Elogio ao Egoísmo


Boa parte das pessoas se levanta para professar louvores ao chamado “altruísmo” como forma de evolução moral e de caminho para a paz com seus semelhantes. Outros termos aromatizados artificialmente são utilizados como sinônimos, tais como: caridade, amor incondicional, empatia, generosidade, etc.

Mais frequentemente, ainda, confundem aquele mesmo altruísmo com alienação, transferindo aos outros a responsabilidade por suas mazelas e insucessos. Não! Você é o único responsável por seus sucessos e insucessos. Se outros te prejudicarem de forma direta, reaja de forma estratégica ou direta (mas reaja). Mas, então, como sermos felizes by ourselves (por nós mesmos)?

Para responder a essa questão (e a outras) é que proponho este elogio ao egoísmo. Vamos lá?

Egoísmo, segundo a Wikipedia, seria “o hábito ou a atitude de uma pessoa colocar seus interesses, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar, em detrimento (ou não) do ambiente e das demais pessoas com que se relaciona”. Há outra fonte que o caracteriza, praticamente, de forma idêntica ao narcisismo, como sendo “o amor excessivo e não moderado que uma pessoa sente por ela mesma e que a leva a olhar desmedida e quase exclusivamente pelos seus próprios interesses”. Essas duas referências acima, por ora, são suficientes para embasar minha contestação aos seus mesmos conceitos.

Os dicionários, diferentemente das antigas enciclopédias, passaram a expressar definições não mais do ponto de vista estritamente neutro e imparcial, mas como compêndio de compreensões do senso comum. Ou seja, não vale mais o rigor na descrição dos significados das palavras, mas aquilo que é tido como verdade, através das ideologias de massa, pelas pessoas.

O termo egoísmo vem de ego, palavra latina que denota o “eu”, expressão consciente de uma pessoa humana. Além do “eu” consciente, a Mente humana é composta de outras instâncias, como a “sombra” (Subconsciente) e o “id” (Inconsciente). Logo, egoísmo não é o excesso na expressão de si mesmo, numa série descontrolada de vícios e mazelas,  pois o ser humano virtuoso continua a ser ele mesmo, em ato puro, sempre influenciado pelos estímulos extrínsecos a ele, além de continuamente fustigado pelos resíduos subconscientes (traumas, desejos reprimidos) e heranças inconscientes (da espécie).

Sobre o Egoísmo

Eu definiria, preliminarmente, o egoísmo como a reafirmação de uma pessoa, em pensamentos, palavras e atos, de que ela é plenamente responsável por suas escolhas e ações (embora a contingência seja levada em conta, ou seja, em que condições aquelas se dão). Seja para o bem, seja para o mal, o egoísta é ativo, sempre. Tem iniciativa e toma para si responsabilidade que outros relutam em assumir. A estes últimos, chamamos alienados. Há, aí, a oposição entre o ego (eu) e os alii (outros).

Quanto à confusão feita entre egoísmo e narcisismo, posso dizer que, em certos aspectos, estes são diametralmente opostos. Narciso ama sua própria imagem no exterior (nos alii), enquanto o egoísta deseja que os alii sejam incorporados ao seu ego. Narciso cai, passivo, sob um mundo à sua imagem. O Ego age para reformar (ou destruir) o que de ruim ou bom de si ele projete na imagem que ele tem dos outros.

O ser humano é uma ilha cercada de espelhos por todos os lados.

Sim, em uma coisa, ambos concordam: o ser humano é uma ilha cercada de espelhos por todos os lados. O narcisista, portanto, cai na definição do que chamamos ególatra: ama o Mundo que ele pensa ser ele mesmo. O egoísta ama a si mesmo, pensando conter o Mundo no qual ele reflete. Ou seja, o Ego reflete o lago, não o oposto. Ainda confuso(a)? Continuemos!

Ego injustiçado

Todo ser humano nasce, fundamentalmente, egoísta: pensa com o Ego, fala e reage através do Ego, sonha pelo Ego e morre sem o Ego. Em todos esses casos, o Ego é apenas o agente pelo qual uma essência (que chamamos de alma) se manifesta a si mesma. O Mundo é apenas uma imagem reconstituída no fundo do cérebro. Tudo existe, para cada um dos egos, somente dentro da Mente.

Não há coisa alguma lá fora, além de uma ilusão: tudo o que ele fizer, atuará, a partir da primeira pessoa, apenas nele mesmo. Inclusive, o que ele sentir como feedback das outras pessoas serão, apenas, sensações. Se ele estiver desativado, o que ele sentirá se lhe dilacerarem o corpo por conta de um mal por ele feito a outros?

Jesus teria nos dito que o Reino de Deus está dentro de nós. Ora, tudo está, a rigor, dentro de nós. Não há alii, os outros lá fora, a não ser nossa Consciência de que há “outros” dentro de nós. Por isso, também diz um mandamento de Deus: amai ao próximo como a ti mesmo! Não há amor ao próximo (que está, virtualmente, em nós) sem que nos amemos. Dar um pão a alguém faminto deve ser um ato egoísta por excelência, consciente, sem máscaras. Há, ali, um interesse básico: fazer-se bem. Ainda que o corpo do egoísta padeça fome, terá alimentado sua própria alma, de forma consciente, antes de doar o pão ao faminto.

Negar que há interesse em tudo que pedimos, agradecemos, fazemos ou permitimos é o mais boçal dos erros e uma das mais traiçoeiras ilusões. Se não houver interesse (“estar entre um ponto e outro”, em latim) ao buscarmos o Reino de Deus, que valor ele terá?

Amor incondicional, que diabos é isso? A ti e a mim, segundo a Justiça! Deus é meu Juiz (Deus meumque Ius) e Ele está em mim. Que este Deus que está em mim saúde (e cumpra a Lei) de Deus que está em ti! Do contrário, separamos nossos corpos, pois as Consciências de ambos não refletem as mesmas leis.

Dar sem exigir nada em troca do “outro”? Sim, o outro está em mim e não posso cobrar dele, em mim, o que de mim saiu. Deus, que está em mim, me honrará, em mim e somente em mim. O outro, me percebendo nele, também desfrutará do cumprimento da Lei da Correspondência: se você der a outro, receberá de Deus, que está em si, mais de Deus que está em mim.

O Ególatra

O ególatra é o egoísta que não deu certo. Ele é narcisista, basicamente. Mas, enganam-se os que pensam que narcisistas são apenas adoradores de sua própria bela imagem no lago que projetam nos outros. Eles também odeiam sua imagem frustrada, obsediando a si mesmos com um tipo de opressão quase diabólica. Falam muito (frequentemente vociferando), ouvem pouco. Atribuem todos os erros e mazelas aos outros, esquecendo que o faz a si mesmo (pois, os “outros” estão neles mesmos). Condenam, criticam, gritam incessantemente, com o único intuito de calar a Besta que, diante de seu Deus, os acusa de dia e de noite.

Quando o ególatra se gaba de seus feitos, é para obliterar seu próprio Deus, já que esse Deus, que habita o fundo de seu Ser e tudo criou, trabalha em silêncio. Na verdade, todos os seres deveriam se comunicar em silêncio, com gestos suaves, em perfeita ressonância e em sublime liberdade. O espaço virtual em cada um é infinito e, por isso, as pessoas deveriam viver plenamente, primeiro, em si mesmas, para depois projetarem essa plenitude em seus espelhos (ou “outros”, que estão neles). Ao contrário, vivem para seus espelhos e esquecem-se de si, forjando uma atitude que chamam de altruísta, numa ilusão generosa de amor que não respeita as leis de Deus (que habita nele e busca preservar o Mundo que ele é).

>> 🙂 Pausa para iluminar a Mente e aprender mais:

O amor próprio

Não há Amor aos outros (os “espelhos” do Ego) que não passe, primeiro, por si mesmo. Nele, a Beleza, a Verdade e a Justiça devem ser os supremos fundamentos. Nisso, os gregos nos ensinaram a harmonia estética e do pensamento. Também, a retidão na busca pela Verdade e o senso racional na perseguição pela justa medida em todas as situações.

Se você renuncia, sem critérios, aos princípios que norteiam seu Ser (sejam eles quais forem), você não ama, mas apenas dá seu pescoço a um cabresto alheio. Geralmente, tal cabresto pertence a um ególatra. Logo, você, ao deixar de ser egoísta, privilegia um ególatra. A tolerância não é, nem nunca foi, coisa boa. Afinal, por que chamariam os prostíbulos de “casas de tolerância”? Resposta: ali, valia tudo, entra e sai quem quiser, faz-se o que bem entende, pois ali todos eram indiferentes. G. K. Chesterton declarava que a “tolerância (no sentido de indiferença) é a virtude do homem sem convicções”.

O amor próprio atua, primeiro, na edificação e fortalecimento do ser humano. Assegura sua preservação para que, diante da Vida, possibilite à pessoa assumir, plenamente, suas responsabilidades diante dos outros (que são “espelhos” dele). Sem amor próprio, um homem está à mercê dos diabos que assumirem o controle dos “espelhos” a quem ele se liga. Se o homem não se ama, ele se odeia. Se ele se odeia, odiará o próximo enquanto lhe serve como escravo, vivo ou morto.

***

Portanto, o egoísmo é fundamental à sobrevivência e à saúde mental do ser humano, num mundo em que seus “espelhos” são hostis à harmonia. Inclusive, é com o ego que ele critica seu ego. Quando nos voltarmos para dentro de nós mesmos, com nosso Ego iluminado pelo Sol da Justiça, e nossas sombras subjugadas (mitologicamente, após a “derrota do diabo”), então estaremos prontos a ceder nossas “cabeças” a uma Consciência de grupo que não seja tirânica (ou diabólica).

 

 

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