quê?

Cegos guiando outros cegos7 – era como Jesus se referia aos fariseus de sua época. Acaso, as regras, os costumes, os compromissos férreos nos levam à consecução do Amor? Pode ser que não, mas cegos, tais quais todos somos, são mantidos juntos em sua cegueira. Não tendo sequer um olho para nos fazermos reis e rainhas nesta Terra de cegos, uma cova rasa, se bem preparada, é um bom abrigo se conhecemos aqueles que nos guiam. Não é a Luz que nos cega, mas nós mesmos que arrancamos nossos olhos cegos. Entre a Liberdade das ondas revoltas e a Pedra imóvel do centro da Ilha, há algo inalcançável aos nossos olhos, a justa medida entre o que é firme e o que é improvável.

“Decifra-me ou te devoro”, dizia a Esfinge a Édipo, de forma insidiosa. Insidiosa, sim, pois que decifrar o enigma da Esfinge significava ser devorado pelo choque da resposta. Se seremos devorados, de qualquer forma, pela Vida em sua fome, nos arrojamos à leveza. No fim, nada fará sentido, pois o que valerá é o que sentimos e do que cuidamos, na certeza que aquilo de cuidamos será devorado.

***

NOTAS

1 Vide os ensaios: a) Sobre a Superioridade do Amor, < http://wp.me/pwUpj-2Dl >; O Amor como um Pacto, < http://wp.me/pwUpj-2aH >; De transitu Vitæ (A Passagem da Vida), < http://wp.me/pwUpj-23f >.

2 A Insustentável Leveza do Ser. Milan Kundera, França, 1979. (Primeira edição brasileira: trad. Teresa B. C. Fonseca, Nova Fronteira, 1983.). Ler mais: < https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Insustentável_Leveza_do_Ser >.

3 Amizade: Origem da palavra Amizade. Dicionário Etimológico. Ler mais: < http://www.dicionarioetimologico.com.br/amizade/ >.

4 “Mãe”, em hebraico: Google Tradutor. Confira: < https://goo.gl/l5YDP2 >.

5 op. cit.

6 op. cit.

7 Vide Bíblia: Mt 15,14; Lc 6,39.

2 comentários em “Ensaio sobre o Amor e a Amizade

  1. Salve (ou Ave), Querido Irmão! Todos seus trabalhos são de excelência, mas, este foi muito além: AMOR verdadeiro, a essência feminina do DIVINO, imprescindível na manutenção do natural, que é a eternidade. É o que extraí e resumo do seu belíssimo texto! Você vai de bem para melhor – e sucessivamente. Gratíssima e forte abraço!

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