Manipulação nas relações afetivas


Até que você perceba que você está sendo manipulado, vai lá um longo caminho de dúvidas e sentimentos de culpa. É horrível, sim, esta constatação. Ela expõe, diante de nós (senão de outras pessoas também), nossas fragilidades. Todos temos pontos fracos, e as pessoas manipuladoras exploram-nos exatamente porque elas sabem quais são os próprios pontos fracos (antes de nós).

Podemos encontrar vários níveis de manipulação. A seguir, tento expor minha visão e experiência sobre o tema, mostrando, com o auxílio de material de apoio, como identificar e enfrentar pessoas manipuladoras, estejam elas inseridas no seu ambiente social, de trabalho, na sua família ou seja aquela pessoa que você ama. Porém, aqui tratarei do perfil da pessoa manipuladora em relacionamentos afetivos, pois que foi nesse campo que passei pela minha experiência mais traumática.

Vamos pular a definição genérica do termo em si e avançar para o que nos interessa. A manipulação pessoal, especificamente, é a capacidade de administrar dados, fatos, emoções, qualidades e deficiências, próprias ou de outrem, em proveito próprio (e unicamente próprio).

Você acha que está sofrendo manipulação em seu relacionamento? Suspeita que é um fantoche ou escravo(a) de quem você gosta? ENTÃO, ESTA MATÉRIA É PARA VOCÊ!

A manipulação pode ir de uma simples indução sutil a uma inversão total de valores e fatos. Se é uma indução sutil, a manipulação não envolve vínculo e é quase imperceptível, gerando apenas algum desconforto na vítima. Se chega ao nível da inversão total, há um sequestro quase absoluto da liberdade do indivíduo manipulado, acompanhado das sensações de opressão e de ter sido amordaçado, amarrado, literalmente.

É inegável que, hoje, a maioria das pessoas não sabe lidar com as próprias emoções. E mais: não sabe o que quer. Sofre com a própria vaidade, em maior ou menor grau. A vaidade vem de vanitas, qualidade do que é “vão, vazio”. O vazio existencial é predominante na sociedade atual e isso gera muita ansiedade nas pessoas. Quanto mais vazias elas se sentem, e frustradas, mais precisam tapar o sol com a peneira, ou seja, ser menos inseguras que as outras (e isso tem a ver com a sensação de insuficiência de cada um). É aí que entra o vício pelo poder subterrâneo dos que, vivendo em prisões sem grades, precisam assegurar o predomínio sobre outros de alguma forma, como se disso dependesse a própria sobrevivência moral. Há uma reputação a qual zelar, seja ela profissional ou moral.

Definindo o perfil

O perfil pode variar, porém algumas características são quase onipresentes nos manipuladores. Vamos às principais (não necessariamente nessa ordem):

  • Agilidade mental: identificam rapidamente os pontos fortes e fracos das pessoas em redor e, principalmente, daquela à qual se liga afetivamente;
  • Inteligência emocional: sabe alternar entre dureza nas palavras e suavidade quando lhe convém, conseguindo, inclusive, combinar essas duas qualidades (como a pessoa que faz perguntas tendenciosas e enviesadas em um tom de voz delicado);
  • Popularidade: ou é conhecida pelo carisma ou pelo destempero, atraindo olhares, a simpatia (ou medo) de outros para seu grupo (isolando aquele que deseja chantagear, manipular ou calar);
  • Hipocrisia: quando tem a oportunidade, e se isso lhe for útil, faz o que diz jamais fazer e erra onde “não costuma” errar (sob a escusa de ser “humana” e falha);
  • Prepotência/Vitimismo: querem dominar a todo custo, seja adotando postura intimidatória, seja vitimizando-se;
  • Cinismo: pessoas que justificam seus erros pelos erros alheios, ignorando a contradição gritante;
  • Cinismo (2): nega, de pés juntos, qualquer evidência de que mentiu ou que pretendeu mentir, trair ou que pretendeu trair, denegrir ou que pretendeu denegrir a vítima (passando ela, sim, por vítima de “calúnia”);
  • Orgulho: a humildade é apenas aparente, não demorando a arrotar soberba quando desafiada;
  • Ambiguidade: usa um peso para si e outro peso distinto (mais severo) para a vítima, em quase todas as situações (a não ser quando o outro faz o que lhe apetece à vaidade);
  • Oportunismo: usa os pontos fracos e erros passados de sua vítima sempre que é necessário lhe incutir a culpa, provocar o medo da perda e promover a submissão daquela aos seus ditames, calando qualquer crítica indesejada (e toda crítica é repelida com fúria);
  • Autoritarismo: começa, interrompe, pauta, mantém e termina uma conversa quando bem quer, sem o menor senso de reciprocidade.

Manipulação e ambiguidade

A pessoa manipuladora, geralmente, é coalhada de fragilidades, falhas, remorsos e traumas do passado. Sendo inteligente, não se perdoa por ter sido enganada, violentada, passada para trás ou ter perdido boas oportunidades na Vida. Nada estará bom pois não se conforma com as escolhas que fez ou ainda faz. Como forma de prevenir novas decepções, sofrimentos e/ou segurar, bem firme, as rédeas daquilo que pensa ser de seu direito, busca controlar as pessoas ao seu redor, seja no “grito” (intimidação), seja pela barganha.

A manipulação de uma pessoa assim quase sempre apresenta “dois pesos e duas medidas”. Se ela faz algo errado, reluta, enquanto pode, em pedir desculpas. Se pede, é quase imperceptível. Se promete reparação, é da forma que quer e quando quer. Quando a vítima erra, não importando se é por uma falta grave ou simples, além de não perdoar facilmente, rememora eternamente quando lhe convém. Se você reclama da lembrança constante de sua falta, ela está apenas lembrando do fato; se é ela que erra e você lhe traz à memória, é porque você não é capaz de esquecer e não tem “misericórdia”.

Se você esconde algo, você deve estar aprontando; se ela esconde, é porque tem medo de sua reação. Se você esconde algo grave, é porque você enganaria ela até a velhice; se ela esconde, é porque ela iria te contar em seguida e você não teve paciência de esperar. Se você parece gentil demais em resposta a alguém, é porque já está de paquera com a pessoa pelas costas; se ela se derrete, lisonjeada, é porque estava sendo gentil, não tinha nada demais e — pasme! — ainda é capaz de dizer que a terceira pessoa lembrava você. Se ela é ciumenta, você deve ter paciência (afinal, ela está zelando por você); se você demonstra ciúmes, é porque você é uma pessoa desequilibrada e que está tentando controlar até para quem ela olha.

Manipulação e opressão

Não adianta! A pessoa manipuladora sempre vai explorar suas fraquezas, amplificando seus erros e minimizando (às vezes, justificando) os dela. A manipulação utiliza, basicamente, a culpa e as necessidades emocionais do outro. Se você deixá-la segura demais e enchê-la de certezas, prepare-se, pois você estará assinando sua Carta de Escravidão Perpétua. Chegará o tempo em que você não passará de um fantoche automático a dizer “amém” a tudo que ela diz, faz ou quer.

Os assuntos proibidos por ela serão tantos (quase sempre aqueles que te tiram a paz) que você será sufocado por uma mordaça onipresente. Você não terá mais direito a discordar. Se você discordar, terá que usar palavras que não a “magoem”. Porém, quase sempre, você deve evitar qualquer reação negativa diante de algo que ela faça, sob pena de ser tachado de esquizofrênico e contestado de forma agressiva (ela, sim, pode ser agressiva e, de forma cínica, chorar em seguida). Sim, você não poderá mais dizer um “ai”. Nada.

Se você for uma pessoa ciumenta ou desconfiada, uma forma certa de te controlar será deixando pistas para você seguir ou provocando, intencionalmente, seu ciúme. Você, como coelho inquieto, colocará as orelhas para fora da toca e — pronto! — lá se foi o seu autocontrole. Ela dirá que você não muda, que é uma pessoa desequilibrada, que você não confia nela e que não dará certo a relação entre vocês. Você se sentirá culpado e com raiva, ao mesmo tempo, e isso levará a um conflito intenso dentro de você. Como você já deverá ter se acostumado à dependência e à escravidão, você cederá a ela, ainda mais dócil e obediente.

Manipulação e cativeiro

Se, por acaso, ela perceber que você “acordou”, ela pode terminar com você. Assistirá, com um balde de pipoca no colo, você perseguindo-a em todos os cantos, telefonando até para amigos distantes, vigiando todos os perfis sociais, cumulado de culpa e “amando” ela, a procurar o perdão dela. Aí, jovem, se você percorrer essa via-sacra, você estará no estágio terminal da falta de vergonha na cara. Você será levado a:

  • ceder, sinceramente, em 1.989 pontos de convicção pessoal;
  • “depurar” todos os seus perfis sociais (de preferência, entregando todas as senhas deles);
  • não tocar mais em 482 assuntos proibidos (que deem a ela o trabalho de mentir);
  • não sentir ciúmes (e, se sentir, engoli-lo com solução de cloreto de magnésio);
  • parar com “encheção de saco”;
  • não duvidar de coisa alguma que ela lhe fale (amém, amém!);
  • não se irritar por questionamento algum dela;
  • aceitar ela como ela é (enquanto ela te atura enquanto puder); e
  • se possível, não perguntar o que terá acontecido se ela tiver que dormir na casa do ex-marido solitário.

Obviamente, ela não te aceitará logo de volta. Ela deixará você cozinhando, alegremente, na água fervente como uma rã passiva em um au-fureau dos “deuses”. Você deverá estar saltitante, pois a pessoa amada te deu uma nova esperança. Afinal, ela é generosa e te ama! Ela estará pensando e sofrendo por suas faltas. Ora, é óbvio que você pode, também, ter sido um cafajeste (ou pode nem ser nada disso). Mas, se a pessoa realmente te der uma nova chance, ela deverá se comprometer a evitar, sempre que possível, jogar sua culpa na face. Pois, com a “bota do guarda na cabeça”, nenhuma pessoa em regeneração terá autonomia para se levantar com segurança e voltar a se acertar na vida.

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Medusa, a mítica criatura cuja cabeça era cumulada de serpentes, vencida por Hércules.

Se, por acaso, vocês se separarem e você sair com sua sanidade mental intacta dessa caverna, então você figurará como alguém que usou e abusou dela. Quando ela tiver cansado de te usar (se isso acontecer), lhe dirá duas coisas: que ela não deveria nunca ter entrado na sua vida e “adeus”. Em uma só fala, ela encena um falso mea culpa (que nem ela percebe ser falso) e alimenta sua obsessão por ela. Dirá que te ama e que te deixa. Ora, para mim, Amor não é um sentimento, mas uma firme disposição de permanecer com alguém em uma direção desejada. Se ela te deixa por Amor, é porque espera que você corra atrás dela até que ela encontre uma nova vítima para vampirizar (que os vampiros chamam de carne fresca). Mais fácil é que ela tenha cansado de você, nunca tenha te amado, mas alimente tão-somente a falsa imagem que os outros fazem dela (para esconder de si mesma a verdadeira face da Medusa).

Como enfrentar a manipulação?

Basicamente, siga essas dicas:

  • Assuma seus erros, mas não incorpore a culpa em você;
  • Seja recíproco sempre que possível, tanto quando agradado como quando confrontado;
  • Não abaixe a cabeça diante da pessoa manipuladora;
  • Mantenha o autocontrole, não grite, e ouça atentamente para responder inteligentemente;
  • Sempre que possível, exponha-a às próprias contradições e ambiguidades;
  • Se a pessoa disser que vai te deixar, ela que vá (cada um é responsável pelo que fala);
  • Se ela te deixar, não corra atrás (mesmo que você esteja sofrendo);
  • Se ela quiser voltar, mas sem fazer concessões, ceda apenas no que ela ceder, igualmente;
  • Procure estabelecer com ela um pacto (e cumpra-o) em que ambos se vigiem e se policiem;
  • Ame-se, valorize-se, queira ficar com você mesmo, antes de se agarrar à outra pessoa;
  • Se você souber jogar no campo dela (ou seja, se você souber dos pontos fracos dela), não hesite em combater manipulação com manipulação; e,
  • Acredite: você sobreviverá sem ela.

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