Parábolas do Silêncio


Eu poderia manter-me em silêncio, agora. Porém, se a palavra é de prata, o Silêncio não remete a metal precioso algum. Não, o Silêncio não é de ouro e sequer reluz. Com efeito, o Silêncio é como uma névoa extremamente sutil, cheia de virtudes misteriosas e balsâmicas para uns e de ácidas conotações para outros.

Imagens comunicam mais que mil palavras, diz o vulgo. O Silêncio não comunica coisa alguma, apenas incomoda a uns enquanto faz derrubar muralhas a outros. Muralhas invisíveis, disfarçadas por sorrisos insinuantes, maledicentes e cheios de rancor, caem, também, por obra do silêncio ensurdecedor ouvido apenas pelas fibras dos travesseiros, na noite alta. A provocação de certos tipos de riso é inútil diante do ne plus ultra do impávido silêncio daquele que não se comove com as atitudes de pessoas infantis e fanfarronas. Mal conseguem essas recolher os vestígios de suas próprias frustrações ou ocultar os desvarios de sua vaidade.

Silêncio, ao contrário do que muitos dizem ser, não é o mesmo que desprezo. Silêncio é o suprassumo das técnicas de anulação da oposição a algo ou alguém. Desprezo, como o próprio termo já denuncia (em espanhol, desprecio), é o ato de atribuir um valor baixo a algo ou alguém. Algumas pessoas não se contentam em demonstrar quão pequena é a importância que outras pessoas lhes inspiram, mas, em soberba flagrante, teimam em querer esfregar em riste a frustração pela qual passam, como se os outros (sempre, os outros) fossem os responsáveis por suas atitudes pouco humildes, desde a fundação do Mundo.

Há pessoas que querem fazer barulho. Anseiam falar, tagarelar, gritar e impor-se aos outros. Precisam, mesmo, abafar a voz alheia como se ela fosse um ataque perigoso ou uma ameaça em potencial. No entanto, o Silêncio é-lhes mais ofensivo e ultrajante. Não há resposta para o Silêncio, a não ser mais e mais tagarelice, esperando que as massas delas sintam pena ou, por outro lado, admirem-nas, comprem suas dívidas e dores, afaguem-nas e retardem-lhes, por alguns anos, quiçá, a cobrança implacável da Besta vaidosa que nelas habita.

No Silêncio, apenas, a rocha e o escudo. No Silêncio, a certeza de que a dor passa com a resistência e o olhar para o próprio Interior. O Silêncio introjeta a humilhação, exalando apenas um hálito suave e a desilusão que logo conclui seu trabalho de higiene mental. O Silêncio nos faz observar (guardar) nossos pensamentos como se estivéssemos a cuidar de bebês chorões. Ele acalma nossa insegurança, aplaca nossos pesares, ameniza nossa falta de ar, seca nossas lágrimas e nos faz dormir o sono dos que nada mais podem esperar. Quem espera algo, é porque não tem aquilo e por aquilo se debate; quem já não espera — e desespera —, ou escolhe se vingar de si e do Mundo, ou escolhe deixar-se cair, silente, no chão do quarto. Sem alardes, sem risos forçados, sem olhares ferinos e desdenhosos.

Pela virtude do Silêncio, respiramos de uma maneira mais branda e falamos menos. Quem inspira o ar mais calmamente, não sente mais o ímpeto de proferir requiem por aqueles que não desejam descanso. Há pessoas que calam-se diante da Vida que brada para depois bradarem pelo inconveniente Silêncio da Vida. Ora, quão burlesca é essa postura de capricho desequilibrado da parte de alguns seres ditos humanos!

É certo, pois, que o Silêncio é semelhante ao “apagão” no Teatro em noite de encenação de uma tragédia grega. A maquiagem é esmerada, meticulosamente espalhada sobre o rosto, já irreconhecível de antemão. As luzes se apagam, não obstante o dramalhão em ato, intercalado com risos de uma Medeia sem Jasão. Ser ou não ser, perguntado à plateia, não obtém o olhar esperado, pois não é lícito misturar Shakespeare a Eurípedes. Medeia sem filhos, Medeia sem orgulho, Medeia só ou mal acompanhada. O que será de Medeia sem Jasão, aquele crápula?

Diriam outros que o Silêncio é como a lasca de pedra no caminho de um sapato carmesim de salto de número 15. Um segundo antes, a vaidade te alça acima das reses que por ti passam e, logo então, estás a sentir pedriscos encravados em tua bochecha e a cheirar a poeira levantada pelos sapatões dos peões de obra.

O Silêncio insiste em travestir-se, novamente, aos leitores, tal qual um expectante farol no alto de um precipício. Ele alerta e dá mensagens sem qualquer ruído; orienta sem gritos; vela por quem deseja segurança e ameaça aqueles que escondem-se de suas vãs intenções. Mariposas enlouquecem diante do facho de um vaivém monótono. Almas aflitas sob ele se abrigam. Ao longe, em alto mar, viajantes por ele são guiados e piratas da Noite se comovem, pendurados nos mastros de seus navios assombrados.

O Silêncio é a arma de defesa persuasiva mais eficiente e terrível que existe. Por ele, uma Guerra é vencida sem dar-se um tiro. Por ele, é vão o artifício dos que simulam e dissimulam soldados com que não contam.

No entanto, o Silêncio zela pela Noite, faz descansar a carne cansada e acalma a voracidade de todas criaturas vivas. Ao Silêncio, me retiro. Calem-se os reclames, pois a criança birrenta precisa engolir os soluços e aprender a lidar com os mosquitos obsessores de sua mente e sedentos por seu sangue.

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