Castelos de areia


As imagens não são permanentes. Elas são como vapores trabalhados pela mente. Porém, essa noção é desconcertante. Estamos aqui, encarnados no Mundo, buscando edificar imagens permanentes (projeções) para descobrir, enfim, que elas se desfazem. No mínimo, poderíamos dizer que são frágeis como dentes-de-leão. O vento favorece sua formação, dá-lhe o toque delicado e, enfim, sacrifica sua imagem, desfolheando-os.

Nossa experiência no Mundo é uma contradição, portanto. Remamos de costas para a correnteza, alegremente (ou não). A melhor imagem para descrever nossa vida na Terra é a de um castelo de areia na praia. A única coisa que levamos daqui é a arte de como construir castelos de areia e de como vê-los, de forma neutra, a espraiarem-se. Tudo acaba onde começou. Mas, onde tudo começa e acaba?

***

O termo “imagem” é o real significado da palavra ídolo 1. Um ídolo é uma imagem construída na mente de alguém, que pode nortear a vida do mesmo. Pode ser herdada por outras pessoas sob sua influência ou inoculada nas mentes destas como um vírus. A mente e a alma (sedes, respectivamente, das ideias e emoções) projetam na personalidade a luz mental e a luz astral, trazendo um tipo (forma) ao Mundo físico, materializando-o. É assim que uma ideia, tal como um vírus, cresce a ponto de manifestar a realidade no contexto humano coletivo 2.

Claro, os ídolos não podem ser imputados todos como maus, mas podem tomar conta da mente daquele que os “vê”, obtendo, através da energia pessoal deste, sua vida própria, por um tempo mais ou menos longo. Não, o conceito de ídolo, como vemos nas terminologias religiosas, não se restringe às figuras semidivinas cultuadas nos templos. Ídolo é toda imagem elaborada e cultivada na mente com a força das emoções mais vivas de nossas personalidades. Inclusive, e principalmente, de nossos corações 3.

Pois, são como castelos de areia, acalentados no Coração amante, idealista e obstinado. O desejo é o cavalo; a mente, seu cocheiro. A maioria dos desejos é xucra, mas nada justifica a indiferença com que seus cocheiros os negligenciam. O ídolo é um guia, o mapa para um ideal. Ideias nascem, crescem, morrem ou são arrebatadas para a sublime apoteose desse nosso Coração. Cumpridas ou não, são belas e terríveis, tais quais furacões itinerantes.

É, deveras, triste quando furacões se vão, não obstante o medo que imprimem em nossos “cocheiros” a caminho de lugar algum. Quando o cocheiro dorme, o alarido e os gritos do Coração o acordam e lhe lembram que o mesmo é vivo, não obstante sua paradoxal transitoriedade. A Vida é um desejo pela eternidade impossível, uma imagem contraditória, um ídolo paradoxal. A Vida é um sonho dentro de outro sonho 4 e habita nossos castelos de areia. Como construir estradas entre esses nossos castelos?

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NOTAS

1 Em um artigo de referência sobre o ídolo, no último parágrafo, temos uma ótima descrição da função psicológica do mesmo na vida humana. Leia mais: Wikipedia, < https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Ddolo >.

2 Cit.: Uma ideia é como um vírus. Resistente e altamente contagioso. A menor semente de uma ideia pode crescer para definir ou destruir você. As menores ideias, um simples pensamento que pode mudar tudo.(Cobb, personagem interpretado por Leonardo di Capprio, no filme A Origem, Legendary Pictures, 2010).

3 O ídolo, em tais acepções, se aproxima bastante do conceito teosófico a respeito das formas-pensamento. Para saber mais: Wikipedia, < https://pt.wikipedia.org/wiki/Forma-pensamento >.

4 Sonho dentro de um sonho: título de um célebre poema do escritor norte-americano Edgar Allan Poe, a saber, A Dream Within A Dream, publicado, originalmente, em 1849. Leia a reprodução, na íntegra, deste poema em Ebrael, < https://ebrael.wordpress.com/2010/12/20/sonho-dentro-de-um-sonho/ >.

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2 Replies to “Castelos de areia”

  1. Muito bom texto! Enfim, o universo em que habitamos é um castelo de areia, por estar fora do seu verdadeiro natural e, por isso, é transitório, em constantes transformações, até alcançar o antes do SER. E o apego a tudo que está passando e se transformando, é que traz a agonia e todos os sofrimentos. É preciso que todos passem a conhecer a verdade que, com certeza, não poderia jamais existir na transitoriedade. Abraços, Mano!

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