Muito se fala em liberdade, principalmente quando em termos de ações humanas e responsabilidades individuais. Num mundo onde se prega a Ordem, há lugar comum para o que chamam de liberdade? E sobre o chamado livre arbítrio, o que teríamos a dizer?

Não é meu intento invalidar aqui, de forma alguma, ideias que busquem promover a autonomia dos seres humanos em sua jornada neste planeta. Porém, alguns apontamentos se fazem necessários.

Poderíamos conceituar liberdade, modernamente, como o “estado de ausência de limitações extrínsecas ao agente”. Porém, sabemos que subsistimos em um plano de realidade em que a ordem (cadeia hierárquica) é condição imprescindível para a sustentação de uma civilização, tal como a conhecemos.

Então, vem a questão fundamental: como poderia ser desejável aos poderes regentes das civilizações que seus membros constituintes detivessem liberdade?

As ações se empreendem a partir de um pensamento. Pensamentos coletivos movem ações coletivas. Estas, direcionadas pelo que chamamos de mente coletiva (egrégora), buscam o equilíbrio na balança do Poder, sendo que o mesmo implica em anulação de forças (posto que age sempre em sentido contrário), fazendo com que o progresso civilizacional linear (via acumulação de conhecimento) se torne inviável.

Para que ocorra uma ruptura da Ordem, a liberdade necessita provocar o caos, a destruição das estruturas ordenadoras e, por conseguinte, ao vácuo e à inércia. É por isso que, ainda que extremamente desagradável aos que seguem ordens e regras, a liberdade de pensamento e de expressão é algo indesejável aos poderes constituídos, exerçam eles seu ofício de forma vil (visando prazeres e gozos inferiores) ou de forma responsável (por uma subsistência da civilização).

Sobreviriam-nos algumas questões:

  1. Sendo todos iguais e tendo os mesmos direitos fundamentais, não se deveria, acaso, deixar a cargo de cada ser a orientação de seu próprio destino?
    • Para que prescinda-se de um governo aparente constituído, todos deveriam ser regidos, em seus âmagos, pelo mesmo sistema de valores e dominar aquilo que, em si, busca a subjugação do Ego (ou seja, aspectos subconscientes). Desta forma é que, provavelmente, os conflitos seriam eliminados antes mesmo que estourassem entre as pessoas. No entanto, isso pressupõe um estado de absoluto controle sobre as dissidências, o isolamento das pessoas em grupos homogêneos separados e harmonizados (submetidos) em relação a tal sistema de valores da maioria.
  2. Se um sistema é inteiramente inquestionável, ele seguirá sem oposições e as noções de progresso não serão evidentes. Há sensação de harmonia e Paz, mas a Força eficaz não é percebida. A Unidade seria, então, algo desejável?
    • Acho que, num sistema de realidade dual, como a que vivemos, a oposição mínima é indispensável para que a Ordem se faça sentir como necessária e, inclusive, desejável. É por essa razão que, em qualquer sistema de poder, as oposições serão toleradas e, por vezes, até sustentadas nos bastidores. No entanto, em sistemas realmente estáveis, a oposição real será, apenas, uma ilusão benevolente. Quando muito, a oposição, de fato, será isolada, desconstruída e até instrumentalizada para a manutenção do Poder.
  3. Como poderíamos chamar a liberdade exercida por uma oposição real ao Poder em um sistema regido pela Ordem?
    • Eu chamo esse estado de Liberdade marginal, em contraposição à Liberdade de fato, à qual eu chamaria de motus solutionis (movimento de dissolução, que tende ao caos). Aquela é a autonomia relativa com a qual, aqui mesmo, contamos, utilizada pelos Poderes apenas para a acomodação de grupos a eles submetidos e monitoramento de seus movimentos. Daí, o dístico maçônico Ordo Ab Chaos (do lat.: “Ordem a partir do Caos”), em que a liberdade é utilizada para o fortalecimento ainda mais acentuado da Ordem.
  4. O ser humano é livre?
    • Não foi, não é e jamais será. Se o for, destruir-se-á a si e aos seus semelhantes, posto que as relações tenderão à anulação de forças e, portanto, dos próprios fundamentos da civilização. No máximo, para aliviar as tensões advindas de suas necessidades sempre crescentes (quanto mais se desenvolva o intelecto humano), admite-se, da parte dos Poderes, a autonomia relativa, sempre moderada a partir de cima (ou seja, de um Poder Real e Moderador).
  5. O que limita o ser humano?
    • Condicionam o ser humano, a priori, instruções genéticas que ele carrega em seu DNA e em sua Alma, que moderam sua autonomia para se conformar ao plano de ordem dos Poderes, de acordo com as condições do meio ambiente, quantidade de recursos materiais a ele acessíveis e nível de condicionamento mental. Se for mais consistente a tendência do mesmo a fugir à ordem, o sujeito tende a ser destacado de seu grupo para estratos marginais da civilização, nos quais impera o caos ou, no máximo, uma ordem marginal (simulacro pífio da ordem regente).

3 comentários em “Apontamentos sobre a Liberdade

  1. A humanidade sempre foi egoísta, Caim e Abel que o diga, metaforicamente descrevendo.
    Deveríamos aprender com as abelhas, formigas e demais insetos, mas, creio que seria uma aberração termos exceções que seguissem esta regra (na minha opinião os insetos são os animais mais poderosos do planeta, proporcionalmente; talvez por isso o fizeram pequenos, quem sabe um dia sua dinastia comande. Dizem que as baratas resistem a tudo, ou quase tudo).
    Nossa natureza é esta, hiper-competitiva, onde os vitoriosos gostam de impor a opressão e achando-se que são superiores ao restante da manada, com raríssima das raríssimas exceções. No fim acabamos indo para o mesmo chão!

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