Sobre a inquietude após a Mudança


Entre uma e outra proposta de trabalho, enviada ou recebida, algo me inquieta nesta madrugada. É como a dor da Nostalgia. Porém, a mesma é por alguém que não se foi. Ou melhor, é por alguém que permaneceu só em forma de perfume e imagem. Mudou-se de mim para uma terra tão distante e, no entanto, sensível aos pelos da face.

Talvez, ela não mereça que eu aqui escreva pela falta desesperadora que ela faz a esse Coração. Alguns me diriam que é a dor do desapego que nos traz essa inquietude. Buraco, esse, perturbador, cheio de nada, pleno de choro sufocado, de gritos presos na garganta, de saliva que não fora engolida.

Você, após alguns dias, não chora mais se, por acaso, você tem forças para trabalhar e se distrair com bobagens, dois copos de chopp ou planos para o futuro incerto (que vão além da letra B, quiçá da letra Z). Outras pessoas mais críticas me crucificariam, não sem estarem eivadas de algum despeito, por eu me “arrastar” assim por alguém que só sabia pisar na cabeça do “cachorro moribundo”.

Serei breve, caros leitores. Breve como o é o miado de uma gata cansada pelas dores de parto de uma noite inteira. Na verdade, serei breve porque é mais longo o olhar distante deste ser que, tal qual cachorro vira-latas, caiu (ou foi solenemente expulso) de um caminhão de mudanças.

Correu, latiu, partiu em direção à estrada até que dela não restasse vestígio. Nem sequer uma écharpe azul foi deixada para trás. Voltou-se, chorou para a Lua da quinta noite de Outubro, suplicou-lhe que alguém viesse em seu resgate. Em vão. Sonhou, deitado na grama que tornou-se sua cama, com ela fitando-lhe com seu olhar, ora recriminador (como de costume), ora compassivo. Latiu, amargurado pelo abandono. Ganiu, com medo, pedichando abrigo.

— Tratarias o Willie Nelson assim? – reclamou o vira-latas.

De pronto, a mulher calou-lhe, dizendo que o labrador em questão seria mais fiel e que ela jamais havia escondido coisa alguma dele. Disse-lhe, ainda, que ele deveria procurar uma nova casa e uma outra dona “melhor”.

Acordou ele, em meio aos primeiros raios da tarde, após um longo sono. A grama revelava-se solitária. Preferia voltar a dormir, pois havia algo mais duro que a fome: o pesadelo de ter sido rejeitado. O som daquela voz, dizendo-lhe que ali terminava a conversa e que ele seguisse seu caminho em paz, ainda ecoava em sua mente de cão sem dona.

O Coração do Homem, que também é um animal, não guarda as justas medidas de coisa alguma. A Morte, a perda e o Amor tomam proporções inimagináveis, e seus ecos como que ricocheteiam dentro da gente. Por isso, o cão do filme Hachiko tem muito a nos ensinar.

Se a Vida segue? Sim! Até os cães sabem disso. Os homens é que nada sabem. Para quase todas as outras perguntas, ao menos por um longo tempo, a resposta será ‘não’. Não olho para trás. Não brigo com gente irrelevante. Não me dou pela metade. Não vivo no Passado. O erro foi dar-se por inteiro sem ser suficiente para alguém.

Não. Somente eu, mais do que eu.

A. V. G.

FIM

Escreva abaixo seu comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.