Glastonbury, a mítica ilha de Avalon


Há várias formas de lançar uma história real ao domínio do descrédito. Uma delas é eivando-a de contornos lendários. De uma só vez, blindava-se testemunhos orais e fatos históricos verídicos com detalhes que não se podiam comprovar (por falta de meios para isso) e impunha-se o selo do “sacrilégio” às populações impressionáveis que se atrevessem a contestar as versões oficiais, por profanarem a “santa” versão.

Dentro da História, com certeza, o ciclo de lendas que parece refletir um trecho verídico de fatos é o do Rei Arthur e o da busca pelo Santo Graal. Atualmente, ainda é muito explorado pela literatura profana e neo-pagã para sustentar teorias como as do cálice com o sangue de Jesus Cristo e sua suposta relação íntima com a personagem Maria Madalena (ou de Betânia), terminando por dar-lhe, na França e Grã-Bretanha, a localização de sua “linhagem sagrada”.

Fato histórico: Arthur existiu, e há várias fontes cristãs e pagãs que atestam isso. Arthur existiu e foi rei dos bretões em luta contra os invasores anglos e saxões, estes que também “evangelizavam” a Bretanha e a Europa Ocidental. A sacerdotisa Morgainn Le Fay (ou bruxa Morgana, a mais famosa da História ocidental) e o mago Merlin também teriam existido, todos contemporâneos de Arthur, tendo sido a primeira uma meia-irmã de Arthur.

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José de Arimateia, discípulo de Jesus

A tradição cristã ocidental da Grã-Bretanha, tão antiga quanto todas as outras tidas como “oficiais” pela Igreja, diz que José de Arimateia, o benfeitor judeu (membro do Sinédrio) que doou um sepulcro para o sepultamento do corpo de Jesus, aportou no local próximo de onde se localiza, hoje, a cidade de inglesa de Glastonbury. Isso teria se dado no ano 37 da era Cristã, ou seja, alguns anos após a Paixão de Cristo.

José de Arimateia teria permanecido preso em Jerusalém, por ordem de outros membros do Sinédrio, por sua simpatia pelas ideias do rebelde crucificado, Jesus Nazareno. Libertado pelo então procurador romano da época por seu talento em ganhar dinheiro no comércio, teria dedicado seus últimos anos à difusão da mensagem evangélica nos rincões mais longínquos da Europa, em companhia de outros apóstolos diretos de Jesus, tais como Tiago. Este Tiago seria o mesmo que teria evangelizado na Gália e na Hispânia (ou Espanha), onde teria morrido e onde se localiza sua mais famosa igreja, a de Santiago de Compostela (ou “Campo da Estrela”), destino de intensa peregrinação até os dias de hoje.

Pareceria fantasioso aos olhos de um crente de nossos tempos que um judeu pudesse viajar até tão longe da Palestina para fazer comércio e, muito mais, para evangelizar. Mas, lembremos que, desde muito séculos antes, fenícios e orientais já exploravam as terras do Norte da Europa em busca de metais e outras riquezas, as quais levavam para a costa oriental do Mediterrâneo. Não é ignorado pelos historiadores, pois, que os fenícios fundaram colônias ao longo de todo o Mar Mediterrâneo (sendo Cartago a mais notável delas), tendo chegado, sim, às ilhas britânicas e à Escandinávia.

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Glastonbury, a “Ilha de Vidro”

Glastonbury era chamada, na língua bretã antiga (e também em galês), de Ynys Gwydryn, ou “Ilha de Vidro”. Ilha, sim, pois, era (e é, até hoje) cercada por pântanos e charcos que dão-lhe a impressão de ser uma ilha dentro da Ilha da Grã-Bretanha. Este fenômenos ocorre também em outros locais do sul da Inglaterra. Tal significado está implícito no próprio nome da cidade, já que tem presente a raiz glass (“vidro”). Posteriormente, a mesma “ilha” veio a ser conhecida, segundo as mesmas fontes cristãs, como Ynys Afallach (ou “Ilha das Maçãs”), a mítica Avalon das crônicas medievais acerca do Santo Graal, que estava sempre envolta a brumas e névoas por conta da evaporação dos pântanos em dias frios.

Conta-se que, certa vez, algum tempo após José de Arimateia ter chegado ao local que viria a ser Avalon (como comerciante e discípulo de Jesus), ele fincou seu cajado no solo e o esqueceu ali. No dia seguinte, da madeira do bastão fincado no solo haviam brotado flores. Foi preservado como relíquia desde então, tendo crescido uma árvore em seu local e permanecido ali por vários séculos. Ficou conhecido como o Sagrado Pilriteiro, uma árvore que sabe-se crescer apenas em Glastonbury. Teria sido derrubado durante uma batalha no séc. XVI por um tiro de artilharia. Até hoje, os moradores do local, numa certa data do ano, festejam a memória do Sagrado Pilriteiro e de seu ilustre “plantador”. Tão curioso, no entanto, é o fato de também São José (o pai adotivo de Jesus) ser retratado como portador de um bastão florido pela tradição cristã primitiva.

Outra razão que faz de Glastonbury um local singular na história do Ocidente é que foi ali que se ergueu, pela obra de José de Arimateia e outros discípulos, a primeira igreja cristã acima do solo, mesmo antes das igrejas fundadas em Roma. A perseguição e censura anticristãs, bem como tudo que vinha de Roma, não alcançaram a Grã-Bretanha com tanta força, o que faz desta terra a primeira onde o Cristianismo teria fincado raízes profundas. Dali, aos poucos, teria se espalhado por outros sítios dos bretões, de cidade em cidade. Por razões óbvias, o Cristianismo era aceito por seu caráter caritativo e não sectário, ao menos nos primeiros séculos. Com a chegada de missionários gauleses e saxões nos séculos seguintes, com sua sanha de abrir filiais de mosteiros por todos os cantos, o Cristianismo começou a sofrer forte oposição por tender a outorgar, ao povo, a supressão dos cultos pagãos. É nesse contexto que surgem os personagens Arthur, Lancelot, Morgainn Le Fay e o mago Merlin.

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O Santo Graal

Graal (em inglês, grail) significa uma espécie de copa ou cálice ritual. No contexto das lendas arturianas, o Holy Grail (Santo Graal) se refere ao cálice no qual José de Arimateia teria guardado parte do sangue que saiu da ferida aberta pela lança do centurião romano Longinus, um dos responsáveis pela execução de Jesus, o Nazareno. José de Arimateia teria guardado esse cálice como relíquia e o teria levado consigo para a Grã-Bretanha, onde teria sido preservado numa das igrejas abertas por ele e/ou seus discípulos.

Há várias hipóteses que ligam o título Santo Graal, dado ao cálice, a um mistério sobre seu conteúdo, tais como a que supõe que Santo Graal seja uma forma de falar Sang Réal (ou seja, “sangue real”, em algum idioma latino, tal como galego, catalão, ou francês arcaico). Outras traçam caminhos místicos para o observador. Algumas visões conjecturam que o Graal (o cálice e seu conteúdo) simboliza a imortalidade da alma e corpo de Cristo, o ventre de Maria Madalena com o “herdeiro” da linhagem real de Jesus ou mesmo o mais óbvio, que é a real presença do sangue não coagulado do Filho de Deus, o qual teria propriedades extraordinárias de cura e de operar outros fenômenos sobrenaturais.

A busca do Santo Graal norteou vários romances medievais, num tempo em que a arte era eminentemente voltada para temas cristãos e onde as práticas mágicas (não sem grandes porções de superstição) faziam parte do cotidiano da vida pagã. Lembremos que o adjetivo pagão vem de paguspaganus, respectivamente, a aldeia e o aldeão que nela vivia.

A cultura pagã era fundada nas tradições rústicas, em folclore rural e estritamente medieval. Quando nos referimos a “paganismo” para falarmos das religiões greco-romanas, cometemos um erro. Tais religiões, como praticadas nos grandes centros da Antiguidade, não têm nada de “pagão”, a não ser na sua origem. Ou seja, o “paganismo” é pagão enquanto se restringir às origens do culto aos deuses como ocorria nas primitivas aldeias europeias fora dos grandes centros, como entre os povos que viviam extra limites (do lado de fora dos limites) ou nas aldeias remotas.

O Santo Graal, digamos assim, é a reafirmação da cultura pagã eivada de elementos místicos orientais (transportado por judeus e soldados romanos, adeptos do culto mitraico), porém resistindo à outorga dos cristãos ocidentais. E, de um misto de guerras tribais e enlevo místico, foi capaz de fazer sobreviver, até nossos dias, o grande Pã das florestas europeias, ainda que o oráculo de Delfos, de forma tendenciosa, o tivesse dado como morto.

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O Rei Arthur

O Rei Arthur, ou Arthur Pendragon, foi um líder britânico, cuja historicidade ainda é discutida. Protagonista em muitas histórias ligadas à formação da própria Grã-Bretanha, teria lutado contra invasores saxões (vindos da Saxônia, localizada na atual Alemanha), sendo hoje considerado herói nacional naquela ilha.

Crônicas medievais, como Historiæ Regum Brittaniæ (História dos Reis da Bretanha), de Godofredo de Monmouth, tornaram a figura de Arthur em semidivina (no mínimo, mitológica). Herói e guerreiro, expulsou os invasores saxões, garantiu a paz por um tempo, tendo conquistado a Grã-Bretanha e partes da Irlanda, Islândia, Noruega e Gália (França). Obviamente, tornou-se figura-chave do orgulho britânico.

As lendas arturianas foram importantes por enriquecerem a literatura medieval, com novelas e contos conhecidos até hoje, como a espada Excalibur, o mago Merlin, sua esposa Guinevere, o cavaleiro Lancelott e os Cavaleiros da Távola Redonda, além da mítica ilha de Avalon (em galês, Ynys Gwydryn ou Ynys Afallach).

〉〉Mais sobre o Rei Arthur: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rei_Artur.

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