O Amor e nossos bisturis


Estarrecidos, assistimos o trivial das relações humanas nos dias atuais: muita argumentação fútil, pouca ação, quase nenhuma boa vontade e milhares de empecilhos inventados a toque de caixa. E eis que poucas são as pessoas que realmente sabem o que querem e se decidem a abrir caminho onde não há sequer atalhos.

De um lado, uma parcela significativa das massas rejeita, como incômoda, a realidade objetiva, preferindo o que é plástico, efêmero e descartável. De outro lado, as pessoas realmente decididas a algo, seja o que for, protagonizam os grandes terremotos do Mundo humano, não importando se propiciam as grandes mudanças pelo caminho reto ou por qualquer outro caminho possível.

As vozes da sociedade nem mesmo falam, repetindo, apenas, as bobagens que escutam nas novelas, que absorvem nas palestras de gurus de araque, que devoram nos livros de pseudo-ajuda (mingau com letrinhas) e nas embalagens antigas de Freegells (quem é do meu tempo, lembra).

O Amor é bem isso: guardar o Caminho, sofrer por ele, cair e levantar, sujar-se e nele limpar-se (pois não há tempo). É vibrar com a pessoa que acompanhamos (mesmo sabendo que ela, por ser diferente de nós, nos decepcionará, cedo ou tarde). Implica em cobrir nossa vergonha, vigiar nossos erros e nos perdoarmos (a nós mesmos). Nós, que amamos com a Alma, combatemos nossa Besta e com ela negociamos uma trégua.

O Primeiro Amor deve ser dedicado, sempre, a mim mesmo: só posso dar o que eu carrego comigo. O outro Primeiro Amor será dedicado ao outro como a mim mesmo. As pessoas mais falam de Amor do que o vivem não por serem ainda incapazes de amar, mas porque, não se conhecendo, não sabem sequer a quem amar por primeiro.

Esse Amor é o Bem maior, senão mesmo a busca por qualquer bem ou realização que sobreviva ao Tempo e à nossa sádica autopiedade (como a nos afagarmos com bisturis). Identificamos o que nos faz sofrer e, ao invés de enfrentá-lo em nós mesmos, cruzamos os braços e vamos jogando nossos desafios para debaixo do tapete. Sentimos que ficamos devendo algo à Vida e que não buscamos a coragem para assumirmos, ainda que com medo, o que queremos.

Como eu havia dito certa vez, quem vive com medo, não tem — e jamais terá — tempo para amar. Em outras palavras, amar implica em decidir, corajosamente, pagar o preço pelo que queremos mais do que pelo nosso conforto (falsa sensação de segurança). O Coração não é medroso. A sede do medo está em nosso ventre, e daí vem a fama daquelas pessoas que carregam o “rei na barriga”, a promessa que jamais virá a se cumprir sem renúncias e dores.

Por mais certa que pareça nossa derrota ou por mais angustiante que se mostre a expectativa da dor, não podemos fugir, por muito tempo, do magistério da Vida. Não haverá progresso na Vida daquelas pessoas que se recusam a passar pelo ordálio de algumas lições que, com toda a certeza, as perseguirá sem descanso pelos labirintos escuros da covardia, entre desculpas esfarrapadas e rancores invencíveis.

É é justamente o contrário o que procuro fazer, com fogo nos olhos. Não nos machuquemos mais nem prolonguemos tal sofrimento! Enfrentemos o aniquilamento supremo de nossos medos na fogueira da entrega. É justamente a dor a alegria final do aleijado e do insensível; é ela que nos dá a certeza de que estamos, ainda, vivos.

2 comentários sobre “O Amor e nossos bisturis

  1. “Como eu havia dito certa vez, quem vive com medo, não tem — e jamais terá — tempo para amar. Em outras palavras, amar implica em decidir, corajosamente, pagar o preço pelo que queremos mais do que pelo nosso conforto (falsa sensação de segurança). O Coração não é medroso. A sede do medo está em nosso ventre, e daí vem a fama daquelas pessoas que têm “o rei na barriga”, a promessa que jamais virá a se cumprir sem renúncias e dores.” PARABÉNS! O TEXTO MAIS LINDO FEITO POR VOCÊ ATÉ HOJE! FELIZ COM SEU AUTOCONHECIMENTO EM PROGRESSÃO GEOMÉTRICA SEMPRE! ABRAÇOS FRATERNOS!

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