Curioso é escutar algumas vozes supostamente iluminadas dizerem ao jovem de nosso tempo: “Torne-se no que você é”. Se tal silogismo não viesse a reboque da tsunami midiática que inunda nossas mentes, e que a todos busca conduzir como gado, ele seria de alguma valia, ao menos para um exercício de lógica.

Porém, lógica é que menos importa, hoje em dia. As pessoas levam a Vida como se ela fosse um trem desgovernado, cujos passageiros devessem fruir, a qualquer custo, o que suas fantasias lhes ordenassem sob pena de não aproveitarem bem a “viagem”.

Como o jovem tornar-se-á no que é, se ele não sabe o que é?

Na verdade, pouco sabe ele do que trata o verbo “ser”. Essência? Já sei: é aquele “negócio” como que se faz os perfumes. Não, não é disso que falamos, obviamente. Essência é a qualidade do elemento que é capaz de ser, ou seja, de manifestar-se, ativa ou passivamente, no Universo que nos cerca. Logo, se o jovem precisa “tornar-se no que é”, ele é algo que outras pessoas pretendem que ele deixe de ser, ou então tais pessoas querem-no transformar em alguma coisa que ele não deveria ser.

Claro como a neve: a frase “torne-se no que você é” clama à perversão (ou degradação), visto que pretende-se uma ação posterior baseada numa condição ignorada pelo sujeito (ou, ao menos, mal compreendida). Um chamado enganoso, uma insídia.

Tendo me estendido nas preliminares (acredite, eu gosto de preliminares!), continuo a pensar, ainda, em como as pessoas vulgares (comuns, do vulgo) conclamam outras a viverem uma vida mais “natural”, frugal, de acordo com a “verdadeira” condição humana. Não preciso lembrar que esse é um dos objetivos da cultura comunista, a saber, reduzir as massas a um mingau de gente desprovida de qualquer coisa que distinga um ser humano de outro. Todos iguais, sim, mais uns mais iguais que outros (juízes aposentados sabem do que estou falando).

Mas, como assim, viver de forma “natural”? Sim, elas acham normal salvar um ovo de tartaruga e defender o “direito” da mãe de matar seu filho na barriga. Acaso, vê-se como regra o aborto na Natureza ou a defesa encarniçada das mães das vidas de seus filhotes? É “natural” chorar por um cachorro atropelado e devorar dezenas de quilogramas de cadáveres (de bois, galinhas, porcos, etc.) só porque não se viu tais vítimas sendo torturadas?

Sim, somos intrinsecamente hipócritas, mas não porque sejamos todos fingidos, e sim por nossa incapacidade de levar uma meta de melhoria além do primeiro dia, do primeiro prato de comida ou do décimo vídeo educativo nas mídias sociais. Difícil mesmo é escutarmos, sem torcermos o nariz, um morador de rua jogar nossas vergonhas em nossas caras justamente porque ele desceu ao fundo do poço e agora é livre, sem pesos desnecessários que as máscaras nos impingem.

Somos fracos, sim, mas podemos, enquanto vivermos, ser menos fracos, mais fortes. Basta que não nos deixemos sucumbir sob rótulos midiáticos, certezas convenientes, desculpas esfarrapadas ou pelas dificuldades remarmos contra a corrente. Precisamos mesmo tratar essa nossa síndrome desgraçada de maria-vai-com-as-outras, nosso comportamento de bando acovardado e começarmos a custosa tarefa, em primeiro lugar, à grande descoberta do que é ser.

Olhe para o que você é, concretamente. Você não é apenas que você pensa ser, mas também o que a Natureza determinou, pois nossos corpos influenciam nossas mentes tanto quanto o inverso. Mudamos sim, o tempo todo, também porque nossos corpos mudam-se e degradam-se, tornando nossos pensamentos mais cinzentos e nossa postura mais conservadora. Assim, caminha a humanidade. Ou deveria, pois é uma instrução genética.

Viva a Vida como se fosse uma viagem, mas tal qual bom passageiro. Quer ficar trepado na janela? Fique. Quer preparar chá sobre um fogareiro aceso dentro da cabine? Faça-o! Mas, não pule do trem. Sossegue o Coração e vá até o fim. Não perverta o que é óbvio apenas baseado(a) no que está escrito na propaganda da Estação. Suporte a dor de avançar, sem voltas, rumo a uma terra absolutamente desconhecida e sem garantias.

Mas, não, não pule do trem!

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2 comentários em “O Trem da Vida

  1. SE CONHECER para conhecer a Natureza. É mesmo por aÍ! Aí vai começar a perceber o grande atraso em relação a si mesmo (à Natureza), já que a Natureza mudou seu procedimento faz tempo, mas, por a maioria estar divorciada dela (cada qual de si mesmo), está vivendo, sem notar, artificialmente, ou seja, desligado de si mesmo e, por isso, NÃO SE CONHECE.
    Daí o reboliço no mundo, onde a incompreensão e a infelicidade passaram a ser guias de todos.
    O assunto é muito sério! A maioria acordará tarde demais!
    Mas, fazer o que? A vontade é livre. O respeito ao livre arbítrio não deve faltar.
    Todavia, tudo tem preço, preço que via de regra é altíssimo e a cobrança é CERTA!
    Salve-se quem quiser e se puder!
    Abraços fraternos!

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